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Em respeito aos limites

Capítulo 18

O dia estava ótimo, a começar pela última yoga do retiro, finalizando com o chakra do terceiro olho e o de cima da cabeça. Acho que o poder conversar fez bem ao grupo e, especialmente à mim. Ao mesmo tempo, sei que ter tido o silêncio no início foi importante para ouvirmos a nós mesmos e nos reconhecermos como indivíduos antes de nos reconhecermos como grupo.

Estava muito quente. Acho que próximo aos 40 graus. Pela manhã os índios Shipibo trouxeram roupas, tapeçarias e artesanatos, formando um pequeno mercado informal. Optei por não comprar nada, mas o grupo saiu bem colorido. Aproveitei o sol e o calor para um banho de lago. Devo ter queimado um pouco as bochechas, mas foi muito refrescante. Logo, Tatiana e Nathan se juntaram a mim.

O almoço pareceu mais gostoso, mas pode ter sido pela ótima conversa que tivemos enquanto comíamos. Rimos e nos divertimos com as histórias, experiências e visões de cada um.  Descobrimos que ontem havia sido aniversário do Otto. Que bom que, mesmo sem sabermos, ele havia tido um bom dia. 

Tivemos mais uma rodada de Baño de Amor, brindada ao final por uma chuva esparsa que trouxe um pouco de frescor, ainda que logo tenha parado. As folhas do banho seguiram comigo por um tempo e, a cada ida ao banheiro, deixava um rastro verde.

Mais tarde, Juanita nos guiou pelas recomendações pós dieta. Ela iniciou explicando que havia cuidado de nós por todos esses dias, fazendo uma limpeza e nos auxiliando na conexão com Noya Rao. Agora chegara a nossa vez de cuidar dos nossos próprios corpos. Segundo ela, se não cumpríssemos as recomendações, existia a possibilidade de nosso corpo responder com vômito e diarréia. Ou algo mais sério! E como ela não estaria conosco, não poderia nos ajudar. Logo seguiu com as instruções:

  • Dois meses sem sexo
  • Um mês sem carne vermelha
  • Um ano ao menos sem carne de porco, mas preferia que nunca mais comêssemos
  • Uma semana sem peixe cru, incluindo ceviche
  • Duas semanas sem álcool
  • Uma semana sem leite e derivados
  • Uma semana sem óleo ou frituras
  • Uma semana sem comidas e bebidas fermentadas
  • Uma semana sem bebidas ou comidas geladas
  • Um a dois meses sem outras plantas medicinais
  • Três a quatro meses sem marijuana
  • Um a dois meses sem outros psicodélicos

Anna reforçou ainda que deveríamos ouvir nosso corpo e nossa intuição sobre alimentos que fôssemos ingerir, e sugeriu que aqueles que desejamos muito, fossem evitados por um pouco mais de tempo. A noite, durante a quinta e última Cerimônia de Ayahuasca, a dieta seria fechada pela Maestra, que cantaria Arkanas, que segundo ela são canções para proteção.

Senti por saber que sairia do Peru sem comer ceviche e carne de alpaca, mas só de pensar em algumas das coisas que foram mencionadas, meu estômago se revoltou. Saí da Maloca direto para o banheiro, onde pude já perceber os efeitos que qualquer infração dessas teria no meu corpo. Fezes, vômito e menstruação. Tudo junto. Melhor seguir à risca.

Fui para a Cerimônia ainda sem saber se tomaria ou não a medicina. Estava me sentindo um pouco enjoada e tinha muito forte na minha cabeça a lembrança da última vez, quando pensei comigo mesma que deveria lembrar daquela sensação para que eu não repetisse a dose. Quando falei sobre isso com Anna pela manhã, ela disse que eu poderia tomar menos quantidade, ou participar da cerimônia sem tomar, como fizera Tatiana na última.

