Author Archives: Beta

Uma jornalista, como outras tantas, que as vezes sente falta de escrever sobre o que dá na telha. Escorpiana, mochileira, curiosa por natureza.

Aprender outra vez: desaprender para continuar

Quando comecei o mestrado, percebi logo no primeiro dia: eu era a aluna mais experiente da sala. Em idade, em carreira, em vida vivida.

Não era um incômodo, era uma constatação. A turma era excelente, cheia de gente brilhante, curiosa, articulada. Mas eu sabia que minha relação com o tempo era outra.

Aos 40 e tantos, a pressa muda de forma. Não é mais sobre chegar primeiro, mas sobre aproveitar melhor o caminho.

Conviver com pessoas muito mais jovens me lembrou uma conversa antiga com a minha mãe: até a geração dela, aprendíamos com os mais velhos; desde a revolução tecnológica, aprendemos, e muito, com os mais jovens.

E esse talvez seja o maior exercício dos nossos tempos: entender o que ainda vale daquilo que sabemos e o que precisa sair de cena para dar espaço ao novo.

Voltar a estudar depois de 20 anos de estrada profissional é um paradoxo bonito. Às vezes a prática refuta a teoria. Às vezes a teoria explica a prática. E a gente fica no meio, tentando equilibrar o que se sabe com o que se descobre.

O desafio é saber quando trazer a experiência para a mesa e quando simplesmente calar e ouvir.
Eu não estava ali para ensinar. Eu estava ali para aprender. E, para isso, precisei descer do palco. Quem já foi professora sabe o que é esse gesto: guardar a voz, deixar que o silêncio faça o seu trabalho.

E o mestrado me testou todos os dias. Em paciência, em humildade, em presença. Os mais jovens se desesperavam com prazos, choravam por pequenas crises. E, às vezes, eu olhava e pensava: “Ah, espera só o que vem depois.” Mas logo me lembrava que, na idade deles, talvez eu também tivesse feito o mesmo drama.

Aprendi demais com eles. Com cada um de um jeito.
Só o fato de sermos de 19 países diferentes já era uma aula de mundo por si só. Geopolítica, cultura, religião, costumes, afetos. Cada café era uma reunião da ONU em miniatura.

Descobri tradições que eu desconhecia. Descobri jovens com almas antigas e histórias de vida que caberiam em três encarnações. E descobri, sobretudo, a lindeza que é viver num mundo absolutamente diverso.

Houve aulas em que o professor falava e eu pensava: “Isso não funciona na vida real.” E, em outras, lembrava de quando eu mesma, quando jovem, trazia ideias novas e alguém dizia: “Ah, mas nós já tentamos e não deu.”
Talvez o erro não estivesse na ideia, mas no tempo e no contexto.

Durante o mestrado, escolhi conscientemente o papel de aprendiz. Olhei o conteúdo com curiosidade de criança. Tentei adiar o julgamento o máximo possível, porque julgar é o reflexo automático de quem já viveu muito.

Mas aprender é o ato intencional de quem ainda quer viver mais.

Os mestrados, especialmente na Europa, são automaticamente etaristas. Aqui, a graduação é generalista, e o mestrado virou caminho natural, se não obrigatório, para quem quer se profissionalizar. Por isso, as salas são cheias de gente muito jovem. E é raro ver ali alguém com 40 e tantos, não por falta de vontade, mas por falta de espaço, de estímulo, de política pública e de representação.

Que lindo seria se a diversidade etária fosse vista como potência. Se a maturidade estivesse na mesma prateleira da inovação.

Voltar a estudar depois dos 40 é um ato político. E um ato de amor próprio.
Porque é dizer, em voz alta:
“Não é sobre tudo o que eu já fiz, mas sobre tudo o que eu ainda posso fazer.”

Viena: o verão espiritual e a finitude

Antes de chegar em Viena, fiz um desvio bonito. A temporada em Poznań acabou no fim de janeiro, passei fevereiro em Lisboa, atravessei o Atlântico para 15 dias de trabalho em Austin (SXSW) na primeira quinzena de março e, de lá, segui direto para Viena, meu quarto endereço no ano. Em menos de três meses. Corpo treinado em recomeços. Bora para mais uma.

A faculdade não ficava em Viena; ficava em Krems, a 1h30 de trem. Desde o início, decidi: vou morar na capital. Não tenho nem dúvidas sobre isso! Depois de Poznań, eu já sabia que sou pessoa de cidade grande. E, como as aulas presenciais seriam só no primeiro mês e meio, fazia sentido morar onde a vida me chamava, não onde a conveniência pedia.

Viena me recebeu com uma elegância silenciosa. Linda, grande, impecável, e, às vezes, curiosamente vazia. Descobri que Viena não expõe seus lugares; ela os esconde. Não há “rua dos bares” ou “quarteirão dos restaurantes”. É preciso ser apresentada à cidade. Viena é cidade que se abre por confiança, não por evidência. E isso cria uma intimidade especial.

