Reconhecendo território

<English version below>

Capítulo 3

Logo na chegada estava Elio, o fundador, acompanhado por Kira e Lisa, duas cachorras vira-latas que moravam por lá. Elio nos recebeu com um abraço carinhoso e nos mostrou as instalações. Começamos pelos Tambos, pequenas acomodações individuais. Ele ia mostrando quem ficaria onde e, para minha surpresa, fiquei com o maior. Tinha dois andares e duas camas, uma em cada um. Cada cama com um mosquiteiro. Era bastante aberto, coberto apenas por telas de proteção contra insetos.

Não era nada mal, mas era longe de ser um local onde eu me sentisse segura. Especialmente pela falta de iluminação. Não tinha como ter certeza de quem eram meus companheiros de quarto. “Tudo bem”, pensei, “tenho velas e lanterna”.

Fui conhecer o resto das instalações. A casa central era o local onde faríamos as refeições. Próximo à ela, havia um banheiro com eletricidade, que poderia ser usado à noite. Uma outra construção, grande e redonda ficava à sua direita. Era ali, na chamada Maloca, onde aconteceriam as Cerimônias, reuniões e workshops. O primeiro evento tinha hora marcada. Seria nesse mesmo dia, às 16 horas.

Voltei ao meu Tambo e desfiz a mochila. Quem já fez mochilão sabe o inferno que é viajar com o armário nas costas. É impossível manter qualquer organização. Estendi tudo em cima da cama, separei os produtos de higiene e decidi que dormiria na cama de cima. O mosquiteiro era maior, achei que dormiria melhor.

Na casa central estavam servindo o almoço. Uma boa variedade, mas em pouca quantidade e nada de tempero (era parte da dieta). Ao menos o abacaxi estava bem doce. Fiquei um pouco ali e logo estava na hora da primeira reunião. Era hora de entender a programação, conhecer a dinâmica e dividir minhas intenções com os outros participantes. Sentamos em círculo, bem no centro da Maloca. Foi Anna quem iniciou a fala. Ela explicou que antes de entendermos sobre o retiro, era importante que conhecêssemos à nós mesmos como grupo. Assim, pegou um novelo de lã, segurou uma ponta e passou o novelo para Elio que iniciou sua apresentação.

Elio era um italiano, formado em ciências sociais, que havia corrido o mundo para aprender sobre plantas medicinais e trabalhar com xamãs de diversas culturas. Havia fundado o Aya Healing Retreats e estava baseado em Pucallpa. Estava feliz com a recém conquistada permissão de residência concedida pelo País. Quando parou de falar, pronunciou “aho”, segurou a ponta da linha e jogou o novelo para mim.

Me apresentei. Falei sobre minha intenção de ouvir minha própria voz e aprender a me colocar como prioridade da minha vida. Falei que precisava mudar meu comportamento e que não sabia bem como fazer isso. Segurei a ponta da linha e joguei o novelo para Adelina.

Adelina era uma americana da Flórida. Experiente em aventuras como essa. Queria seguir seu caminho de cura, encontrar tranquilidade e novas experiências. Ela jogou o novelo para Nathan, outro americano, esse da Califórnia. Veterano do exército, havia passado boa parte da suas juventude em países do Oriente Médio. Depois de diversas tentativas de tratamentos e terapias convencionais, encontrou seu caminho de cura através da Ayahuasca. Já havia participado de doze Cerimônias.

Nathan jogou o novelo para Tracy, outra americana. Tracy parecia bem jovem, falou sobre ainda estar no processo de compreender suas intenções. Sabia que queria encontrar novos caminhos para sua vida, novos entendimentos. Compreendia que ali conseguiria descobrir mais sobre si mesma. Tracy, assim como eu, nunca havia experimentado Ayahuasca.

Tracy jogou o novelo para John, um inglês que mora já há alguns anos nos Estados Unidos. John vinha em busca de respostas. Assim como eu, estava tentando encontrar uma alternativa para sua vida, algo que fizesse mais sentido. De John para Tatiana, uma canadense da British Columbia. Uma jovem determinada a conhecer locais sagrados e a desbravar lugares fora e dentro de si mesma. Tatiana contou sobre seu desejo de um dia ser uma facilitadora e que, para isso, precisa ainda aprender muitas coisas sobre as plantas medicinais e sobre si mesma.

Ela passou a palavra para Otto, um australiano que já estava na estrada há alguns anos em busca do seu lugar no mundo. Otto falou sobre sua intenção e passou para Elyse, também australiana, mãe do Felix, que ainda não completara um ano. Elyse mora no Peru há quase dois anos. Disse ter encontrado no País o seu lugar. Fazia uma caminhada para seu próprio desenvolvimento. Entendia que ainda precisava evoluir. Por fim falou Anna, a facilitadora que havia iniciado a roda. Anna era americana, mas estava como residente no Peru. Buscou terapias e tratamentos indígenas e espirituais durante sua vida, passando por México, Índia e Peru. Nos acompanharia durante todo o processo.

Cada um prendia no dedo um pedaço da linha vermelha. Em grupo, formamos uma teia de energia, compreendendo que a partir daquele momento, a energia de um influenciaria na do outro. Foi como estabelecer um vínculo imediato. Era a criação de uma família que, pelos próximos dias, se conheceria pela coexistência em silêncio.

Elio então ditou as regras que passariam a valer a partir daquele momento, com exceção do silêncio, que iniciaria no quarto dia:

  1. O silêncio era obrigatório. A comunicação se daria por mensagens em um Livro do Silêncio, apenas entre participantes e facilitadores. Claro, os facilitadores estariam à disposição caso alguém precisasse conversar e havia um banco, onde a Maestra Juanita, nossa xamã, ficaria na maior parte do dia, em que se poderia conversar.
  2. Não seria permitido o uso de aparelhos eletrônicos. A não ser que fosse para escrever sobre a experiência, usar como alarme ou ouvir músicas espirituais e mantras.
  3. Não seria permitido o uso de aparelhos celulares para contato com outras pessoas. Em caso de urgência, deveria ser solicitado a um dos facilitadores.
  4. Leitura era permitida, desde que livros de cunho espiritual. Ainda assim, sugeria-se o foco no entendimento profundo de si mesmo. Havia pego um de Carlos Castañeda com o título “Os ensinamentos de Don Juan” da uma mini biblioteca que encontrei na casa principal.
  5. Abstinência sexual era obrigatória. Ninguém verificaria, mas era o ideal para manutenção do ambiente e para a apreciação da solidão.
  6. Recomendava-se o jejum. Conforme as recomendações da Maestra e as possibilidades de cada um.
  7. Era solicitado uma atitude de solidão. Isso significava não olhar, cumprimentar, sorrir ou se comunicar de qualquer forma com outro participante.
  8. Não era recomendado que olhássemos fotografias, seja da família, de amigos ou de comida.
  9. Manter um diário era altamente recomendado. Segundo os facilitadores, a experiência com a Ayahuasca pode não ser muito clara. Manter anotações das visões poderiam auxiliar o processo de entendimento posterior.

————

O dia seguinte iniciaria às 7h30 com uma aula de Yoga oferecida pela Anna. A participação não era obrigatória, mas recomendada. Depois do café da manhã, haveriam as consultas individuais com a Maestra Juana. Neste mesmo dia, após o jantar, Anna daria uma aula de Qi gong (tipo yoga), com movimentos iniciantes e uma meditação final para nos preparar para a primeira noite de sono.

Na ida para o quarto, a maior lua que já vi. Amarela, linda, cheia. Seu reflexo na água do lago. Ela parecia responder minhas dúvidas, me dizendo: “É isso mesmo. Confie no processo”.