Capítulo 19

Minha primeira intenção com o retiro, era aprender a ouvir minha própria voz. Sabia que eu tinha muito o que dizer a mim mesma, mas por algum motivo, essa voz andava cansada, fraca, quase apagada. Assim, achei que era hora de não me jogar com tudo, de não ir até o limite, e mais do que isso, não ultrapassá-lo. Ouvi meu corpo, minha voz e a mensagem de Noya Rao e optei por não tomar Ayahuasca na última Cerimônia. 

Não foi uma decisão fácil. Não queria deixar de viver a experiência e os aprendizados que ela traria. Ao mesmo tempo, sabia que era a decisão acertada.

Quando chegou minha vez, fui até o centro, sentei com as pernas cruzadas e informei a Elio que não tomaria a medicina naquela noite. Sem julgamentos, ele pediu que eu encostasse com o dedo na bebida e fizesse uma marcação, como um risco, em minha testa. Assim eu fiz e retornei ao meu lugar.

Mesmo sem ingerir Ayahusca, senti os efeitos como se houvesse ingerido. Sentia enjôo, ânsia de vômito e não confiava no meu intestino. Fiquei lá, deitada, no escuro e no silêncio. Pensava, “não é possível que ainda assim, serei a primeira a vomitar de novo”. E assim foi. Mas dessa vez preferi ir ao banheiro, pois não tinha certeza de por onde sairia o que eu precisava botar para fora.

Retornei e logo Juanita começou a entoar seus ícaros e cânticos. Dessa vez, como ela havia dito, as canções seriam diferentes, as Arkanas. Em Shipibo, ela encerrava a dieta, pedindo a proteção eterna da Noya Rao. Falava em escudos e espadas, além de um manto de flores e da pintura indígena no corpo que nos protegeria daqui para a frente. Como nas outras vezes, ela passou um por um, cantando em frente a cada um e, ao final, dando o tradicional banho de cuspe com Água de Florida.

Foi uma noite de reflexão e muita gratidão por tudo o que eu estava vivendo, além de todo o aprendizado e limpeza promovidos nessas duas semanas. Refleti sobre o caminho que havia me trazido até ali. Entendi que eu não havia procurado a Ayahuasca, mas ela a mim. E sou grata por esse encontro.

Logo, encostei meu braço na testa e passei a Ayahuasca para ele. Depois acabei passando o braço no cabelo e tudo ficou grudento. Ri comigo mesma da patetice e do espírito infantil que me havia acometido. Fiquei feliz por despertá-lo. Parecia que Juanita estava na mesma vibração e, ao final, ria e cantava enquanto Ana sugeria algumas músicas ao grupo.

Minha música final foi Banana Pancakes, do Jack Johnson e pude contar com a ajuda da turma toda. Não sem antes perguntar a Tracy se meu chapéu mágico estava na minha cabeça, para a diversão de todos. Durante à tarde, ela havia dividido que adorava quando eu cantava e que, quando olhava para mim, me via com um chapéu pontudo, como se fosse uma pequena cabana em minha cabeça.

John pegou o violão quando foi sua vez e nos brindou mais uma vez com sua linda e doce voz. A energia estava alta. Ao final, me despedi de Elio, que pegaria um vôo em seguida, e fui para o meu Tampo encerrar minha noite.

Capítulo 20

O dia amanheceu bem quente mais uma vez. Encontrei com John na pia para escovar o dentes e ele foi dali para o lago. Certo ele. Eu não queria carregar roupa molhada na mochila, então decidi que hoje não haveria banho. Além do mais, o lago era meio barrento e a água estava bem rasa.

Peguei um Mapacho e fui para a casa central. Sentei na varanda e, aos poucos, outras pessoas foram chegando. Otto, Tracy, Adelina. As caras eram a mistura de todo dia pós cerimônia, cansaço com alegria, poucas horas dormidas, mas sono de qualidade, angústia e orgulho. Trocamos um pouco do que foi a experiência do dia anterior para cada um de nós. O café da manhã tinha sal, limão e até pimenta. Uma benção dos céus.