O transporte é um acontecimento à parte: tudo se conecta com tudo. Demora um pouco pelas baldeações, mas chega-se em qualquer lugar. Comprei o Klimaticket e, de repente, tinha o país inteiro no bolso. Isso me colocou ainda mais em movimento.

Logo ali, fiz um acordo comigo: pausar o trabalho por um tempo para escrever a tese. Eu me conheço, se trabalho e pesquisa disputassem o mesmo espaço, o trabalho ganharia por hábito, não por importância. Viena virou laboratório de foco.

Também virou lugar de encontros de culturas improváveis para mim: Sérvia, Ucrânia, Romênia, Kosovo. Países tão distantes no meu imaginário que passaram a ter rosto, fala e abraço. E teve abraço carinhoso do amigo de infância que já chamava a Áustria de casa há muitos anos. Como amo essas relações do bem.

Descobri a vida do Danúbio: alugar barquinho, piquenique no rio, vinho ao pôr do sol, mergulho nas margens e conversa longa. Água de novo. Sempre que posso, eu corro para a água. É ali que eu recalibro o eixo.

Encontrei uma turma enorme de vôlei (se não fosse tão caro, eu jogava todo dia). Me matriculei numa academia só para mulheres. No início estranhei, depois entendi, o bairro tinha muita imigração turca, muitas mulheres muçulmanas. Aquele era um espaço fechado para que elas pudessem treinar sem hijab. Design social na prática: quando o espaço muda, a liberdade muda junto. Gostei desse cuidado.

O alemão foi menos assustador do que eu imaginava. Talvez pela infância no sul do Brasil, o ouvido já tinha memória de sons. Morei bem, bons apartamentos, boas localizações, e segui na estrada: Luxemburgo, Bratislava, Budapeste, Brno, Salzburg, Graz, Zürich.

Viena, para mim, foi verão. Literal e espiritual. Trouxe calor, amizades, paixões, leveza… E trouxe finitude.
Porque no dia 8 de agosto, eu finalizei o mestrado. Data marcada, ritual de fim. Cerimônia de graduação.
Eu precisava desse ponto final, não por drama, mas por método.

O mestrado foi a desculpa perfeita para desmobilizar a vida no Brasil. Fechar esse ciclo, para mim, é autorizar um começo novo: repensar rumo, trabalho, empresa, Europa como possibilidade concreta.

Se Poznań me ensinou a manter o meu verão aceso por dentro, Viena veio checar se ele resistiria até o último capítulo.
Resistiu. Cresceu. Transbordou.

Não sei se Viena é o lugar para ficar agora, mas é um lugar onde me vejo ficando. Talvez um dia. Talvez em outro verão.
Por enquanto, fico com a imagem que me acompanha: um barquinho no Danúbio, uma garrafa de vinho, as lindas rosas nas calçadas, risos em muitos sotaques, e a tranquilidade adulta de quem sabe recomeçar, e começa a aprender a permanecer.

Poznań: Aprender a manter o verão aceso no meio do inverno

Poznań foi reencontro. Depois de Dublin, onde cada um da turma tinha se espalhado por bairros distantes, e depois de cinco meses de estágio em países completamente diferentes, foi a primeira vez em muito tempo que voltamos a habitar a mesma cidade. Não era Lisboa, nem Dublin, nem Viena. Era Poznań. A única que não era capital. A menos óbvia. A que quase ninguém sabia apontar no mapa.

Eu mesma, antes de começar o mestrado, dizia: “vou estudar em Lisboa, Dublin, Viena e… na Polônia”. Ao invés de mencionar a cidade desconhecida, apelava para o país pouco óbvio. Um lugar que nunca esteve no meu imaginário de vida. E mesmo assim, foi palco de um período espiritualmente muito importante para mim.

Depois de pagar caro por tudo em Dublin, Poznań foi um alívio financeiro. Alimentação mais barata, transporte eficiente, e um apartamento só meu, moderno, limpo e no centro. Eu ia a pé para a universidade, a pé para o centro, a pé para os restaurantes. Tudo era perto. Tudo era possível.

Poznań é uma cidade organizada, limpa, bonita, com cara de cartão-postal. Bonita de um jeito que não grita. Bonita de um jeito que repousa.

Mas havia algo no ar, um peso histórico quase invisível, uma melancolia coletiva que se sente antes de se entender. E eu precisei aprender a habitar essa atmosfera sem deixar minha luz apagar.

Se o inglês da Irlanda já exigia esforço, o polonês me colocou oficialmente na categoria

de analfabeta funcional. As placas pareciam enigmas. As palavras tinham consoantes demais para caber na boca. No mercado, desisti de traduzir rótulos e comecei a pegar coisas por instinto. Resultado: comprei lenços umedecidos com aroma de framboesa e meu bumbum cheirou a doce por um mês inteiro.

E a saga do leite condensado polonês: tentei cinco versões. Nenhuma era. Só fui encontrar o verdadeiro, glorioso leite condensado… em Berlim. Aproveitei a proximidade para visitar uma família querida de amigos e vim com a mala cheia de latas do abençoado e um grande pacote de pão de queijo. E uma sementinha plantada que mudaria todo rumo dessa aventura.