Voltei para o quarto, na escuridão da floresta, e nada poderia me preparar para o que eu vi quando cheguei no Tambo. Já havia me encontrado com rãs, lagartixas e aranhas, mas até aí tudo bem. Haviam baratas por todo o segundo andar! Caminhavam por minhas roupas e se escondiam atrás da minha mochila. Entre pânico e compreensão de que eu mesma precisaria solucionar aquilo, voltei ao andar de baixo, baixei o mosquiteiro e dormi por ali mesmo. Deixaria a luta com as baratas para a manhã do dia seguinte, quando houvesse luz natural no cômodo.

Dormi relativamente bem. Era cedo e os sons da floresta ajudaram a esquecer das inimigas do andar de cima. Acordei às três da manhã e encarei a escuridão para a habitual ida ao banheiro. Retornei e acordei em tempo para a aula de Yoga.

aya

Chapter 3

Upon arrival there was Elio, the founder, accompanied by Kira and Lisa, two stray dogs that lived there. Elio received us with a warm hug and showed us the facilities. We started with Tambos, small individual accommodations. He was showing who would stay where and, to my surprise, I got the biggest one. It had two floors and two beds, one on each. Each bed with a mosquito net. It was quite open, covered only by insect protection screens.

It wasn’t bad, but I was feeling far from safe. Especially because of the lack of lighting. I couldn’t be sure who my roommates were. “Okay,” I thought, “I have candles and a flashlight.”

I went to see the rest of the facilities. The central house was where we would eat. Next to it, there was a bathroom with electricity, which could be used at night. On the right, another large, round building. It was there, in the so-called Maloca, where Ceremonies, meetings, and workshops would take place. The first event was scheduled for 4 pm that same day.

I went back to my Tambo and undid the backpack. Anyone who has backpacked knows the hell it is to travel with the closet on our backs. It is impossible to maintain any organization. I spreaded everything on the bed, separated the hygiene products, and decided that I would sleep in the top bed. The mosquito net was bigger, I thought I would sleep better.

In the central house they were serving lunch. A good variety, but in little quantity and no seasoning (it was part of the dieta). At least the pineapple was very sweet. I stayed there for a while and it was time for the first meeting. We talked about the program for the retreat, learned about the dynamics, and shared our intentions with the other participants. We sat in a circle, right in the center of the Maloca. Anna started the speech. She explained that before we understood about the retreat, it was important that we get to know ourselves as a group. So, she took a ball of wool, held a point, and passed the ball to Elio who started his presentation.

Elio was Italian, graduated in social sciences, and had traveled the world to learn about plant medicines and to work with shamans from different cultures. He had founded Aya Healing Retreats and was based in Pucallpa. He was happy with the newly obtained residence permit granted by Peru. When he stopped speaking, he said “aho”, held the end of the line and threw the ball at me.

I introduced myself. I talked about my intention to hear my own voice and learn to make myself a priority in my life. I said I had to change my behavior, but didn’t know how to do it. I held the end of the line and threw the ball at Adelina.

Adelina was a North American from Florida. Experienced in adventures like this. She wanted to follow her healing path, find tranquility and new experiences. She threw the ball to Nathan, another North American, this one from California. A veteran of the army, he had spent much of his youth in Middle Eastern countries. After several attempts at conventional treatments and therapies, he found his healing path through Ayahuasca. He had already participated in many Ceremonies.

Nathan tossed the ball to Tracy, another North American. Tracy looked very young, talked about still being in the process of understanding her intentions. She knew that she wanted to find new paths for his life, new understandings. She understood that there she would be able to discover more about herself. Tracy, like me, had never tried Ayahuasca.

Tracy threw the ball to John, an English man who was now a United States citizen. John was looking for answers. Like me, he was trying to find an alternative to his life, something that made more sense. From John to Tatiana, a Canadian from British Columbia. A young woman determined to visit sacred places and to explore places outside and inside herself. Tatiana told usnabout her desire to be a facilitator one day and that, for that, she still needed to learn many things about plant medicines and about herself.

She gave the ball to Otto, an Australian who had been on the road for a few years in search of his place in the world. Otto talked about his intention and passed it on to Elyse, also an Australian, Felix’s mother, who was not yet one year old. Elyse has lived in Peru for almost two years. She said she found her place in the country. She was on her own path of development, and though there were still some evolving to be done. Finally, Anna, the facilitator who started the circle, spoke. Anna was a North American, residing in Peru. She sought indigenous and spiritual therapies and treatments during her life, passing through Mexico, India, and Peru. She would accompany us throughout the process.

Each held a piece of the red thread on his finger. As a group, we formed a web of energy, understanding that from that moment on, the energy of one would influence that of the other. It was like establishing an immediate bond. It was the creation of a family that, for the next few days, would know each other by a silent coexistence.

Elio then dictated the rules that would apply from that moment on, except for the silence, which would start on the fourth day:

  1. The silence was mandatory. Communication would take place through messages in a Book of Silence, only between participants and facilitators. Of course, the facilitators would be on hand if someone needed to talk and there would be a bench, where Maestra Juanita, our shaman, would stay for most of the day, where you could talk as well.
  2. The use of electronic devices would not be allowed. Unless it was used to write about the experience, as an alarm, or to listen to spiritual songs and mantras.
  3. The use of cell phones would not be allowed to contact other people. In case of urgency, one of the facilitators should be informed.
  4. Reading was allowed, as long as it was books of a spiritual nature. Still, it was suggested to focus on a deep understanding of ourselves. I had taken one book by Carlos Castañeda with the title “The teachings of Don Juan” from a mini library I found in the main house.
  5. Sexual abstinence was mandatory. Nobody would check, but it was ideal for maintaining the environment and for enjoying the solitude.
  6. Fasting was recommended. According to Maestra’s recommendations and the possibilities of each one.
  7. An attitude of solitude was requested. This meant not looking, greeting, smiling, or communicating in any way with another participant.
  8. It was not recommended that we look at photographs, whether of family, friends, or food.
  9. Keeping a diary was highly recommended. According to the facilitators, the experience with Ayahuasca may not be very clear. Keeping notes of the visions could help the process of further understanding.
    ————

The next day would start at 7:30 am with a Yoga class offered by Anna. Participation was not mandatory but recommended. After breakfast, there would be individual consultations with Maestra Juana. That same day, after dinner, Anna would teach a Qi gong class (like yoga), with beginner movements and a final meditation to prepare us for the first night’s sleep.

On the way to the room, the biggest moon I’ve ever seen. Yellow, beautiful, full. Its reflection in the lake water was astonishing. It seemed to answer my questions, telling me, “That’s right. Trust the process”.

I went back to the room, in the darkness of the forest, and nothing could prepare me for what I saw when I arrived at my Tambo. I had already met frogs, geckos, and spiders, but so far so good. There were cockroaches all over the second floor! They walked by my clothes and hid behind my backpack. Between panic and the realization that I would need to solve this myself, I went back downstairs, lowered the mosquito net, and slept right there. I would leave the fight with the cockroaches for the next day, when there would be natural light in the room.

I slept relatively well. It was early and the sounds of the forest helped to forget the enemies from upstairs. I woke up at three in the morning and faced the darkness for the usual trip to the bathroom. I returned and woke up in time for Yoga class.

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O início

<English version below>

Capítulo 1
Quando entendi que precisava de cura, fiz o que toda pessoa normal faz: abri o Google e entrei pelo buraco negro e infinito da internet. Eu buscava por um retiro. Um espaço e um tempo para que eu pudesse refletir, meditar e cuidar de mim.

