Chegar ao fim do mestrado era, teoricamente, o momento de decidir: voltar ou ficar. Mas a verdade é que, quando a gente muda por dentro, não existe mais “voltar”. Existe seguir. De outro jeito, com outro olhar, com outro corpo.
Eu poderia ter encerrado tudo ali e voltado para Lisboa. Seria fácil. Seria emocionalmente confortável. Lisboa tem cheiro de casa, gosto de Brasil, amigos que viraram raiz. Tudo em Lisboa me chama pelo nome.
Mas liberdade também é papel, carimbo e prazo legal. E, enquanto meu coração dizia “fica em Lisboa”, a burocracia dizia “não será tão simples assim”.
A lei do estrangeiro em Portugal se reescreve a cada semana. Processos emperram. Documentos somem. Vistos voltam. Ficar virou sinônimo de esperar. E eu não tenho muita paciência para esperar.
Foi então que a Espanha apareceu, não como destino romântico, mas como caminho estratégico. Descobri, naquela ida instintiva à Berlin para visitar amigos queridos e importar leite condensado, que brasileiros têm um benefício migratório por lá. Dois anos de residência legal e já é possível solicitar cidadania. Dois anos! O mesmo tempo que vivi em movimento entre quatro países. Dois anos que já sei atravessar.
E, dessa vez, não será mochilão acadêmico, nem vida provisória: será declaração de permanência, mesmo que temporária. É diferente viver em um lugar “por enquanto” e viver “até segunda ordem”.
Eu poderia ir para Madrid. Ou Barcelona.
Mas eu escolhi Valência, cidade que ainda não vi, mas já imagino.
Me disseram que é solar, internacional, criativa, com praia e vida de bairro, como Lisboa, mas com velocidade espanhola e menos labirinto burocrático.
E eu gostei da ideia de chegar onde ainda não estive, mas com o corpo inteiro, não mais em trânsito acadêmico. Dessa vez, vou entrar não como estudante, mas como alguém que está testando mais uma forma de vida.
Lisboa é o afeto. A Espanha é o acordo.
Entre as duas, estou tentando construir liberdade com método.
A documentação está sendo preparada. Um visto de nômade digital me espera em algum balcão espanhol. E dizem que, se em 20 dias ninguém responder, o silêncio vira aprovação. Gosto dessa imagem: “se não me negam, me autorizam.”
Em março, eu entro em Valência.
Ainda não sei onde vou morar.
Mas já sei o que estou levando comigo: coração cheio de expectativas, planilha organizada, verão interno e uma mala cheia espaço para novos começos.
E o resto — o resto eu conto de lá.
Quando o corpo já estiver pisando no solo espanhol e o mar do Mediterrâneo me der o primeiro bom dia.