O frio polonês não me assustou. O que me abalou foi o dia terminando às quatro da tarde. Quando a luz vai embora tão cedo, o corpo começa a entrar em modo econômico sem avisar.

Eu parei de fazer exercício. Saía menos. Ficava mais em casa. E um dia percebi: a melancolia tinha chegado sorrateira. Poznań é um lugar onde o inverno testa a alma antes de testar o corpo.

Mas, e aqui está minha insistência, eu me recusei a deixar de dizer bom dia. Mudei minha rota só para cumprimentar a senhora da recepção da universidade. Ela se assustava. E eu achava isso lindo. Passei quatro meses com duas expressões em polonês e um sorriso no rosto. Bastou.

Passei o primeiro Natal longe da minha irmã. E sobrevivi porque fui acolhida por uma família brasileira, amigos de longa data, em Idstein, na Alemanha. Me senti como se sempre tivesse sido parte daquela tradição. Mais uma prova viva de que o lar viaja nas pessoas.

O Réveillon, esse sim, foi em Poznań. Entre Soplicas (a vodka polonesa que engana com sabor doce e golpeia só depois), risadas e um nível de conforto coletivo raro. Ninguém lembra se teve fogos. O que é, para mim, uma medida exata de alegria.

Entre pierogis, neve e vínculos, Poznań virou ritual de reconexão. Comi os melhores ramens da Europa ali. Caminhei na neve, vi a cidade coberta de luzes de Natal. E mais do que tudo: me reconectei com a minha turma do mestrado. Sem grandes eventos urbanos para nos distrair, nós éramos o evento.

Poznań foi cidade de reconciliação interna. Uma busca incessante por um pedaço de água que despertasse em mim a conexão divina que sempre me moveu. Obrigada, Lago Rusalka!

E foi só no fim que entendi: Poznań não queria que eu me apaixonasse por ela. Queria que eu me observasse dentro dela.

Entre Gdańsk, que me surpreendeu pela beleza inesperada, e Krakow, que me entregou 50 tons de bege e uma corrida cinematográfica para não perder o trem de volta depois de visitar Auschwitz sob uma nevasca pesada, a Polônia me colocou em movimento até quando eu estava cansada.

No dia 31 de dezembro, enquanto o mundo esperava fogos, eu estava em Varsóvia, fazendo a entrevista do visto americano para um trabalho que me levaria ao Texas meses depois. Foi o processo mais fácil da minha vida.

Como se a Polônia, silenciosamente, dissesse: “Você pode ir. O caminho está aberto.”

Poznań não foi um lugar de encantamento. Foi um território de passagem espiritual. Um ensaio de inverno. E foi ali, no meio do frio, com o corpo mais pesado e a luz indo embora cedo demais, que aprendi uma das lições mais adultas dessa jornada:

Nem todo lugar onde a gente para é para ficar. Mas todo lugar onde a gente passa nos prepara para chegar melhor no próximo.

Viena viria em seguida.

E meu verão interno estava a postos.

Dublin: A cidade que me ensinou a partir

Dublin foi a segunda parada. E existe um tipo de cansaço específico que nasce quando, assim que começamos a nos adaptar a um lugar, já é hora de ir embora e reaprender tudo de novo. Cheguei assim: entre a excitação de recomeçar e um esgotamento discreto de quem já entendeu que essa vida é feita de aeroportos internos.

De cara, Dublin se apresentou diferente de Lisboa. Mais cara. Mais ventosa. Mais espalhada. O transporte público dependia quase exclusivamente de ônibus. Tudo levava tempo. E, apesar de eu querer um canto só meu depois da experiência em Lisboa, a conta bancária respondeu antes do coração.

Dividi casa com um colega do mestrado. E foi bom, funcional, sensato. Dublin me ensinou que autonomia também é aprender a dividir.

Estar em um país de língua inglesa traz um misto de empolgação e vulnerabilidade. Quando todos falam inglês como segunda língua, existe um vocabulário comum, mais simples, mais acessível. Mas, quando o inglês é nativo, qualquer conversa de pub pode virar uma micro-humilhação fonética. Ainda assim, sobrevivi. Com exceção de uma aula em que, a cada dia, eu me sentava mais próximo do professor com a intenção de compreender melhor o seu sotaque. A estratégia não funcionou. Mas no fim deu tudo certo.

Tudo era muito caro. Um prato simples era luxo. Aprendi a cozinhar mais, planejar mais, dizer mais “hoje não”. Me aproximei do que era gratuito: parques, caminhada, mar gelado, vento no rosto. Foi também a cidade em que mais trabalhei, e talvez tenha sido exatamente isso que me salvou da melancolia do cinza e da falta de vitamina D.

