Ninguém me avisou sobre a perimenopausa.
Falaram sobre menopausa como um ponto final, um dia você menstrua, no outro não menstrua mais e pronto: encerra, resseca, começa a reposição.
Mas ninguém falou sobre o intervalo. Sobre esse corredor confuso entre uma porta e outra, quando o corpo ainda não fechou um ciclo, mas também já não funciona como antes.
Esse corredor tem nome: perimenopausa. E eu só descobri que ele existia depois dos 40, e vivendo tudo isso longe de casa, mudando de país, de fuso, de idioma… e de eixo hormonal.
Fiz um check-up antes de ir para a Europa. Ciclos irregulares, menstruação que falhava. Fiz exames. Não era menopausa. Era a fase de transição. Era o climatério. O primeiro ato dessa ópera hormonal.
A sensação é de viver numa TPM permanente. Eu poderia assassinar uma pessoa por dia, com argumentos bem estruturados. Tem dias em que acordo pronta para abraçar a vida, e no mesmo dia quero tacar fogo em tudo ao meu redor.
E, com vida sexual ativa, cada atraso da menstruação vira um jogo mental entre idade, perimenopausa e “vai que é filho?” Já fiz mais testes de farmácia do que gostaria de admitir. Ser transante na perimenopausa é basicamente um pequeno ataque cardíaco por mês.
Quase todo mundo fala dos calores (que por enquanto eu nem tive) e dos hormônios, mas pouca gente fala da insônia. A insônia da perimenopausa cria um looping mental dolorido: não durmo → fico irritada → os hormônios fazem rave → o corpo tenta descansar, mas a mente ainda está acesa → não durmo de novo.
É exaustão de alma. E, quando o sono não vem, tudo vem em excesso: a emoção, a irritação, o cansaço, a intensidade.
Calma que tem mais!
Nessa fase, há estudos indicando redução momentânea de massa cinzenta no cérebro, o que explica alguns lapsos cognitivos que às vezes me assustam. Agora meu cérebro precisa terminar de processar antes de permitir que eu fale. Se tento falar enquanto penso, sai um troço que nem eu entendo. E eu, que sempre tive a palavra como ferramenta afiada, agora preciso respirar antes de concluir uma frase inteira.
E tem também o corpo. Ele responde diferente. Ele dói com mais intensidade. Treinar Taekwondo nesse contexto é quase um ritual de resistência. Tem dias em que tudo dói: músculos, peito, articulações. E a vontade real é de deitar em posição fetal no canto do tatame.
Mas, e aqui está a beleza, nunca admirei tanto meu corpo quanto agora. Mesmo oscilando, mesmo doendo, mesmo falhando. Existe uma poesia selvagem no corpo que muda e ainda assim segue vivo, pulsando, insistente.
Há poesia exatamente onde o corpo se desorganiza e reconstrói um eixo próprio. Talvez seja hormônio. Talvez seja maturidade. Talvez seja as duas coisas dançando juntas. Mas, depois dos 40, e mais ainda atravessando essa transição, eu liguei um foda-se que eu nunca tinha acessado antes.
Não tenho mais energia para caber em expectativas.
Não tenho mais tempo para justificar minhas escolhas hormonais, afetivas ou corporais.
Existe vida linda no meio do caos.
E existe coragem no ato de permanecer enquanto tudo dentro está mudando.
