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Não caber mais no Brasil: o amor permanece, o endereço muda

Eu cheguei na Europa no início de setembro de 2023. E, três meses depois, em dezembro, voltei ao Brasil para passar o Natal e o Ano Novo antes de seguir para Dublin. Foi nessa volta, curta, afetiva, carregada de reencontros, que algo silencioso aconteceu: eu entendi que eu amava o Brasil, mas já não cabia mais nele.

Descrever isso é delicado, porque o Brasil ainda é o melhor lugar do mundo para se sentir acolhida. Eu amo a tia da faxina do aeroporto, que olha e sorri com aquele sorriso que só um brasileiro consegue dar, sorriso que diz “bem-vinda, meu amor, senta e come alguma coisinha”. Esse tipo de afeto não existe em outro lugar do mundo.

Mas amor não é sinônimo de pertencimento. E foi estranho perceber isso com tanta clareza.

Lisboa me abriu os olhos para um mundo vibrante, múltiplo, em movimento. Gente de todo lugar, eventos acontecendo todos os dias, idiomas se misturando nas ruas, e a praia logo ali, para quando a mente precisa de um respiro. E, de repente, São Leopoldo, que sempre foi casa, começou a parecer pequena. Não pequena de tamanho, pequena de horizonte.

Talvez, para voltar a viver no Brasil, eu tivesse que ir para lugares como São Paulo. Mas São Paulo carrega uma energia acelerada que não conversa com o tipo de vida que eu quero construir agora. Lisboa me mostrou algo raro: é possível ter intensidade e respiro, movimento e mar ao mesmo tempo.

Meu pensamento está em expansão. E, quando a gente se expande, alguns lugares apertam, mesmo que continuem amados.

Ir embora foi trabalhoso, doído, exigiu desmobilizar uma vida inteira, emocionalmente, financeiramente, logisticamente. Mas entender que não dá mais para voltar foi ainda mais definitivo. Não como ruptura. Não como rejeição. Mas como consciência: quem se move, muda.

E, quando a gente volta, a cidade está igual. As pessoas estão iguais. E isso é lindo, porque é estável. Mas nós não somos mais as mesmas. E é nesse desencontro de tempo que mora a estranheza.

O Brasil ainda me abraça.
Mas, hoje, é um abraço de visita.

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