Em Dublin, o calor veio de outro lugar. Enquanto Lisboa me ensinou a conquistar espaço, Dublin me recebeu com conversa. Irlandês adora falar. Na fila do banheiro. No ônibus. No bar. Na vida. Sentar no balcão de um pub é um convite não verbal para que alguém sente do lado e diga “so, where are you from?”, e pronto, uma microamizade nasce. Eu, que cheguei esperando frieza por causa do clima, encontrei calor humano no lugar menos óbvio.

Aprendi a deixar cair alguns estereótipos. Nem todo país frio é emocionalmente gelado. Tem afeto que vem rindo alto, segurando uma Guinness.

Reencontrei também uma amiga de muitos anos. Foi bonito perceber como relações significativas viajam, às vezes antes mesmo do corpo. E, apesar de ali não ter Taekwondo, teve vôlei, minha grande paixão.

Eu morava a dez minutos a pé da praia. Não era uma praia para mergulhar, era uma praia para contemplar. E, mesmo com vento atravessando o osso, estar perto da água me reequilibrava.

As paisagens eram outras: rochas, penhascos, um cinza bonito. Dublin tem uma beleza que não é solar, é geológica. Ela não te convida para deitar, ela te convida para permanecer de pé, caminhando, morro acima.

Dublin também foi portal. Foi dali que conheci Belfast, Glasgow, Edinburgh, e inclusive tive o prazer de apresentar Londres para minha mãe. Dublin me deu movimento mais do que permanência.

E, como catalisador de movimento, depois de dois meses, entendi que Dublin era uma passagem, não um destino. Não solicitei residência. E esse foi meu primeiro “não” geográfico consciente.

Lisboa me perguntou se eu poderia ficar.

Dublin me ensinou que eu poderia partir.

Lisboa: entre o choque inicial e a cidade que meu coração escolheu

Lisboa foi minha primeira parada. Um ponto de partida simbólico e emocional do mestrado. Um lugar onde eu já tinha estado quase 20 anos antes. Conhecido pela memória, desconhecido pela vida.

Cheguei com a expectativa de acolhimento. Talvez por ser um Brasil adjacente. Talvez por compartilhar idioma, sol e mar. Eu esperava afeto imediato. E, no entanto, chorei um pouquinho.

O choque cultural não foi escancarado. Foi sutil e silencioso, quase educado. Portugal consome muita cultura brasileira. Música, novela, arte. Nós, no Brasil, não sabemos quase nada de Portugal. Acreditamos que falar português é suficiente para comunicar. Não é. A língua é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é. O sorriso é o mesmo e, ao mesmo tempo, não é. A comida é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é.

Descobri, depois de um tempo, que o brasileiro inverteu a ordem mundial de gostar. A gente começa gostando! “Eu não te conheço, por que eu não gostaria de ti?” O resto do mundo começa neutro ou desconfiado. “Eu não te conheço, por que eu gostaria de ti?” A partir daí, os pontos vão sendo ganhos ou perdidos.

Foi nesse intervalo cultural que Lisboa me deu o meu primeiro estranhamento real de estar fora.

A primeira casa onde morei era um lugar onde eu estava, mas não pertencia. Casa de uma portuguesa, com um filho adolescente. Não era partilha, era hospedagem hierarquizada. E havia uma desorganização que me tirava do eixo.

Mas isso teve um efeito inesperado: eu saía. Eu ocupava a cidade.

Porque às vezes o desconforto é o melhor motor de movimento.

Foi aí que Lisboa começou a acontecer, do lado de fora. Um reencontro. Um almoço depois de dez anos sem contato. Contei da casa. Do incômodo. Do quase-pertencimento. E ela me ofereceu abrigo: “Vou para o Brasil, o apartamento fica vazio. Fica lá até o fim do ano.”

E eu fui.

E, pela primeira vez, me senti morando e não apenas estando. Sozinha, numa casa que tinha cheiro de Brasil e silêncio suficiente para alguém de 40 anos respirar. Isso ressignificou minha relação com a cidade.

Quando chegou o momento de escolher onde fazer o estágio, eu poderia ter ido para qualquer cidade do mundo. E escolhi voltar para Lisboa. Voltei não porque era mais fácil, mas porque algo já tinha enraizado ali.

E aí Lisboa me deu um presente: um verão inesquecível.
Trabalhei. Tomei vinho. Beijei. Transei.
Fui à praia. Trabalhei da praia. Fui à praia antes do trabalho. Fui à praia depois do trabalho.
Fui farofeira de levar a marmita e o vinho na bolsa. Fui sofisticação de alugar cadeira no beach club. Fui turista e fui moradora.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti que viver e trabalhar podiam coexistir, sem que um engolisse o outro.

Lisboa me mostrou que dá para viver com sol, com gente de todo o mundo, com eventos acessíveis, com café na esquina e mar a 20 minutos. Lisboa me deu o primeiro vislumbre de que talvez eu pudesse construir uma vida inteira fora do Brasil e, ainda assim, me sentir em casa.

Lisboa não me recebeu com festa. Mas, com o tempo, ela me ofereceu uma chave. E eu cuido dela com muito carinho. Quem sabe um dia eu decida ficar?