Tive oportunidade de conversar mais com a Tracy. Que menina espetacular. Quero muito poder recebê-la em minha casa um dia. Ficamos conversando por ali até a hora da roda de conversa. Mais uma vez, grandes aprendizados, mas mais do que isso, muita gratidão, a tudo e a todos.

Esperávamos ansiosos pelo menu do almoço. Torcíamos por peixe, mas teve frango. Mas o que de fato importava era o sal. Depois do almoço fiquei com Felix por quase uma hora enquanto Elyse subia na torre da caixa d’água para acessar a internet e reservar um vôo para Cusco. Na volta, pude conversar bastante com ela, conhecer sua história e as razões por ela estar buscando cura. É uma verdadeira guerreira. Senti sua dor, mas ao mesmo tempo, me senti inspirada por sua força e determinação.

Era o último dia do retiro. Me sentia feliz por voltar para a cidade, ao mesmo tempo que melancólica por deixar aquela rotina tão calma e tão focada em mim. Aparentemente esse sentimento era compartilhado por todos. Também havia a ansiedade por retornar ao dia a dia sem a certeza de conseguir manter os aprendizados que tive ali. Entendendo que teria que explicar como havia sido o retiro, ainda que as pessoas não conhecessem tudo o que havia me feito chegar até ele.

Mais tarde, recebemos Jess e Marcela, representantes da Alianza Arkana, que vieram apresentar o projeto. Elas trabalham com as comunidades indígenas dos povoados peruanos, com alguns objetivos voltados para a saúde e manutenção da cultura Shipibo. Sem auxílio do governo e sobrevivendo apenas com doações de pessoas físicas e algumas empresas, promovem workshops que vão desde o conhecimento das plantas, até prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou causadas por parasitas, como a anemia, por exemplo. Também fazem um trabalho de valorização do artesanatos e das técnicas de bordado, e ainda do idioma, que acaba se perdendo com cada vez mais índios indo para a cidade buscar um estudo de qualidade.

Antes do jantar, tivemos nossa integração final, focada na volta à rotina e na boa readaptação. Anna falou que deveríamos retornar devagar e, acima de tudo, entendendo que as outras pessoas, família e amigos não passaram pela experiência, então era bom mantermos a calma e a empatia, bem como nos resguardar um pouco com relação aos aprendizados. Mas antes, ela havia preparado um doce de cacau para comemorarmos o aniversário do Otto.

Ao invés de passar regras, Anna preferiu nos passar a palavra, pedindo que cada um sugerisse algumas práticas para um retorno não traumático à vida real. John foi o primeiro. Ele sugeriu que mantivéssemos um espaço em nossa vida para refletirmos e nos ouvirmos. Encontrar esse momento, diariamente, através da prática da meditação, da Yoga, de oferendas à Noya Rao ou outra atividade que seja do agrado. Já Tracy sugeriu usarmos algo, todos os dias, que nos permita lembrar do caminho de cura. Seja uma roupa, uma cor ou um acessório, algo que mantenha a experiência acessa em nossas mentes.

Adelina veio na sequência. Sugeriu mantermos o diário e a atenção às nossas próprias reflexões, além de cuidar com as grandes expectativas. Sugeriu que, da lista de coisas que queremos incorporar às nossas vidas, escolhamos uma ou duas. E só irmos adiante quando essa uma ou duas coisas houverem sido dominadas. Assim evitamos ansiedade e frustração. Nathan complementou falando sobre a importância de mantermos as relações. Comentou que era importante pedirmos ajuda, procurarmos ajuda, e que é na família e amigos que encontramos essas luzes.