Sempre fui uma pessoa bem espiritualizada, mas nunca religiosa. Na verdade, religiões normalmente me afastavam da fé. Então busquei algo que pudesse me trazer uma expansão da consciência, ao mesmo tempo em que respeitasse minhas crenças, ou a falta delas. Queria um lugar neutro, onde eu pudesse ser eu mesma, sem negociações ou julgamentos.

Eu não sabia se existia um lugar assim. Nem exatamente o que é que eu estava procurando. Ou precisando. Mas nosso amigo Google me fez uma sugestão que me agradou à primeira vista. Um retiro de silêncio no meio da floresta amazônica peruana. Doze dias. Cinco rituais de Ayahuasca. Um plano alimentar com base em plantas medicinais. Uma xamã da tribo Shipibo. Meditação. Paz.

Era o que eu queria. Mas se era o que eu de fato precisava, eu só saberia mais tarde.

A maioria das pessoas estranha quando queremos curar a nós mesmos. Por que tantos dias? Não acha que são muitos os rituais de Ayahuasca? Vai pagar para fazer jejum? Por que não procura algo parecido no Brasil? Vai mandar notícias, né? Será que tu volta? Não tem medo de quem tu vais ser quando voltar de lá?

Os questionamentos me fizeram refletir ainda mais sobre minha intenção e, claro, fazer uma verificação profunda com relação a equipe do retiro. Elio, o fundador se mostrou muito prestativo desde o início. Respondera a todas as minhas dúvidas e mensagens no Whats App.

Não haver nenhum brasileiros entre os ex-participantes me intrigava. Mesmo assim, fui.

Nunca fui muito de planejar. Especialmente em viagem. Vou a la loca e vejo sempre no que dá. Logo, não me preocupei muito em ler os diversos arquivos com instruções que Elio havia me enviado. Por sorte, me atentei à tempo para o fato de que poderia haver uma preparação para o período na floresta. E assim foi.

As restrições iniciavam duas semanas antes do retiro, começando por não comer carne de porco, não praticar sexo ou masturbação, não consumir bebida alcóolica, não consumir nenhum tipo de droga (nem mesmo maconha, dizia) e não fumar. Me pareceu simples e consegui manter a dieta com êxito. Na semana seguinte a coisa era mais rigorosa. Adicionando as restrições da semana anterior estavam não comer carne vermelha, não consumir bebidas fermentadas (o que incluía meu sagrado kefir), não consumir gorduras (eu vinha de oito quilos a menos conquistados com a dieta cetogênica), nada com açúcar refinado, pouco ou nada de sal e pimenta e o pior de tudo, nada de café ou estimulantes.

Eu podia ficar sem álcool e sem sexo, mas sem café eu me transformaria em um risco sério para a sociedade. Consegui sobreviver a semana, mas os primeiros dias me fizeram passar por uma crise de abstinência que incluía dores de cabeça fortíssimas. Ainda assim, sobrevivi. E o fiz sem matar ninguém.

Capítulo 2
Era sábado. Eu daria uma aula naquela manhã. Uma aula sobre propósito, de vida e para os negócios. Decidi abrir meu coração e contar o que se passava comigo. Eu não sabia se era depressão ou burnout. Pouco me importava. A mensagem que eu queria deixar era de que eu estava indo em busca de cura. E aquele momento era o início do processo.

Fui da aula direto para o aeroporto. Voaria de Porto Alegre à São Paulo, onde ficaria por algumas horas. Depois um vôo para Lima e, de lá, para Pucallpa, cidade do nordeste peruano, bem próxima do Sui Sui Center, para onde eu estava indo. Eu, minha mochila, e algumas ideias na cabeça.

A chegada em Pucallpa foi melhor do que o esperado. Havia reservado um hotel de preço razoavelmente baixo para os padrões brasileiros, mas de alto nível para os padrões da cidade. Já no aeroporto, havia um carro me aguardando para me levar ao hotel. No dia seguinte eu pegaria um dos muito mototáxis da cidade para encontrar com o grupo do retiro.

Mototáxis são como charretes puxadas por uma moto. Ou como um tuctuc tailandês. Achei divertido o passeio, mas a falta de qualquer regra de trânsito para esse tipo de veículo me deixou um pouco apreensiva durante o caminho.

Cheguei no ponto de encontro e facilmente identifiquei um participante. Cara de gringo, grande mochila, só poderia ser. E era. Aos poucos chegaram os demais. O grupo era composto por oito pessoas e um bebê. Dois australianos, três americanos, um inglês, uma canadense e eu. Anna, a facilitadora que nos buscou, explicou um pouco do que seria o trajeto até o Centro, alguns quilômetros de estrada de chão por meio de uma região bem rural, e vinte minutos de canoa. Enquanto ela explicava, tentávamos nos conhecer. Logo soube que eu era uma das duas novatas nesse tipo de processo de cura através de plantas medicinais.

Nos dividimos em dois carros e iniciamos o trajeto. Era uma pilha imensa de mochilas que passou de uma caminhonete para a canoa. O último trajeto era encantador. Navegar pelos lagos, em meio a floresta Amazônica parecia cena de filme. Toquei a água, sentindo a energia que me alimentaria pelos próximos doze dias. Era morna, convidativa.

Logo avistamos o Sui Sui Center. Uma grande casa central, algumas acomodações menores e, ao fundo, mata fechada. Seria esse o meu lugar ou, por mais uma vez, eu estaria de passagem? Minha vida urbana e conectada me fazia rejeitar a ideia de que alguém poderia vivem em um lugar assim. Que fosse então uma passagem transformadora.
mochilabarquinho

Chapter 1
When I realized I needed to cure myself, I did what every normal person does: I opened Google and entered the infinite black hole of the internet. I was looking for a retreat. Space and time for me to reflect, meditate, and take care of myself.

I have always been a very spiritual person, but never a religious one. In fact, religions usually kept me away from the faith. So I looked for something that could bring me an expansion of consciousness while respecting my beliefs, or the lack of them. I wanted a neutral place, where I could be myself, without negotiations or judgments.

I didn’t know if there was such a place. Nor exactly what I was looking for. Or what I needed. But our friend Google made me a suggestion that pleased me at first sight. A silence retreat in the middle of the Peruvian Amazon forest. Twelve days. Five Ayahuasca rituals. A master plant dieta. A shipibo shaman. Meditation. Peace.

It was what I wanted. But if it was what I really needed, I wouldn’t know until later.

Most people find it strange when we want to heal ourselves. Why so many days? Don’t you think there are many Ayahuasca rituals? Will you pay to fast? Why not look for something similar in Brazil? You will send news, right? Will you come back? Aren’t you afraid of who you will be when you get back from there?

The questions made me reflect even more on my intention and, of course, make a double check regarding the retreat’s team. Elio, the founder was very helpful from the start. Answered all my questions and messages on Whats App.

Not having any Brazilians among the former participants intrigued me. Even so, I went.

I’ve never been much of a planner. Especially when traveling. I just go and see what happens. So, I didn’t bother much to read the various files with instructions that Elio had sent me. Luckily, I noticed them in time for the preparation.

The restrictions started two weeks before the retreat, starting with no pork, no sex nor masturbation, no alcohol, no drugs (not even marijuana, he said), and no smoking. It seemed simple and I managed to maintain the dieta successfully. In the following week it was more rigorous. Adding to the restrictions of the previous week were no red meat, no fermented beverages (which included my sacred kefir), no fats (I had lost eight kilos with a ketogenic diet), no refined sugar, little or no salt and pepper and, worst of all, no coffee or stimulants.

I could live without alcohol and sex, but without coffee, I would become a serious risk to society. I managed to survive the week, but the first few days put me through an abstinence crisis that included severe headaches. Still, I survived. And I did it without killing anyone.