Relações significativas: quando o vínculo vira casa

Eu sempre aprendi que era preciso plantar para poder colher. Não como momentos isolados: agora é o tempo de plantar, agora é o tempo de colher. Essa linearidade já caiu por terra há tempos. A vida é dinâmica e complexa, e a inteligência está em entender o tempo daquilo que se complementa.

E relações significativas são exatamente isso: um cultivo contínuo, delicado, que exige presença. Não falo de interesse, nem de conveniência. Falo de pertencimento real. De ajuda mútua. De vínculos reais. Falo dessa sensação rara de encontrar casa no olhar do outro.

Quando a gente vai embora, descobre quem fica.

Morar fora nos ensina com força que ninguém se sustenta sozinho. Mais do que nunca, a gente percebe o valor daquilo que foi construído lá atrás, nas amizades antigas, nas conversas inacabadas, nas relações que sobrevivem mesmo quando o tempo e a distância tentam empurrar tudo para o território do esquecimento.

E é bonito quando a vida confirma algo que eu sempre acreditei: quem é de verdade, permanece de verdade, mesmo em silêncio. Vínculos novos também podem ser antigos

Quando cheguei na Europa, alguém que eu conhecia pouco me estendeu a mão e transformou um território estranho em terreno possível. Outra reapareceu depois de dez anos de silêncio e, com um simples “vamos almoçar?”, reescreveu meu jeito de habitar uma cidade inteira. E teve quem me recebeu para o Natal como se eu sempre tivesse sido parte daquela programação.

É disso que estou falando quando digo casa.
Não é endereço.
É alguém que te reconhece.
É alguém que te apresenta ao seu mundo e, sem perceber, diz: “Fica. Tem espaço para ti aqui.”

Viver em trânsito é cansativo. Vínculo é descanso.

Quando a gente abre mão de tudo, trabalho, rotina, armários, o conforto de saber onde estão as coisas, a gente também abre mão de um conforto espiritual. É preciso reaprender o território, reaprender o corpo, reaprender a pertencer. E isso demanda energia.

Mas, quando existem relações significativas, tudo fica mais leve. Porque alguém divide com você o fardo invisível de existir fora do lugar de origem. Porque alguém lhe lembra que, mesmo longe, você continua sendo alguém com história.

Porque solidão depois dos 40 não é mais falta de gente, às vezes é só a constatação silenciosa de que ninguém conhece a nossa história inteira. Não é solidão por falta. É só a lucidez de perceber que existem trajetórias que só fazem sentido vistas de dentro.

E aqui eu entendi algo importante: se o vínculo com os outros é abrigo, o vínculo comigo mesma é alicerce.

E quando falo de relações significativas, falo exatamente disso, das duas direções. Do vínculo com o outro e do vínculo comigo. Um consolida o outro. É quando  estou ancorada em mim que consigo olhar para fora com verdade. E são os vínculos que encontro fora que dão sentido ao que construo por dentro.

Viver é se relacionar.
Viver é se conectar.
Viver é lembrar e ser lembrado.
É não deixar que a vida vire um espaço individual de sobrevivência silenciosa.
É ter para onde voltar, mesmo que esse “lugar” seja uma pessoa.

Aos 40, descobri que o importante não é acumular lugares, mas reconhecer lares. E lares, agora eu sei, têm rosto, não têm endereço.

Erasmus Mundus: o sim que virou travessia

Eu nunca tinha ouvido falar de Erasmus Mundus. Aliás, o nome Erasmus, que é tão comum na Europa, esse programa em que estudantes de graduação passam um semestre fora, no Brasil ainda é praticamente desconhecido. Erasmus Mundus então, que é um mestrado com mobilidade obrigatória em múltiplos países, parecia quase ficção científica.

Foi nas minhas buscas por oportunidades de mestrado mundo afora, tentando entender onde eu queria morar e como eu queria viver, que encontrei esses programas.

Erasmus Mundus são mestrados financiados pela União Europeia e que têm uma lógica muito específica: não acontecem em um único lugar, porque a mobilidade é a estrutura, a base.

São consórcios formados por três ou quatro universidades de países diferentes, o que significa que, a cada semestre, você precisa mudar de país, de idioma, de moeda, de cultura, de casa, de mercado, de rota de ônibus, de farmácia, de padaria e de geografia interna.

À primeira vista, parece absolutamente incrível. E é.
Mas também é um caos logístico permanente. Um pesadelo que inunda os pensamentos a cada vez que ouvimos a pergunta “onde você mora?”.
É viver dois anos sem ter endereço. Ou sem saber pronunciar o endereço!

Viver um Erasmus Mundus significa viver de passagem. Morar em casas que não têm a nossa cara, o nosso cheiro, a nossa decoração. Aprender a viver com 23 quilos de vida dentro de uma mala, durante dois anos.

