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Epílogo: depois dos 40, ninguém me tira do centro de mim

Eu cresci ouvindo que depois dos 40 a vida desacelera.

Que é tempo de estabilidade, de manter o que foi construído, de “não inventar moda”. Mas eu descobri outra coisa: depois dos 40, a vida não exige mais permissão, ela exige posicionamento.

Se é para viver pouco, que seja intenso. Se é para viver muito, que seja verdadeiro.

Depois dos 40, eu entendi que não existe mais tempo para caber em moldes.

Casa virou escolha, não destino.
Dinheiro virou meio, não altar.
Relacionamento virou encontro, não garantia.
Movimento virou linguagem.

Eu aprendi que partir também é permanecer fiel a quem se tornou. E que permanecer, quando é escolha, vale mais do que qualquer chegada.

A maturidade não tirou o fogo, ela deu direção à chama.

Fui educada para acumular segurança. Hoje, escolho acumular presença.

Eu descobri que liberdade de verdade se reivindica depois dos 40, quando a gente finalmente entende o preço e paga com consciência, não com culpa.

Eu não quero uma vida segura. Quero uma vida que faça sentido.

Depois dos 40, parei de pedir desculpa por ser intensa, por desejar, por mudar de ideia, por recomeçar. Unapologetic. Foi essa a palavra que eu procurei em português e não encontrei. Então sigo usando em inglês, até que a língua aprenda comigo.

Não devo estabilidade a ninguém.
Não devo linearidade a nenhuma biografia.
Não devo obediência a nenhuma expectativa.
Se o mundo quiser me classificar, que crie uma nova categoria. Estou fora das que já existem.

E, se alguém perguntar se não é tarde para isso tudo, respondo com o corpo inteiro: nunca é tarde para deixar uma vida que não me pertença, buscar uma que caiba em mim. E transborde.

Confiar no invisível: a arte de prestar atenção

É muito difícil o exercício de abraçar o não saber. Viver dois anos na incerteza de onde eu estaria amanhã foi, talvez, um dos maiores desafios da minha vida. E, ainda assim, reconheço o meu privilégio, o de ter construído, com tempo e trabalho, um patrimônio que me permitiu arriscar. Mergulhar em águas escuras requer coragem, mas também algum oxigênio de segurança.

Mas o que me sustentou, no fundo, foi a conexão com o universo. Aprendi a respeitar o ritmo das coisas, a ler as mensagens que o universo envia em voz baixa.

Vem de lá, daquele “não” que recebi da bolsa na Suécia, e que, meses depois, se revelou um “sim” disfarçado, quando o mundo inteiro parou em pandemia. Foi um sinal.
Um daqueles que só se compreende olhando pelo retrovisor.

Julia Cameron escreve, em O Caminho do Artista, que “a sobrevivência depende da sanidade, e a sanidade consiste em prestar atenção. A qualidade da vida é sempre proporcional à sua capacidade para o deleite. A capacidade de se deleitar é o dom de prestar atenção”.

Se o universo fala comigo, é porque eu escuto. Não é dom. É prestar atenção.

Não acredito que alguns sejam escolhidos para sentir e outros não. Acredito que todos podemos, desde que estejamos dispostos a ouvir o que não faz barulho.

Para mim, não existem coincidências, existem sinais. Não existem acasos, existem oportunidades. E estar atenta é o que me permite ver quando o invisível se move.

Estar conectada é buscar esses lugares de energia, que para mim sempre foram as margens da água: mar, lago, rio, o que houver.

É ali que eu me encontro, que eu limpo o excesso, que eu volto a ouvir.

Carrego também meus pequenos rituais: às vezes, escrevo o que preciso soltar e jogo no fogo. Outras vezes, planto palavras debaixo da terra. Já joguei bilhetes ao mar. Queimou, afundou, dissolveu, mas sempre retornou, de algum modo.

Alguns chamariam de bruxaria. Talvez seja. Mas para mim é só conversa com o universo, um jeito de dar forma à fé, de manter o diálogo aberto entre o visível e o que pulsa por trás dele.

O que importa é que eu nunca deixei de prestar atenção. Aos sinais, aos sentimentos, aos caminhos.

Porque o universo não grita, ele sussurra.

E eu aprendi a escutar.

Espanha: um novo começo

Chegar ao fim do mestrado era, teoricamente, o momento de decidir: voltar ou ficar. Mas a verdade é que, quando a gente muda por dentro, não existe mais “voltar”. Existe seguir. De outro jeito, com outro olhar, com outro corpo.

Eu poderia ter encerrado tudo ali e voltado para Lisboa. Seria fácil. Seria emocionalmente confortável. Lisboa tem cheiro de casa, gosto de Brasil, amigos que viraram raiz. Tudo em Lisboa me chama pelo nome.

Mas liberdade também é papel, carimbo e prazo legal. E, enquanto meu coração dizia “fica em Lisboa”, a burocracia dizia “não será tão simples assim”.

A lei do estrangeiro em Portugal se reescreve a cada semana. Processos emperram. Documentos somem. Vistos voltam. Ficar virou sinônimo de esperar. E eu não tenho muita paciência para esperar.

Foi então que a Espanha apareceu, não como destino romântico, mas como caminho estratégico. Descobri, naquela ida instintiva à Berlin para visitar amigos queridos e importar leite condensado, que brasileiros têm um benefício migratório por lá. Dois anos de residência legal e já é possível solicitar cidadania. Dois anos! O mesmo tempo que vivi em movimento entre quatro países. Dois anos que já sei atravessar.

E, dessa vez, não será mochilão acadêmico, nem vida provisória: será declaração de permanência, mesmo que temporária. É diferente viver em um lugar “por enquanto” e viver “até segunda ordem”.

Eu poderia ir para Madrid. Ou Barcelona.
Mas eu escolhi Valência, cidade que ainda não vi, mas já imagino.
Me disseram que é solar, internacional, criativa, com praia e vida de bairro, como Lisboa, mas com velocidade espanhola e menos labirinto burocrático.

E eu gostei da ideia de chegar onde ainda não estive, mas com o corpo inteiro, não mais em trânsito acadêmico. Dessa vez, vou entrar não como estudante, mas como alguém que está testando mais uma forma de vida.

Lisboa é o afeto. A Espanha é o acordo.
Entre as duas, estou tentando construir liberdade com método.

A documentação está sendo preparada. Um visto de nômade digital me espera em algum balcão espanhol. E dizem que, se em 20 dias ninguém responder, o silêncio vira aprovação. Gosto dessa imagem: “se não me negam, me autorizam.”

Em março, eu entro em Valência.
Ainda não sei onde vou morar.

Mas já sei o que estou levando comigo: coração cheio de expectativas, planilha organizada, verão interno e uma mala cheia espaço para novos começos.

E o resto — o resto eu conto de lá.

Quando o corpo já estiver pisando no solo espanhol e o mar do Mediterrâneo me der o primeiro bom dia.

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