Chapter 2
It was Saturday. I would teach a class that morning. A lesson on life and business purpose. I decided to open my heart and tell what was going on with me. I didn’t know if it was depression or burnout. I didn’t care. The message I wanted to leave was that I was looking for a cure. And that moment was the beginning of the process.

I went from class straight to the airport. I would fly from Porto Alegre to São Paulo, where I would stay for a few hours. Then a flight to Lima and from there to Pucallpa, a city in northeastern Peru, very close to the Sui Sui Center, my destination. Me, my backpack, and some ideas in my head.

The arrival at Pucallpa was better than expected. I had booked a reasonably low-priced hotel by Brazilian standards, but it turned out to be a high end one by city standards. At the airport, a car was waiting for me to take me to the hotel. The next day I would take one of the many moto-taxis in the city to meet with the group from the retreat.

Moto-taxis are like buggies pulled by a motorcycle. Or like a Thai tuctuc. The ride was fun, but the lack of traffic rules for this type of vehicle made me a little apprehensive along the way.

I arrived at the meeting point and easily identified a participant. Gringo guy, big backpack, there was no doubt he was one of the participants. And he was. Gradually the others arrived. The group consisted of eight people and a baby. Two Australians, three Americans, one English/American, one Canadian, and me.

Anna, the facilitator who came to guide us to the Center, explained a little of what the journey would be like: a few kilometers of dirt road through a very rural region, and twenty minutes by canoe. While she explained, we tried to get to know each other. I soon learned that I was one of the two newbies in this type of healing process using plant medicines.

We split into two cars. It was a huge pile of backpacks that went from a truck to a canoe. The last ride was charming. Navigating the lakes, in the middle of the Amazon rainforest, looked like a movie scene. I touched the water, feeling the energy that would feed me for the next twelve days. It was warm, inviting.

Soon we saw the Sui Sui Center. A large central house, some smaller accommodations, and, in the background, the woods. Would this be my place or, once again, would I be passing through? My urban and connected life made me reject the idea that someone could live in such a place. Let it then be a transforming passage.

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Viagem ao centro de mim mesma

<English version below>

Hoje faz um ano do dia em que cheguei na floresta Amazônica peruana. Um período de 12 dias com uma mescla entre silêncio, dieta xamânica e medicinas naturais. Aprendi ao longo da vida que quando queremos promover uma mudança, devemos começar o mais local possível. E o mais local possível é sempre nós mesmos.

Escrevi muito enquanto estive por lá. Reflexões sobre o que me fez procurar esse caminho. Visões que se apresentaram para mim através da Ayahuasca. E mesmo os sentimentos de poder que Noya Rao me trouxe.

Decidi que vou publicar partes. Por partes.

Farei uma edição, afinal, um processo como esse mexe muito com nosso íntimo. E o íntimo nem sempre precisa ser exposto. Também porque compartilharam desse íntimo comigo algumas pessoas, e quero preservá-las. Ainda assim, acredito que possa contribuir para a reflexão de outros. Ou, no mínimo, trazer um pouco de luz aos efeitos e sensações provocados pelas plantas medicinais.


“Agora chega”, pensei comigo mesma enquanto entendia a resposta da pergunta que eu sequer havia conseguido formular.

———

Haviam sido anos de muito trabalho, de muito esforço e de muita dedicação. Cursos e cursos em busca de desenvolvimento técnico e intelectual. Algumas tentativas de entender uma visão mais holística do mundo, mas na prática, muita teoria. Não havia dúvidas de que eu havia alcançado algo grandioso. Especialmente para as pretensões daquela adolescente que decidiu fazer jornalismo para viver uma vida de viagens, sem rotina e de pouco dinheiro.

Eu estava comemorando 12 anos na empresa que me viu crescer. Não apenas. Na empresa que me empurrou pra cima. E eu havia aproveitado cada oportunidade que aparecera para mim. Vieram viagens, nacionais e internacionais. Imensos desafios que foram de cultura a negócios. Aprendi que não pertenço a lugar nenhum, assim como nenhum lugar pertence a mim.

Pratiquei o desapego, perdi datas importantes, para outros e para mim mesma. Entendi o amor para muito além do romantismo. Aprendi a amar minha própria companhia e por diversas vezes, preferi o silêncio da solidão à conversa rasa de uma troca qualquer. Nunca suportei conversas rasas. Se eu não estivesse disposta a mergulhar fundo, nem comparecia. Os amigos entendiam. Não usava meias palavras nem inventava desculpas. Era a verdade nua e crua. “Não estou a fim, obrigada”.

Nos últimos cinco anos, minhas atenções ganharam um segundo foco. Um empreendimento em família que me causava mais frustração por não conseguir ajudar, do que trabalho de fato. É engraçado pensar sobre isso. Talvez por isso que, mesmo atuando pouco, me parecia tão pesado.

Meu trabalho principal me exigia cada vez mais. Reuniões políticas, férias e feriados com interferências frequentes, uma responsabilidade que me fazia colocar a função acima de qualquer coisa. Acima de mim mesma.

O tempo passou e aceitei o convite para uma nova sociedade. Não foi um sim fácil. Pensei muito sobre o que eu vislumbrava para meu futuro, empurrada por uma sequência de cursos e leituras que mostravam que empreender era a única forma de alcançar o paraíso. E lá fui eu, me jogar de cabeça no que seria o meu terceiro emprego.

Em pouco tempo, me vi soterrada em trabalho. Sentir sono era uma constante. Eu tinha tanta coisa para fazer no meu dia, que só de pensar, me sentia cansada. E mais, muitas das coisas dependiam de outros e qualquer procrastinação que não a minha, me tirava do sério. Sentia como se eu precisasse ir embora.

——————

Busquei terapia na primeira vez que me ofereceram um cargo de liderança. Eu precisaria lidar com uma equipe e eu sabia que não tinha lá muito jeito para isso. Precisaria desenvolver melhor a empatia, compreender perfis, aceitar ritmos diferentes do meu.

Um ano com psicóloga, com apometria, com regressão e tudo o mais que poderia imaginar. Um ano de crescimento. Um ano de muitas descobertas. E poucos meses para que eu percebesse o tamanho do espaço que o trabalho ocupava na minha vida. Eu não tinha outro assunto. Eram sempre as frustrações e as conquistas profissionais em pauta. E uma tentativa frustrada de soterrar a obesidade que chegava cada vez com mais força.

Assim, fiz o que a maioria das pessoas que entende que precisa de cura faz: me dei alta!

Não passou muito tempo para que eu fosse buscar ajuda de novo. Dessa vez o foco seria em mim, mas antes, precisava tirar algumas questões de trabalho do caminho. Mudei bastante. Aprendi a ser uma pessoa mais paciente e tolerante. Entendi que a justiça poderia ser feita sem guerras e que por vezes o carinho funcionava muito melhor do que o pontapé na porta. Não posso negar que cresci. Aprendi a lidar melhor com as pessoas e, ao mesmo tempo, fui reconhecendo minhas falhas e deficiências.

Eu falava constantemente sobre deixar o emprego e focar nas duas empresas nas quais eu era sócia. Parecia o caminho mais acertado, mais natural. Ainda assim, me faltava coragem. Na verdade, faltavam tantas coisas que eu nem saberia dizer. Síndrome do impostor, insegurança, medo da falta de reconhecimento, estranhamento com um possível novo cenário. Parecia que o momento nunca chegava e eu ia, a cada dia, acumulando mais funções e tarefas. Um ciclo vicioso, infinito e artificialmente funcional.

Na terapia, a cada consulta, a vontade de largar o emprego ía ou vinha. Ou eu me convencia de que pedir demissão era a solução dos meus problemas, ou me convencia de que meu trabalho lá me engrandecia e promovia o bem. O bem de quem?