E cada mudança exige tudo de novo:
novo mercado, novo transporte, novo registro na cidade, novo sistema de saúde, novo jeito de pedir café, nova explicação sobre por que você é brasileiro mas fala inglês com sotaque diferente, e agora também arranha um polonês de sobrevivência.

É lindo. E é muito difícil.
E essas duas coisas coexistem.
Porque existe um segredo bonito nesse caos.
Éramos 25 pessoas de 19 países diferentes. E nos mudávamos juntos.
Ou seja: a cada país novo, eu já chegava com 24 amigos feitos, o que muda absolutamente tudo.

É mais fácil explorar quando se tem gente para comer algo estranho pela primeira vez, ou para se perder no metrô, ou para rir do próprio esforço tentando pedir um pão numa língua que você não consegue sequer ler.

E sempre tem alguém que chega antes, o que cria uma espécie de sabedoria coletiva em tempo real: “o registro da cidade é ali”, “faz o visto por esse site”, “compra esse bilhete de transporte que vale para o trem também”.

Pequenas instruções que viram grandes respiros.

E ainda assim… para cada país, uma burocracia nova, um documento novo, um formulário diferente, um atendimento público que te diz, nem sempre educadamente, que você trouxe o papel errado, mesmo que seja exatamente o papel que o site mandou imprimir.

Às vezes, eu tinha a sensação de que o mestrado acadêmico era o menor dos trabalhos. O real mestrado era encontrar casa, fazer visto, pedir residência, planejar a próxima mudança, comprar passagem, desfazer mala, refazer mala, respirar e repetir. De novo e de novo.

Comecei em Lisboa, Portugal. Depois, Dublin, Irlanda. No período do estágio, que poderia ser feito em qualquer lugar do mundo, eu voltei à Lisboa. O terceiro semestre foi em Poznań, na Polônia. E o último, oficialmente em Krems, na Áustria, embora eu tenha decidido viver em Viena.

Estudar em quatro países não é a mesma coisa que visitar quatro países.
Morar é diferente de passar por.

E, claro, a mobilidade do mestrado abriu ainda mais mundo para mim: Irlanda do Norte, Escócia, Luxemburgo, Noruega, Suíça, Eslováquia, Hungria, lugares que talvez nunca estivessem na minha lista prioritária, mas que entraram na minha vida porque eu estava no caminho.

Existe a expectativa, a realidade e aquilo que nasce no meio.

Eu comecei esse mestrado com uma ideia sobre como seriam esses dois anos.
Eles foram diferentes. Nem melhores, nem piores. Diferentes!
É impossível saber o final das coisas quando elas são vividas em movimento.
E talvez, essa seja a maior graça. Os finais são construídos dia a dia, mesmo que nem sempre a gente consiga reconhecê-los.

Mestrado internacional: quando a inquietação pede passagem

Eu sempre fui assim: mais apaixonada pela amplitude do que pela profundidade única. Preferi saber um pouco de muitas coisas do que mergulhar eternamente em apenas uma. Terapia é um ato de amor. E autoconhecimento é liberdade.

E, sinceramente, acho que isso me deu algumas coisas preciosas: flexibilidade cognitiva, amplitude de visão, capacidade de olhar para o mundo de múltiplas perspectivas.

Talvez isso também venha do jornalismo, essa profissão que nos treina a perguntar, a duvidar, a buscar o outro lado da história. Aliás, os outros lados da história.

Era 2019 quando a ideia me atravessou pela primeira vez: fazer um mestrado internacional. Não sei de onde exatamente surgiu. Talvez de um desejo acumulado. Talvez de um incômodo silencioso. Talvez da fome de pausar a lógica do produzir e entrar na lógica do refletir.

Porque esse é o dilema de quem ama muitas coisas: a gente se apaixona rápido, mas o mundo cobra constância. E, no ritmo do trabalho, a gente entrega, entrega, entrega… mas raramente tem tempo para aprofundar. 

Eu queria esse tempo. Um tempo de estudo com sentido.
E, por algum motivo, eu coloquei na cabeça que seria a Suécia.

Comecei a pesquisar bolsas e encontrei a SI Scholarship, do Swedish Institute for Global Professionals. Uma bolsa para jovens líderes. Ok, talvez o “jovem” fosse discutível, mas todos os critérios estavam lá. Com sobra.

E eu tive certeza. Não aquela certeza lógica, mas aquela certeza que a gente sente embaixo da pele, nos ossos, quando tudo parece alinhado. Quando todos os sinais, todas as energias, todas as coincidências dizem: é isso!

Mas não foi.

O meu nome não estava na lista.
Eu li. Reli.
Voltei no site no dia seguinte.
E chorei. Muito.

Talvez ali tenha sido a primeira vez que a palavra etarismo atravessou meu pensamento com corpo. Ou talvez tenha sido só frustração pura. Só sei que doeu.

Logo depois veio a pandemia.

E eu entendi, com aquela sabedoria que a vida nos empurra, que, talvez, não era mesmo para acontecer naquele momento. Porque a experiência que eu desejava, de mundo, de travessia, de pertencimento em movimento, teria sido completamente distorcida pelo isolamento.