Tatiana sugeriu que trabalhássemos para que a experiência seja cada vez mais integrada à nossa vida, para que ela não passe a ser apenas um momento recreativo. Ela também comentou sobre o poder da visualização, explicando que sempre que precisássemos, poderíamos retornar à floresta. Eu falei na sequência. Falei sobre a importância de entendermos o todo e, dessa forma, conseguirmos explicar para quem quiser saber que não foram apenas duas semanas. Que a o retiro fez parte de uma história que começou antes e que ainda segue por muito tempo. Expliquei que focar num segmento da história seria negligenciar nossa bagagem, nosso repertório, nossos traumas e vitórias que nos fizeram quem somos. E claro, falei ainda sobre a importância de sermos honestos e da mesma forma, pedir honestidade. “Quer realmente saber como foi?” ou “Não me sinto bem com essa atitude quando eu divido algo pessoal”, expliquei.

Otto foi o último e sugeriu associarmos a cura a um lugar, como a praia, por exemplo. Um local onde possamos nos conectar com Gaia, com Noya Rao e com Pacha Mama. Ainda comentou que a melhor forma de mudar qualquer coisa, é ser a mudança, mostrar que é possível, servir de exemplo. Anna concluiu falando sobre a importância de sermos felizes. Repetiu que o caminho de cura não precisa ser penoso ou dramático, que somos seres humanos e merecemos celebrar. E também nos permitirmos ter dias ruins. Também reforçou a importância de cuidar do corpo, fazendo exercícios e mantendo uma alimentação consciente. 

Lições da Aya

Capítulo 15

Minha quarta Cerimônia de Ayahuasca foi muito ruim. Mais uma vez, fui a primeira a vomitar e, dessa vez, sentia chegar também uma diarréia. Fui ao banheiro, mas foi só eu sair da Maloca para perceber que minha pressão estava no pé. Achei que fosse desmaiar. Estava muito zonza e enjoada e estavam todos ainda em silêncio, concentrados em suas experiências individuais.

Me joguei de joelhos no colchão e peguei o pote de vômito no colo. Sentia que eu iria cair a qualquer momento. Eu precisava pedir ajuda, mas sentia vergonha. Tínhamos recém bebido a medicina. Estavam todos deitados. Quem viria me ajudar? Respirei fundo e bati três vezes no chão com a força que eu ainda dispunha. Anna logo veio ao meu encontro. “I’m gonna faint (Eu vou desmaiar)”, eu disse. Ela pediu que eu repetisse. “I think I’m gonna pass out (Eu acho que vou apagar)”, repeti.

Anna me segurou, ali sentada como estava e pediu que eu tomasse água. Tomei o maior gole que consegui e deitei. Meu mundo girava como se eu tivesse ingerido duas garrafas de Tequila. Comecei a suar frio e minhas mãos começaram a ficar dormentes. Ana pegou minhas mãos, me orientou para que eu respirasse profundamente e devagar e, ao mesmo tempo, começou a realizar a Soplada sobre minha cabeça, meu rosto, meu peito, todo o meu corpo. Fui recuperando o fôlego. Então veio a Água de Florida. Ana molhou suas mãos e colocou bem no meu nariz para que eu respirasse. Me sentia melhor, mas ao mesmo tempo, precisando de ar puro por causa da fumaça do Mapacho e do perfume. Pensava que deveria ter comido sal durante o dia. Já estava sentindo falta e conhecia bem meu histórico de pressão baixa. 

Fui melhorando aos poucos e, depois de algum tempo, Anna retornou para o seu lugar. Mas logo a sensação de desmaio voltou e bati novamente três vezes no chão. Anna veio e, mais uma vez, me orientou para que eu controlasse a respiração. Logo, meu corpo começou a tremer. Primeiro as mãos, depois braços, ombros, costas. Especialmente o lado direito. Peguei a mão da Anna. Estava assustada. Pedi desculpas, me sentia culpada por monopolizá-la. “Não precisa pedir desculpas, estou feliz por estar aqui”, ela respondeu. Comecei a chorar. O tremor não parava. Fui sentindo como que um ataque de pânico.

Pensava se havia danificado minhas funções neurológicas de alguma forma, se estava fazendo tudo errado, se havia comprometido minha saúde. Era aterrorizante sentir o corpo se movimentar de forma involuntária. Perguntei à Anna porque eu estava tremendo. “É perfeitamente normal”, explicou ela, “é um descarrego de energia que precisa sair. Deixa tremer”. Não soltei sua mão até que me acalmasse e os tremores se tornassem mais espaçados.