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Mas finalmente o dia chegou. O dia em que eu entendi que o problema não estava em uma ou outra empresa, mas na minha forma de vê-las. Meu modus operandi de quem preenchia sua vida com conquistas profissionais e não espera nada menos do que o brilhantismo me catapultou para longe de mim mesma. Não adiantaria sair de uma empresa, nem de duas ou três. O problema não estava fora, estava dentro. Eu precisava mudar a mim mesma, desinverter minhas prioridades invertidas. Eu precisava ouvir minha própria voz com atenção e buscar uma cura para essa doença que eu não sabia nomear.

Assim, decidi pela demissão. Mas também decidi que era hora de cuidar de mim. “Agora chega”, pensei comigo mesma enquanto entendia a resposta da pergunta que eu sequer havia conseguido formular.

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One year ago I stepped into the Peruvian Amazon rainforest for 12 days of silence, shamanic dieta, and plant medicines. I have learned throughout my life that when we want to promote a change, we must start as local as possible. And the most local we can get is ourselves.

I would write a lot while I was there. Reflections on what made me seek this path. Visions that were brought to me through Ayahuasca. And the empowerment presented to me by Noya Rao.

I now decided it is time to share some parts of it. In parts.

I’ll edit it, after all, this kind of processes deal with some intimate issues. And intimacy should not always be exposed. I also shared these intimate moments with some special people, who I want to preserve. Still, I believe it can contribute to the reflection of others. Or, at the very least, bring a little light to the effects and sensations caused by plant medicines.


“It’s enough”, I thought to myself as I realized the answer to a question I have not yet been able to elaborate.
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It had been years of hard work, effort, and dedication. Courses and courses in search of technical and intellectual development. Some attempts to understand a more holistic view of the world, but in practice, a lot of theory. There was no doubt I had achieved something great. Especially considering the pretensions of the teenager who chose journalism as a career, to live a life of travel, no routine, and very little money.

I was celebrating 12 years at the company that saw me grow. Not only. In the company that pushed me up. And I took every opportunity that showed up to me. Many travels came, nationally and internationally. Immense challenges that went from culture to business. I learned I don’t belong to one place, and no place belongs to me.

I practiced to let go, I lost important dates, for others and myself. I understood love as something far beyond romanticism. I learned to love my own company and on several occasions, to prefer the silence of solitude to the shallow conversation of any exchange. I never endured shallow conversations. If I wasn’t willing to go deep, I simply wouldn’t show up. Friends understood me. I never used half-words or made excuses. It was the bare truth. “I’m not in the mood, thanks.”

In the past five years, my attention gained a second focus. A family enterprise that would frustrate me for the simple fact that I wasn’t able to help as much as I wished I would. It’s funny to think about it. Perhaps that is why, even though I act little, it seemed so heavy.

My main job demanded more and more of me. Political meetings, vacations and holidays with frequent interference, a responsibility that made me put the role above anything. Above myself.

Time passed and I accepted the invitation to a new society. It was not an easy yes. I thought hard about what I envisioned for my future, pressured by a sequence of courses and readings that showed that entrepreneurship was the only way to reach paradise. And there I went, throwing myself on a third job.

Before long, I saw myself buried in work. Feeling sleepy was a constant. I had so much to do in my day, that I felt tired just thinking about it. To make it harder, any procrastination of others would drive me crazy. I felt like I needed to leave.
——————

I sought therapy the first time I was offered a leadership position. I needed to deal with a team and I knew managing people was not my strength. I would need to develop my empathy ability, understand profiles, accept the different rhythms of different team members.

A year with a psychologist, alternative therapies, and everything else you can imagine. A year of growth. A year of many discoveries. And a few months for me to realize the space work occupied in my life. I had no other subject. My conversations were always about frustrations and professional victories. And an unsuccessful attempt to overshadow obesity that was arriving strongly every day.

So, I did what most people who need healing do: I discharged myself!

It wasn’t long before I went to get help again. This time, the focus would be on me, but first, I needed to take some work issues out of my way. I changed a lot. I learned to be a more patient and tolerant person. I understood that justice can be done without wars and that sometimes love and affection can work much better than punches at the door. I cannot deny, I grew up. I learned to deal better with people and, at the same time, I started to recognize my flaws and deficiencies.

I talked about quitting my job and focusing on the two companies in which I was a partner. It seemed the right way, the most natural way. Still, I lacked courage. In fact, there were so many things I lacked, I didn’t even know where to start. Impostor syndrome, insecurity, fear of not being recognized, strangeness with a possible new scenario. It seemed that the moment never came and I was accumulating more functions and tasks every day. A vicious, infinite, and artificially functional cycle.

In therapy, at each appointment, the desire to quit the job would come and go. Either I was convinced that quitting was the solution to my problems, or I was convinced that my work there made me great and promoted something good. Good to whom?
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But the day finally came. The day when I understood that the problem was not in one company or another, but in my way of seeing them. My modus operandi of someone who filled his life with professional achievements and expects nothing less than brilliance has catapulted me away from myself. It would be useless to leave a company, nor two or three. The problem was not outside, it was inside. I needed to change myself, to reverse my inverted priorities. I needed to listen to my voice carefully and find a cure for this disease that I couldn’t name.

So, I decided to resign. But I also decided that it was time to take care of myself. “It’s enough”, I thought to myself as I realized the answer to a question I have not yet been able to elaborate.

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Sai do fundo, menina.

Eu não gosto do raso. Nunca gostei.

Seja no mar ou nas experiências da minha vida. Eu gosto do profundo, do intenso, do complexo. Eu gosto de ouvir com atenção a discursos inflamados de ideias mirabolantes e gerar nexos que parecem desconexos num cenário caótico que, por si só, já não faz sentido algum.

Eu gosto de discutir. Acaloradamente. Gosto de cuspir meu repertório de argumentos e perceber a influência se manifestar. E gosto de receber de volta golpes intelectuais que me nocauteiam. “Puta que pariu! Eu não tinha pensado nisso!”.

A inteligência me fascina. E ela não tá no raso. Ela tá no fundo! E no fundo, ela quase não se vê.

Encontros rasos. Escuta egoísta. Conversa impaciente. Uma total perda de tempo. Minha e tua.

Quero conhecer tua história. Quero contar a minha. Quero construir novas… Quero que, ao ser perguntada, tenha tempo e atenção na resposta. Quero escutar ativamente, sentir visceralmente.

Não quero estar com muitos no raso. Quero os poucos e corajosos do fundo.

fundo thai

 

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Transmutação

bem me quer

Passei alguns minutos olhando para a tela em branco, pensando em como começar esse texto. Ou mesmo se deveria ser um texto. Mas acho que a importância desse comunicado merece uma explicação, até como forma de honrar e agradecer os 12 anos de uma jornada incrível que se encerra, ainda que parcialmente.

Depois de muita terapia, meditação, cursos e uma viagem focada em reorganizar as prioridades na minha vida, entendi que precisava ressignificar minha relação com o trabalho. E para isso, era necessária uma ruptura.

A decisão de sair da Abicalçados não foi nada fácil. Tenho muito carinho por essa organização e pelas pessoas que a formam. Tive nela um terreno fértil para meu crescimento e desenvolvimento como pessoa e como profissional. Aprendi sobre o mundo, fiz amigos incríveis, vivi momentos inesquecíveis e experiências desafiadoras. Muito mais do que aquela adolescente, estudante de jornalismo, aspirava para sua carreira.

