Daily Archives: 15 de fevereiro de 2026

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Design Justice: quem tem permissão de existir no mundo

Depois de falar de corpo, de desejo, de perimenopausa, de teses e de gênero, talvez pareça que já fechei um ciclo. Mas foi justamente no início dessa jornada acadêmica, ainda no primeiro semestre do mestrado, que algo me atravessou com força suficiente para reorganizar tudo o que eu vinha entendendo sobre perspectivas, legitimidade e mundo.

Foi quando li a introdução de Design Justice, de Sasha Costanza-Chock.

Eu já tinha cruzado muitos aeroportos. Já tinha passado dezenas de vezes pelo mesmo scanner corporal. Tirado cinto, sapato, notebook da mochila, seguido o protocolo e seguido viagem. Mas ali, nas primeiras páginas do livro, Sasha, uma mulher trans, descreve o momento de passar pela segurança do aeroporto de um jeito que eu nunca tinha sido capaz de enxergar.

Se ela se declara mulher, o scanner acusa uma “anomalia” na região genital. Se ela se declara homem, o scanner acusa uma “anomalia” no peito. O corpo dela nunca acerta. A máquina não a reconhece. O sistema não tem lugar para ela.

Eu li e parei. Senti uma espécie de vergonha lúcida. Porque eu já tinha vivido essa mesma situação dezenas de vezes, e nunca tinha percebido o quanto esse mesmo percurso é um campo de guerra para corpos que não cabem na narrativa dominante do design.

Não é o corpo que está errado. É o design do mundo que foi feito para reconhecer apenas alguns corpos como legítimos. E foi aí que entendi uma coisa: o design do mundo não é neutro. Ele escolhe quem encaixa e quem é lido como erro.

Quando Sasha cita Kimberlé Crenshaw e fala de interseccionalidade, algo se deslocou de vez em mim. Ser mulher não me coloca automaticamente ao lado de todas as mulheres. Eu sou mulher, branca, com passaporte carimbado, com educação, com acesso. Outras mulheres, tantas, não atravessam o scanner da vida com a mesma margem de segurança que eu.

E esse reconhecimento traz responsabilidade política. Entender que privilégio não é culpa, mas é contexto, e contexto exige reposicionamento.

Na época, eu ainda não sabia que minha tese seria sobre CEOs, LinkedIn e legitimidade de mulheres em espaços de liderança. Mas acho que foi ali, na leitura de Design Justice, que a

semente foi plantada.

Porque no fundo, o design das plataformas corporativas, assim como o design dos scanners de aeroporto, também decide quem passa direto e quem precisa explicar sua existência. E talvez o design mais cruel não seja o das máquinas, mas justamente o das narrativas autorizadas.

Ter mais de 40 não me blindou de ser surpreendida. Pelo contrário: me fez entender que ainda havia camadas inteiras que eu nunca tinha enxergado.

O texto me ofereceu incômodo. E eu abracei.

Se o mundo é projetado, então ele pode ser redesenhado.
Quem projeta o mundo desenha também fronteiras de pertencimento.
E hoje entendi que o meu viver passa por questionar quem desenhou as condições para essa vida existir.

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