Tomava muita água. Queria que o efeito passasse, mas consegui com isso foi uma vontade de ir ao banheiro. Anna me acompanhou e lá eu fiquei por um certo tempo. Sabia que estava botando a Ayahuasca para fora e, com ela, uma carga que eu não queria para mim. Quando retornei, estava mais tranquila e consegui relaxar, deitada no colchão.

Quando Maestra Juanita chegou para cantar em frente a mim, meu corpo voltou a tremer mais uma vez, especialmente o lado direito. Fiquei ali, sentada em frente à ela, e deixei tremer. Eu estava em segurança e precisava de alguma forma descarregar essa energia que estava em mim. Cheguei a pensar em levantar e começar a dançar, mas fiquei com medo de derrubar alguém, alguma coisa ou eu mesma cair.

Juanita passou e os tremores seguiram, cada vez mais esparsos. Deitei novamente e ouvi ela passando por cada um dos quatro que vinham depois de mim. Eu queria que aquela Cerimônia terminasse. Visões vinham, mas tinha medo, então as bloqueava. Não me rendi como talvez devesse ter feito para matar o que precisava ser morto. Não deu. Maestra seguia cantando e parecia que aquilo nunca teria fim. Até que veio o silêncio e Anna foi perguntando, um a um, sobre como estavam se sentindo.

Quando chegou minha vez, contei que havia passado por maus bocados, mas que agora estava bem. Cantei “Me Cura de Mim” e depois Anna pediu que eu cantasse novamente “Ô chuva”. Parece que cantar realmente ajuda. Ao final, seguimos cantando, todos juntos. Primeiro saíram Elio e Juanita, depois Anna. Ficamos nós ali, cantando. Um tempo depois me despedi de todos e retornei para o meu Tambo. Precisava ir no banheiro e já queria aproveitar a viagem. Mais uma vez, dormi profundamente.

Capítulo 16

Acordei sentindo ainda a pressão baixa. Não era exatamente um enjôo, mas uma falta de energia. Na roda de conversa, contei sobre minha experiência, mas que ainda não entendia o significado dela. Disse que lembrava de um momento em que pensei para mim mesma: “Lembra bem desse sentimento para que tu não tomes a medicina na próxima Cerimônia”. Prometi que contaria assim que compreendesse o aprendizado que deveria tirar da noite anterior.

Anna então me explicou que os tremores são perfeitamente normais e são sintomas de que tinha muita energia em mim que não era minha. Falou que poderia ser inclusive herança genética, de várias gerações, que chegam pra gente através do DNA. Sugeriu que eu não buscasse entender, que apenas aceitasse que foi o que foi, e que o que precisava sair, havia saído. Elio reforçou falando da minha força e segurança. Respondi: “Mas entrei em pânico!”. Ele me explicou que, ainda assim, eu tive calma para controlar minha própria respiração e me acalmar. Elio acabou compartilhando que também experimentou muita tremedeira durante a Cerimônia. John também.

Conversando com John à tarde – hoje terminou o silêncio e pude então conhecê-lo melhor – lembrei do Espiral do Encontro e de um exercício que fizemos. De acordo com o Bernardo, que facilitou o encontro, os animais não guardam rancor ou raiva de outros animais pois chacoalham toda a negatividade depois de uma briga ou fuga. Assim, ficamos uma música inteira chacoalhando para tirar essa energia do nosso corpo. Talvez eu deva mesmo tremer mais.

Capítulo 17

Usei um pouco de sal no almoço e foi uma bênção. Senti a energia voltando ao meu corpo. Só não salguei tudo pois fiquei com vergonha, mas vontade eu tinha. Teve peixe e estava delicioso. Disseram que havia sido feito pela própria Juanita.