Na Abicalçados tive um grande mentor, que me deu autonomia e confiança. Também trabalhei ao lado de profissionais atentxs, comprometidxs, inspiradorxs e amorosxs. Tive a honra de liderar e ser liderada (dependeu do projeto) por pessoas espetaculares. Tive oportunidade de intraempreender por mais de uma vez, desde iniciar o trabalho de redes sociais (sim, sou da época em que elas ainda não existiam), até ajudar na criação de um programa voltado para o futuro do setor. Pude aplicar tudo (ou quase!) o que busquei aprender ao longo desse tempo.

Nos últimos anos, novas oportunidades se abriram pra mim. Em família, abrimos a Óca Coworking, um empreendimento inovador para a cidade de São Leopoldo e que desde o início, cinco anos atrás, nos enche de orgulho. Há dois, aceitei o convite para me associar a WTF! School, essa escola que ensina para a vida de uma forma tão gostosa que a gente nem acha que tá estudando. São dois negócios que mexem comigo, com meu propósito de vida e com o que eu espero entregar para o mundo.

Aos pouquinhos, minha vida virou trabalho. Parava tudo para responder alguma dúvida, entregar alguma solicitação ou atender algum pedido. Rolava até uma sensação de culpa quando eu decidia que naquele final de semana eu só queria sofá, vinho e Netflix. Mas nada disso foi ruim ou sofrido, foi apenas parte de um processo. Um parte que já está em transformação.

Se você leu até aqui e agora se pergunta qual será meu foco a partir de agora, respondo: meu foco será em mim. Isso não significa que vou jogar tudo pro alto, pelo contrário. Seguirei trabalhando com a Abicalçados (de forma mais pontual e bem menos intensa), na Óca e na WTF!, mas acima tudo, estou comprometida a seguir com a prática de olhar para dentro, ouvir minha própria consciência e respeitar meus limites. Ainda estou aprendendo, por isso conto com essa rede de pessoas incríveis para que continuem ao meu lado – ainda que me seja doído pedir ajuda -, me mostrando caminhos e dando ocasionais, mas necessários, puxões de orelha.

A mudança está chegando de mansinho, sem data marcada. Eu, sempre tão segura de mim, agora olho para um desconhecido que me encanta muito mais do que assusta. Hora de praticar o que eu prego. Hora de pôr em prática o que aprendi nesses últimos anos de resgate do que significa ser. Hora de abraçar o não saber.

“so try your wing, find out if you can fly”

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Mais uma história pra contar…

Em maio desse ano (2018), passei por uma experiência atípica em Londres. Bom, ao menos na minha cabeça, um roubo em Londres é atípico! Mas enfim, cheguei no Heathrow Airport e o trem expresso até Paddington, que demora 15 minutos e vai direto, me deixando a algumas quadras do hotel onde eu ficaria hospedada, não estava funcionando. Ok, pensamos (Alice e Lola estavam comigo), vamos pegar o metrô normal – famoso underground. É facinho de se entender com o mapinha e, algumas baldeações depois, chegaríamos na estação do hotel. E assim fizemos!

A surpresa foi quando, ao chegar ao hotel, percebi que havia sido roubado da minha bolsa um case com o meu passaporte e algum dinheiro. Fiz o caminho de volta até a estação. Perguntei à diversas pessoas. Nada! Era domingo, e na segunda era feriado bancário, ou seja, Consulado só abriria na terça.

Bom, o que não tem remédio…. Se cura com cerveja.

No dia seguinte, fiz o BO online e comecei a me informar sobre os procedimentos para a solicitação de novo passaporte e quais alternativas eu tinha. Pra piorar um pouco a situação, dali eu não voltaria pra casa, mas iria a Portugal para um Congresso. Nada muito complicado: paga-se uma espécie de cheque nos correios (e é caro!), preenche uns formulários, cola uma foto (eu tinha uma foto na carteira graças a um recente visto pra China), imprime o BO, a cópia do passaporte roubado, um comprovante de endereço e acende uma vela pra todos os santos.

Terça feira eu me fui pro Consulado. Era o penúltimo dia para regularizar os documentos para as eleições e o lugar estava completamente lotado! Mas três horas depois eu fui atendida. Tudo tranquilo, tudo certo, exceto pelo fato de que eu teria que esperar até 5 dias úteis até receber o novo. E eu não tinha esse tempo todo.

Uma ajudinha da Bel aqui do Brasil, com um contato dela que trabalhava por lá, me deu os direcionamentos para solicitar urgência e no dia seguinte fui buscar o documento novo.

Minha única tristeza nisso tudo tinha sido perder meu passaporte anterior, que estava quase lotado, cheio de carimbos, vistos e recordações de viagens malucas. Era uma pena não tê-lo mais comigo!


Aí eis que, no dia 3 de agosto, recebo o seguinte e-mail:

Prezada Roberta, Bom dia!

O Consulado recebeu o seu passaporte extraviado, enviado pelo Royal Mail. Como você provavelmente está de volta ao Brasil, por favor informe se prefere que ele seja destruído, ou se há interesse em pedir a algum familiar ou amigo que venha coletá-lo par você.

Atenciosamente,

Setor de Passaporte / Passport Section
Consulado-Geral do Brasil em Londres | Consulate-General of Brazil in London

Na mesma hora, postei no Facebook perguntando se alguém da rede estava em Londres e poderia me fazer um favorzinho. Afinal, a galera da exportação tá sempre pelo mundo mesmo. Mas não, quem respondeu não foi ninguém dessa turma. A Suane e eu nos conhecemos através do trabalho e tínhamos dividido o mesmo ambiente algumas vezes, em algumas reuniões, e trocado algumas palavras. Ela estava indo para Londres de férias e se colocou a disposição pra buscar o passaporte.

Quem nessa vida, faz isso por uma pessoa que mal conhece? Quem? Uma pessoa com amor no coração, né?

Uns dias depois recebi essa imagem, com a legenda “Em mãos!”:

passaporte


Hoje, acordei as 3h50 da manhã, pois tinha um vôo às 6h30 para São Paulo. O destino final era Cali, na Colômbia. Haviam alertas de tempestade durante a noite, então estava atenta para ver se deveria mudar os planos. Mas não. Chuva fraca, o carro logo chegou para me pegar.

No aeroporto, ao fazer check in, o susto: “onde está a carteira com a vacina da febre amarela?”. “No passaporte que foi roubado”, disse. Ela me explicou então que eu não poderia embarcar, que a Anvisa não abriria no final de semana e que eu deveria ir até a loja para tentar a remarcação para segunda.

Segunda???? Como assim? E a ação na Colômbia? E nossos associados? E meu trabalho? Baixei a cabeça e fui até a loja da Latam. Fui atendida por uma moça muito querida chamada Josélia (tenho quase certeza de que era esse o nome!). Enquanto ela buscava alternativas para a minha situação, me lembrei de ter visto no Face da Suane, um post sobre ela estar voltando pra casa! Entre no facebook e tava lá: postado em Frankfurt, 16h36.

Era minha chance. Mas a chance era muito pequena. A carteirinha tinha que estar com o passaporte, a Suane tinha que pousar e responder minha mensagem em tempo, ela tinha que chegar em Porto Alegre antes de eu sair ou eu chegar em São Paulo antes dela sair de lá.

A Su respondeu, a carteirinha estava lá, ela tinha acabado de pousar, em Guarulhos (que era pra onde eu estava indo), e ela poderia deixar a carteirinha com alguém da Latam em São Paulo. Na pior das hipóteses, eu iria no domingo.

Começou a correria. A supervisora de Porto Alegre, que também foi muito querida e que se chama Jéssica, começou a ligar para São Paulo pra descobrir quem era a supervisora do dia e perguntar se ela topava ficar com o documento e aprovar meu embarque. Enquanto isso, a Su tinha que pegar as malas dela, passar pela polícia, despachar as malas pra Porto Alegre e entregar o documento.