Às vezes, a vida nos nega algo para proteger o desejo.

Os anos passaram. E, em 2023, a vontade voltou. Mas diferente. Não era mais só sobre estudar. Era sobre mexer nas estruturas da minha própria vida.

Eu tinha casa. Empresa. Estabilidade. Rotina. E afeto, sempre muito afeto.
Mas também tinha uma bolha de conforto que já não me alimentava. Eu estava confortável demais para estar viva de verdade. E eu sempre fui movida pela expansão.

Comecei a pesquisar outras possibilidades, e foi aí que encontrei os mestrados Erasmus Mundus. Aprovada, tomei uma decisão: ia desmobilizar tudo. 

E não romantizo isso, não é fácil abrir mão de uma vida estável, de um patrimônio construído, de um endereço que te reconhece. É abrir uma planilha, dividir o patrimônio por 6,5. E respirar fundo!

É reconhecer que conforto demais também é um tipo de prisão silenciosa.

Seriam dois anos de outra vida. Dois anos de identidade reorganizada, de empresária para estudante. Dois anos de viagens, idiomas, países, adaptações infinitas. Dois anos para me perder e me encontrar. De novo e de novo.

Até entender que toda travessia é, antes de tudo, um exercício de fé:
Fé no caminho. Fé no tempo. Fé em mim.
E, no fundo, eu sabia:
o verdadeiro mestrado seria a vida.

Porque foi ela quem me ensinou que a transformação é o diploma que a gente emite  em movimento.

Taekwondo: reencontro com o corpo, com a força e com a casa

Eu preciso falar sobre o Taekwondo. Não só pelo que ele significa no meu reencontro com o corpo, mas também porque, quando eu vim para Portugal, o Taekwondo foi família para mim.

É impressionante quando um esporte te entrega muito mais do que você esperava. Quando ele te devolve algo que você nem sabia que tinha perdido.

Eu sempre pratiquei esportes. Desde cedo. Patinação artística dos 7 aos 18. Vôlei desde os 12, talvez 13. Futebol, handebol, muay thai, natação, pilates…

Todos me ensinaram algo, e eu sempre gostei de todos.

Mas, para ser honesta, o único que me tirava de casa feliz de verdade era o vôlei. Sempre foi.

E aí veio a pandemia. E, quando a gente menos espera, entra num ciclo péssimo: não faz nada → sente preguiça → o corpo pesa → a autoestima cai → a mente desanima. E tudo vai se desconectando.

A terapia foi o que me ajudou a quebrar esse ciclo.

Foi nesse processo que eu comecei a pensar em fazer uma arte marcial. Algo que me desse controle do corpo, da mente e também o poder de defesa. Mas eu queria mais que força: eu queria filosofia. Queria propósito.

Minha primeira pesquisa foi sobre karatê. Mas alguém fez um bom trabalho e o Google me levou até uma escola de Taekwondo Songahm.

Eu não fazia ideia do que era, mas resolvi experimentar.

Na primeira aula, entendi duas coisas: Primeira, que seria difícil para caramba! Muitos nomes em coreano, chutes, técnicas, músculos que eu nem sabia que existiam. E segunda, que era exatamente disso que eu precisava. Do desafio. Do desconhecido.

Logo depois da aula experimental, o instrutor me explicou que a matrícula era anual. Um ano inteiro de compromisso.

Para alguém com commitment issues, aquilo parecia um casamento!

Mas uma voz lá dentro me disse: “Talvez seja isso que você precise para realmente se comprometer. Com você mesma!”

E eu fiquei.

O Taekwondo Songahm é diferente do Taekwondo olímpico. Tem mistura com outras artes marciais, especialmente nas combinações.

Mas a base é a mesma: respeito, disciplina, corpo, mente. Tem fórmulas, armas, defesa pessoal, luta.

E ali eu fui me redescobrindo. Me redescobri flexível, especialmente em comparação com os coleguinhas. E me descobri muito fraca. E tudo bem! Um dia eu conseguiria fazer 10 flexões. Aquele era só o começo.

Teve uma perna quebrada no meio do caminho (porque ninguém disse que seria fácil). Mas aos poucos, o corpo foi se moldando. A mente, também.

Como faixa laranja, a segunda graduação, participei do Torneio Brasileiro.

A adrenalina daquele momento me lembrou o que eu sentia no vôlei. O “eu posso mais”. O “eu quero mais disso”.

Quando vim para Portugal, a primeira coisa que procurei foi:

“Escola de Taekwondo Songahm em Lisboa.” E encontrei.

Na Stat Campo Pequeno, achei uma nova família. Um lugar conhecido, de acolhimento, de risada, de amizade. O tatame virou casa. E, mais uma vez, foi o esporte que me trouxe pertencimento.

O Taekwondo mudou meu corpo, sim. Eu brinco que sou fat and fit, e é verdade. Ganhei músculos, mobilidade, cicatrizes e algumas medalhas.