A tarde teríamos um Baño de Amor. Era uma mistura de plantas, preparadas pela Maestra, que traria amor, abundância, boas energias. Um a um, sentamos no banquinho em nossos trajes de banho para que Juanita despejasse sobre nós aquela água perfumada. A orientação era para que não desgrudássemos do corpo as folhas e não tomássemos banho até o dia seguinte. Assim eu fiz. O perfume do Baño de Amor era delicioso.

O tremor, o sal e o Baño me trouxeram uma energia nova. Me sentia bem, renovada. Havia conversado com John e com a Tatiana, havia tocado músicas para a Tracy. Havia brincado com o Felix. Era uma nova pessoa.

No final da tarde, queimamos o Despacho. Nathan montou o fogo e nosso pacote queimou lindamente enquanto conversávamos em torno da fogueira. Dali, parecia que montaríamos uma caravana para Cusco e eu iria adorar a companhia desses novos amigos por lá. Otto veio perguntar se eu estava melhor. Falamos um pouco sobre a experiência que eu havia passado e ele me contou que quando me ouviu, achou que fosse uma barata que havia passado em cima de mim. Acho que ando fazendo drama demais.

Encerramos esse dia lindo com uma sessão de Nidra Yoga, conduzida pela Tatiana. Ela me explicou que é uma técnica super antiga, indiana, que consiste em uma meditação profunda, sem movimento, como se fosse um sonho lúcido. Deitamos nos nossos colchões na Maloca e seguimos nossa professora interina que nos guiou por uma viagem dentro de nós mesmos, para depois nos conectarmos com todo o cosmos. É uma técnica bem poderosa. O relaxamento foi tamanho que ao final me vi toda picada por mosquitos, que fizeram a festa sem que eu ao menos sentisse. Mais uma boa prática para ser adotada na rotina.

Na dualidade das emoções

Capítulo 12

A terceira Cerimônia me trouxe momentos de muita alegria. Como já de costume, o vômito veio rápido, mas com ele, alucinações lindas e inspiradoras. Eu estava ali, deitada estática, sentia o corpo adormecido, formigando, e me via nas paisagens do artista visionário que conhecêramos pela manhã. Era uma sensação maravilhosa de bem estar. Quando sentia o corpo formigando muito, fazia um esforço mental para voltar e abria os olhos.

Me transportei de corpo algumas vezes, iniciando por uma bebê aranha sendo muito bem cuidada e protegida pela mamãe aranha. Sentia conforto, carinho e segurança. Fiquei ali por um tempo, vendo a vigilância de quem me protegia e recebendo alimento para meu desenvolvimento. Na sequência, virei um bebê pássaro ensaiando meus primeiros vôos. E como foi difícil. Alguns rasantes e logo eu estava novamente no chão. Tentava imaginar longe, visualizar que conseguiria, mas precisava fazer muita força e parecia que ainda não estava em condições de voar. Pela dor que senti nas pernas no dia seguinte, imagino que eu estivesse tentado com os membros errados.

Fui ainda um filhote de felino. Impossível saber se um jaguar, um puma ou um leão. Mas brincava e rolava na grama verde com meus irmãos. Sentia muita paz. Me sentia em casa. Nesse momento, a Maestra começou a cantar.

Sentia enjôo e sono, mas não queria sair daquele transe. Por vezes, algumas coisas ruins apareciam, como facas, ou mesmo aranhas (dessa vez não no bom sentido). Nessas horas, abria os olhos e pensava “não quero nada de ruim hoje”. Até que Noya Rao apareceu. Dessa vez em forma de gente. Não sabia definir se era homem ou mulher, mas era imponente. De repente meus ouvidos fecharam e comecei a sentir crescer a minha volta uma grande bolha transparente, um pouco rosada. Ela estava me ensinando a me proteger. Me mostrou que a intenção com as facas era apenas me mostrar que, sempre que eu precisasse, eu poderia recorrer a este sentimento. Um sentimento de entorpecimento e segurança. Como se ali, nada pudesse me atingir.

