Depois dos 40: Aprendendo outra gramática do prazer

Quando cheguei à Europa, eu sabia que iniciar uma relação fixa significaria adicionar uma nova camada de complexidade a uma vida que já estava suficientemente complexa. Eu não vim para construir estabilidade afetiva. Eu vim para experimentar presença. E entendi rapidamente que, se fosse para me relacionar, seria com lucidez, intensidade e sem a fantasia da permanência.

Depois dos 40, algo acontece com a autoestima. Ela se torna mais silenciosa e mais real. O corpo que antes era critério passa a ser morada. A bunda, que me incomodou a vida inteira, virou patrimônio afetivo-político. Aquilo que já foi motivo de autocensura passou a ser alicerce da autoestima. Não aquela autoestima de manual de autoajuda. 

Mas a autoestima que nasce quando a gente se vê com os próprios olhos. E gosta! Quando percebe que o corpo não precisa mais pedir desculpas por existir.

Sem a necessidade de encaixar tudo em um modelo de relacionamento, a intimidade se tornou mais verdadeira. Os encontros não pediam promessa, pediam presença.
E isso muda tudo.
Sem a obrigação de caber num modelo de relação, o corpo respira melhor, o desejo escolhe com mais precisão, e a entrega simplesmente acontece.

Foi aqui também, em trânsito, com o coração disponível mas não ancorado, que o poliamor deixou de ser conceito e virou compreensão: é sobre reconhecer que é possível se conectar com pessoas diferentes, de formas e intensidades diferentes, ao mesmo tempo ou em tempos distintos.

Alguns encontros foram intensos e breves. Outros, superficiais à distância, mas profundos no instante em que os corpos se olharam de verdade.

Ah, e claro, também tive o coração partido. Porque baixar a guarda, mesmo sabendo que tudo é passagem, ainda é escolha de risco. E eu sempre gostei de arriscar. I hurt, but I heal. Faria tudo de novo.

Viver fora também significa internacionalizar a experiência do encontro.
Não preciso entrar em detalhes, mas algumas diferenças culturais são mais educativas do que muitos livros de teoria relacional. Explorar isso tudo foi uma pesquisa de campo com alto valor empírico.

Aprendi rápido que primeiro encontro, só com drink. Jantar exige compromisso de tempo, e, depois dos 40, ninguém precisa ficar preso a um date ruim só porque foi educada demais para levantar.

Depois dos 40, o sexo melhora. Não porque o corpo faz mais, mas porque a vergonha faz menos. Depois dos 40, eu sei exatamente o que eu gosto e tenho zero pudor em dizer.
E eu não finjo nada: nem entusiasmo, nem orgasmo. E, aqui, qualquer toque só acontece se for escolha minha.

Depois dos 40, sexo deixa de ser validação e vira celebração da presença. O corpo deixa de pedir licença e começa a ocupar o espaço a que tem direito. E, quando a gente finalmente habita nosso corpo com inteireza, o encontro com o outro deixa de ser esforço e vira escolha consciente.

Depois dos 40, o corpo deixa de pedir licença e começa a se divertir. E eu também.

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