“Guichê F30, no terminal 3. Diz pra ela procurar pela Malu!”, me disse a Jéssica. “Eu estou no terminal 2”, me respondeu a Su. Nesse momento, uma moça pegou minha mala e meu passaporte e foi fazer check in, ainda que em modo “condicional”. A Su havia conseguido redespachar suas malas e estava a caminho do terminal 3. Mas esse trajeto é longo, demorado, e meu vôo estava fechando as portas. “Entra com ela e espera o meu ok pra ela embarcar. Ninguém fecha a porta do avião sem minha autorização”, disse a Jéssica pra outra moça querida que infelizmente não peguei o nome. Fomos! Ainda faltavam uns 10 embarcarem. Eu ali, do lado do moço, estômago revirado.

“Entreguei”, mandou a Su. E a Jéssica pelo rádio, “pode embarcar!”.

Embarquei!


Eu não sei que reação eu teria se eu estivesse no lugar da Su. Mas o fato é que ela chegou de um vôo de 12 horas, pulou o free shop e correu de um terminal ao outro pra entregar um documento de uma louca que ela mal conhece. Se não são anjos que o destino coloca em nossas vidas, não sei o que são.

 

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Sincronicidades do universo, obrigada!

Su, conseguimos! <3

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Emirados Árabes – a experiência no deserto

E nossa viagem não poderia ter encerrado de melhor maneira. Para o último dia, depois da frustração de não termos conseguido fazer o passeio de balão, compramos o tal “Safari no Deserto”. E o passeio foi sen-sa-cio-nal! Um calor infernal, mais de 40 graus na sombra (que sombra?). Fomos pegos no hotel pelo motora, com uma caminhonete que o Léo me disse ser alguma coisa Cruise da Toyota, com ar condicionado bombando. Conosco no carro estavam um casal de argentinos e um casal de croatas. Muito queridos todos.

Nossa primeira parada foi numa espécie de “posto dos adesivos” (aquele a caminho de Santa Catarina). Só que no melhor estilo “povo do deserto”. Eram pequenos mercados, onde poderíamos comprar água e comida. Um calor dos infernos e um monte de árabes tentando colocar lenços nas cabeças dos turistas. Foi um início um pouco tenso. Não víamos a hora de entrar novamente no carro e partir pro nosso rally.

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Antes de começar, uma parada no topo de uma duna com vista para a imensidão do deserto. É neste momento que podemos fazer as primeiras fotos daquela paisagem marrom, e também a hora de os carros se organizarem para a partida. O caminho é feito em fila indiana por caminhonetes brancas, todas iguais, que seguem um desenho já marcado na areia. É uma montanha russa sem trilhos. Descidas íngremes, subidas aceleradas, jatos de areia no parabrisa e alguma manobras que fazem o carro se arrastar de lado morro a baixo. Tudo isso ao som de Red Hot Chilli Peppers e Michael Jackson remixados em batidas dançantes.

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Mais uma parada no meio do deserto, em tempo para conferirmos o sol descendo na areia, e logo chegamos a uma espécie de acampamento. Confesso que me senti um personagem de Star Wars nesse lugar. No centro, mesas baixas e almofadas sobre tapetes que pairavam diretamente sobre o chão de terra. No entorno, iguarias da culinárias local (bolinho doce, shoarma, pão árabe e kebab), água a vontade, shisha (nosso famoso narguilé) de maçã, uma moça fazendo tatuagem de hena, espaço de orações (um para mulheres e outro para homens) e, bem no centro, um palco para apresentação de dança do ventre e de uma outra dança típica, que consiste em um moço de saia rodando incansavelmente, no mesmo lugar e para o mesmo lado, por ao menos 10 minutos. Incrível.

Além disso, estava incluso um passeio de camelo, que na verdade consistia em montarmos no bichinho e darmos uma voltinha de menos de dois minutos com o condutor puxando a frente. Emocionante #sqn. Antes das apresentações finais foi servido o jantar no formato de buffet. A essa altura já não tínhamos mais fome…

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Eu super recomendo esse passeio. Achei muito divertido e interessante a experiência. Por fim, Dubai superou todas as minhas expectativas e, como tudo lá é o maior, o melhor e/ou o mais rápido, posso dizer que talvez seja o destino que mais me surpreendeu nos últimos tempos.

Curiosidades:

– Dubai Mall é considerado o maior centro de compras e entretenimento do mundo. Dentro do shopping fica um aquário e um zoológico marinho, além de um link de patinação/hockey olímpico.

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– O hotel Atlantis, na palmeira construída no meio do mar, também conta com um mega aquário, que oferece incusive passeio noturnos para alimentação de tubarões. Aham! Vai indo que eu já vou…

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– Em Abu Dhabi fica um parque temático da Ferrari. Dizem que lá existe a montanha russa mais rápida do mundo. Não fomos!

– O Burj Kalifa é considerado o prédio mais alto do mundo, com mais de 800 metros de altura. Depois de boatos de que estariam construindo um edifício maior em outro país, em Dubai já iniciaram a construção de um novo prédio que deve ter 1,2 mil metros.

– Dubai é cara! O dirham é quase um pra um com o real e é difícil pagar menos de 100 dirhams por alguma coisa por lá.

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Emirados Árabes – Turistando…

Agora vamos ao que interessa para este blog. Vou contar um pouquinho do que eu e o Léo aprontamos por lá. Começando, é claro, pela praia! Bom, a gente sabe que praia é um lugar extremamente democrático e que o mar é para todos. Mas talvez eu nunca houvesse visto tanta democracia antes! Ficamos no espaço ao lado do Burj Alarab, um dos hotéis mais caros do mundo, e observamos aquelas pessoas tão diferentes se divertirem no mar verde-pasta-de-dente que se encontrava a sua frente.

Em detalhes, a coisa funciona mais ou menos assim: areia fina e branca, mar quase morno, muita (MUITAS) pessoas, gente de biquini, gente de roupa, gente de lenço na cabeça, gente de cueca branca molhada (!!!), gente de blusa de paetês, gente de trajes típicos e, ao fundo, um salva-vidas que MEODEOSDOCÉO! Desculpem-me, mas perco o foco quando lembro do salva-vidas. Parecia uma estátua grega, só que negão, e não feita com aquele material branco. Dava pra ver todos os músculos do amigo. Todos! Ai, ai….

Da praia, fomos, molhados mesmo, a um bar chamado 360º, que ficava no hotel Jumeirah, outro desses de gente rica, bem ali, do ladinho da praia. Tínhamos um certo receio quanto aos trajes. Afinal, estávamos de roupa de praia, molhados, com uma toalha na mão. Também sabíamos que as coisas poderiam ser muito caras ali e que talvez não passássemos de um drink. Mesmo assim, fomos! O bar é uma construção redonda, mar a dentro, com um estreito caminho que o liga ao continente. Por esse caminho passam carrinhos de golfe que levam os visitantes até o local. De lá, é possível ver o por do sol no mar.

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Passamos pela primeira etapa. Um homem na entrada verificou nossas identidades, carimbou nossas mãos e nos encaminhou pra dentro. Já o motorista do carrinho de golfe estranhou um pouco nossas roupas quando falamos o destino. Ainda assim, nos levou. Os preços eram mais altos, sim, mas nada absurdo. E apesar de todas as outras pessoas do bar estarem montadas num saltão, Léo e eu fomos muito bem atendidos (o que mais tarde se mostrou uma constante).