No dia do meu aniversário, participei do Nacional Português pela segunda vez. E este ano, mais do que comemorar os resultados, comemorei o ringue de mulheres de 42 a 55 anos, que começaram no taekwondo quando muita gente acha que não dá mais para começar nada. E que estavam lá, competindo e, ao mesmo tempo, torcendo e vibrando umas com as outras.

Começei aos 41 e, hoje, aos 44, sou faixa azul. Ainda falta um caminho para a preta. Mas eu não tenho pressa. Depois dos 40, a gente aprende a confiar no processo e na magia das coisas. Aliás, não necessariamente por vontade própria, mas na última graduação eu não fiz dez flexões, mas 40!

Não estou aqui para recomendar o Taekwondo para todo mundo.

Cada um tem o seu “Taekwondo”, aquilo que faz o corpo acender, os olhos brilharem e a alma respirar.

Mas procure o seu.

Aquele lugar onde você se sente desafiado, vivo e inteiro.

Porque o corpo é casa, e como diz a tatuagem que fiz logo no primeiro semestre em Portugal: My home is within! E a sua também!

Terapia: o pilar invisível

Desde muito tempo, eu descobri a importância da terapia na minha vida. Já fiz terapias de estilos diferentes e todas, em cada fase, foram importantes do jeito que precisavam ser.

Durante a pandemia, eu me vi trancada em casa, sedentária, trabalhando demais. Era um privilégio poder trabalhar de forma remota, claro, mas eu estava ali, isolada, dentro de uma bolha.

E eu nunca fui boa com espaços pequenos. Acho que tenho até um pouco de claustrofobia, não só física, mas emocional e intelectual. Eu não gosto de ser pressionada. Não gosto que tentem me fazer caber em lugares pequenos.

Eu não sou pequena. Eu sou grande.
E preciso de espaço para respirar.

Foi nesse momento que eu pedi indicação e recomecei a terapia, com uma nova profissional, num novo processo.

Às vezes eu pensava (e às vezes ainda penso, confesso!): “Meus problemas parecem tão pequenos… será que faz sentido eu estar aqui?”

A gente tem essa mania de comparar, achar que o nosso sofrimento é menor, ou maior, que o do outro. Mas o importante não é o tamanho do problema, e sim o tamanho que ele ocupa dentro da gente.

Fazer terapia, para mim, é muito mais do que resolver questões. É ter um pilar de força, de estrutura e de segurança. É um espaço para organizar os pensamentos, para discutir comigo mesma as conclusões que tiro, para me ouvir de verdade.

Eu me autoanaliso o tempo todo, às vezes demais. Mas aprendi que, mesmo com toda a bagagem, sozinha a gente se perde nas próprias narrativas. A terapia me ajuda a encontrar o fio de volta.

Foi com a terapia que eu me reconstruí e alcancei muitos dos meus objetivos. Foi depois dela que comecei o Taekwondo. Foi com a terapia que eu consegui me estruturar para deixar um trabalho onde estive por 13 anos, uma fase intensa, cheia de desafios e aprendizados, pela qual sou profundamente grata. Foi com a terapia que aprendi a lidar com rejeição, como quando não passei no mestrado na Suécia, mesmo tendo certeza de que aquela bolsa seria minha. E foi também através da terapia que eu encontrei forças para tentar de novo, e chegar ao mestrado que concluí em agosto.

Com o tempo, o intervalo entre as sessões mudou, do semanal pro quinzenal, às vezes até mais espaçado. Mas nunca foi um problema, porque eu sempre soube que ela estava ali.

E mesmo nas semanas em que parecia que “nada aconteceu”, bastava eu escrever os tópicos para sessão para perceber tudo o que tinha vivido. Percebi o quanto eu já conseguia lidar com situações que antes seriam dolorosas ou traumáticas, de forma leve e tranquila. Isso, por si só, já é uma grande conquista.

Uma das coisas que eu mais valorizo na terapia é a escuta. Durante aquela uma hora, a atenção é toda minha. Não é necessariamente um diálogo, é um espaço para eu falar sobre o que quiser, do jeito que quiser, sem filtros.

Claro, as máscaras vão caindo aos poucos. Mas é um processo. Bonito, de confiança, de abertura, de verdade.

Eu quis falar sobre isso logo no início dessa série porque a gente vive uma epidemia de saúde mental. E terapia não é luxo, nem emergência. É cuidado. Deveria ser tão básico quanto tomar café da manhã.

Estar onde eu estou hoje, feliz e realizada, mas também cheia de dúvidas e esperanças, só é possível porque eu tive esse apoio. Esse tempo para reorganizar o que está all over the place dentro da cabeça e da alma.

A terapia abre os olhos, não pro mundo, mas para dentro. Para quem somos. Para aceitar o que somos, como somos. Para lidar melhor com os outros. E, às vezes, simplesmente para desabafar.

Eu sou profundamente grata. E me recuso a receber alta.
Terapia é um ato de amor. E autoconhecimento é liberdade.

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