No dia seguinte fizemos o passeio mais turístico possível. Compramos a passagem para os famosos ônibus hop on hop off e seguimos em direção a parte velha da cidade. Ok, é válido, mas visitar a região uma vez na vida é suficiente. Fomos a alguns mercados, conhecidos como souks, como o de roupas e o de temperos. É uma experiência! A barganha é prática não só aceita, como esperada, nesses lugares. Mas a gente sabe bem a fama que árabe tem em negociação, né? Duvido que tenhamos saído ganhando em nossas barganhas. Mesmo assim, foi divertido e saímos de lá com lenços, souvenires, temperos e chás.

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Estava incluso uma volta de barco pelo famoso riacho de Dubai, como a moça do áudio-guia em português do ônibus não cansava de insistir. Esse sim, totalmente dispensável. Léo e eu dormimos cada um uns 15 minutos durante a 1 hora em que a embarcação se arrasta pela água. Corram dessa furada!

Voltamos ao hotel e, em trinta minutos, precisávamos nos fantasiar de pessoas de posses e irmos ao Hotel Armani, localizado no Burj Kalifa, o prédio mais alto do mundo. Havíamos feito uma reserva no dia anterior, para drinks ao por do sol no Lounge Atmosphere, no 123º andar. Mais uma vez, fomos incrivelmente bem tratados e, mais uma vez, os preços não eram nada fora da realidade quando comparados aos estabelecimentos “normais”. Tínhamos uma consumação mínima de 250 dirhams, que vale quase que 250 reais. Aquele ambiente, com aquele por do sol, com certeza fez valer o investimento, que consumimos em uma salada e três cervejas cada. Saímos do hotel super chique, e perguntamos para um dos manobristas como fazíamos para pegar o metrô. Porque a diversidade é linda! rsrsrs

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Continua…

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Emirados Árabes – a Missão (literalmente)

Nossa agenda começava num domingo. Isso por que o final de semana por lá é na sexta e no sábado. No mínimo divertida a confusão quase infantil que essa troca nos causa. Aproveitamos então que nossa agenda terminaria na quinta, e Léo e eu optamos por estender a viagem e aproveitar o nosso final de semana por lá, turistando um pouquinho.

Nossa agenda começou e logo percebi que minha tensão era descabida, equivocada e até injusta.  Primeiro porque em Dubai, apenas 30% da população é local. A grande maioria é de expatriados, principalmente indianos e paquistaneses. Segundo porque a cidade é incrível, interessante, linda, construída, diversa. Se vê de tudo e tudo é permitido. Menos demonstrações de afeto em público (apenas homens podem andar de mãos dadas por lá! Agora dorme com essa!). No mais, mulheres de burca (e a gente percebe o orgulho das mulheres muçulmanas em vestir seus trajes negros) e homens a caráter assim como mulheres de short e regata e homens de bermuda e tênis.

A oferta em termos de restaurantes é imensa, com redes como Les Relais de L’Entrecôte e Tim Hortons destoando da paisagem basicamente em tons pasteis do lugar. A grande diferença, na maioria dos casos, é que por lá, bebida alcóolica só é permitida em hotéis. No mínimo estranho ir a um restaurante francês e não tomar uma tacinha de vinho, mas tudo bem. Logo nos adaptamos a realidade e nossas escolhas a partir de então foram pautadas pela existência ou não de um chopp gelado no lugar.

Agenda intensa, ótimas reuniões, descobertas interessantes, esteriótipos caindo por terra e meu preconceito com o lugar se esvaindo junto com a areia do deserto. Até minha imagem da Índia mudou pra melhor, depois de tanto contato com indianos. E no fim, me vi desejando conhecer países como Arábia Saudita, Omã, Irã e Líbano. Aliás, rolou um papo lá de que eu tinha feições de iraniana. Fiquei curiosa para conferir se é verdade.

Antes do final da agenda, aproveitamos uma visita a Embaixada brasileira em Abu Dhabi e visitamos a famosa mesquita da cidade. O lugar é simplesmente incrível. Por toda a sua beleza e por toda a sua organização. Quanto a beleza, deixo as fotos falarem por si, agora quanto a organização, descrevo.

O estacionamento é gratuito. Chegamos e fomos classificadas como “turistas que não estão usando trajes adequados”. Fomos então para uma sala, onde nos entregaram, gratuitamente, uma abaya (o vestido preto) com uma espécie de capuz para tapar os cabelos. Detalhe que a abaya estava limpinha, cheirosinha, e que no final, a entrega é em outro lugar, justamente por irem direto para a lavanderia. A entrada na mesquita também é gratuita. O uso do banheiro? Gratuito! Para entrar no tal salão com o maior tapete do mundo, também é gratuito, mas precisamos tirar os calçados e deixá-los do lado de fora, em armários abertos. Claro, ninguém cobra nada por isso. Na saída, nossos calçados estão todos lá, no lugar onde os deixamos, e não tem nenhum vendedor com miniaturas da mesquita tentando te empurrar. Igualzinho igreja católica, né? Uhum!

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Continua…

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Emirados Árabes – vai com medo mesmo…

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Foi em 2013 que Emirados Árabes entrou como um dos mercados-alvo do programa Brazilian Footwear. Para aqueles que ainda não sabem, trabalhar na execução deste Programa é um dos motivos de eu estar sempre pra lá e pra cá pelo mundo. E com a entrada do País na lista de prioridades, era uma questão de tempo para que ele se tornasse um dos meus destinos anuais, senão semestrais da rotina de trabalho.

Confesso que nunca me animei com essa possibilidade. Já havíamos feito algumas ações por lá, mas não havia sido eu a pessoa a desenvolvê-las. E por mim estava bem assim…

Mas agora era diferente. Faríamos uma Missão Prospectiva, ação que vem na sequência de um estudo de mercado e que define a estratégia que usaremos para a promoção das exportações de calçados brasileiros para aquela região, e era chegada a minha vez de fazer as malas!

Particularmente eu gosto muito dessa ação que fazemos, de prospecção. Se dispor a investir para entender o mercado, conversar com players e fornecedores, entender o consumidor. Me realizo quando, ao final, alguns caminhos se desenham como ideais e possíveis dentro da nossa estratégia. Mas dessa vez eu estava tensa!

No início, botei a culpa na cultura, que de longe me parecia tão cruel e opressora, especialmente com relação as mulheres. Cheguei também a pensar na proximidade com a Síria e com nossos amiguinhos aqueles que sequestram e degolam pessoas. Também considerei que uma região com mais homens do que mulheres não poderia ser tão promissora assim em termos de consumo. E por fim, declarei em alto e bom som que esse destino nunca seria uma escolha minha, particular, para férias ou turismo.

Mesmo assim, lá fui eu, é claro. Com todo o cuidado do mundo na hora de escolher os looks para as reuniões e com todo o dever de casa feito com relação as formas de comportamento adequadas por lá. Sabíamos que teríamos diversas reuniões com homens e essas reuniões precisavam ser um sucesso. Mentalmente eu ía lembrando das dicas dadas no estudo: “Mulheres devem aguardar que o homem as estenda a mão para cumprimentar”. “Mulheres devem colocar a mão direita sobre o coração em substituição ao aperto de mão. “Nunca, NUNCA, entregue nada a um árabe com a mão esquerda, considerada impura”. Entre outras que íam e vinham conforme eu me organizava para a vigem. A tensão crescia…

Mas chegou o dia e lá fomos nós. Leti, Léo e eu encontramos a Mari direto em Dubai. Esse era o time da Missão. Qualificado? Certamente. Mas como bem colocou a Leti, uma equipe formada por três mulheres e um canhoto. Chegamos as 4h da manhã no hotel, depois de mais de uma hora na fila da imigração. Nossa agenda começaria nesse mesmo dia, a partir das 11h. Hora de descansar os olhos e se preparar para o começo dos trabalhos.

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Continua…

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