De repente apareceu um bebê em um berço, bem na minha frente, ainda numa das paisagens dos quadros de arte visionária. Imediatamente o transformei em luz e voamos. Voamos do Peru ao Brasil e até o apartamento da minha irmã. Entrei em seu quarto e a vi ali, dormindo em sua cama. A Penny, sua cachorra, me viu, mas não latiu como de costume. Estava ela também na cama e assim ficou, assistindo enquanto eu depositava a luz na barriga da sua mamãe. Era uma sensação de alegria profunda. Tanto por saber que estava entregando a ela o sonho do momento, quanto por ter conseguido voar.

Maestra Juanita cantou longamente em frente à minha cama. Por um momento, a Maloca estava na completa escuridão e silêncio. Não havia ninguém batendo no chão ou pedindo ajuda. Nenhum Mapacho acesso. Apenas o escuro, o silêncio e a voz de Juanita. Senti muito amor e energia nesse momento e, pela primeira vez, não dormi assim que ela passou para a próxima cama. Dessa vez a vi concluir o círculo e retornar ao centro.

Elio então pegou o violão e começou a cantar. Aos poucos, íamos aprendendo as canções e tentando acompanhar, ainda deitados, ainda que só o refrão. Um a um, fomos sentando. Todos menos Otto, que começou a vomitar com muita angústia e dor. Seguimos cantando, até que Anna tomou a palavra para perguntar como estávamos. Elyse deu seu ok, mas não quis cantar. Na sequência, Tatiana. “Agora estou bem, mas adoraria um abraço”, disse. Minha vontade era de me arrastar até ela e abraçá-la, mas ainda me sentia alta e fiquei com medo de virar algum pote de vômito. Ninguém foi até ela. Meu coração ficou partido.

Tracy estava bem e passou a palavra para mim. Contei que havia viajado muito e, por isso, estava exausta, mas muito feliz. A única música que me veio à cabeça foi:

Is this love,

is this love,

is this love that I’m feeling?

Todos cantaram juntos e assim a roda seguiu. Adelina, Nathan, John – que cantou lindamente –  e Otto, que seguia lutando com suas angústias. Assim, seguimos cantando e emanando amor para que ele pudesse superar o que estava sentindo e encontrar a cura. Logo ele caiu no choro. Cantamos mais alto. A energia desse momento foi inexplicável.

Quando encerramos a roda, resolvi retornar para o meu Tambo. Passei pelo banheiro antes e coloquei sobre a caixa da descarga, minha garrafinha de água e o isqueiro. Senti que elas balançaram, mas entendi que era em função do meu senta e levanta da privada. Ainda lembro ter pensado algo como “eu não deveria, neste estado, arriscar colocar a garrafa em cima da caixa da descarga. Ela poderia cair no vaso”.

Fui para o quarto e deitei. Logo em seguida apareceu Elio perguntando se estava tudo bem, já que havíamos tido um terremoto consideravelmente forte. Nem cheguei a me assustar, afinal, devo ter achado que era coisa da minha cabeça. Ainda deitada lembro de pensar “sim, definitivamente a Terra tá balançando. Não, eu estou balançando. Não, estamos todos parados e minha cabeça que não está querendo parar”. 

Capítulo 13

A roda de conversa foi bastante intensa, como já de costume. Antes de qualquer coisa, ofereci à Tatiana o abraço que ela havia solicitado ao final da Cerimônia. Me senti bem por poder dar à ela um pouco de amor e conforto. Dividimos nossos aprendizados e Otto contou um pouco do que passou, seus medos e do amor que sentiu emanando de todos nós. A roda é sempre um momento muito profundo, onde conhecemos um pouco melhor a cada um.

Dormimos juntos, cantamos juntos, vomitamos juntos, dividimos nossas piores dores, nossos maiores medos, nossas pequenas conquistas. Não tem como ficar mais íntimo do que isso. Aos poucos, os laços vão se formando. Sinto ainda ter tido pouco contato com John. Mais reservado, ele segue firme as regras do silêncio. Ao menos comigo.

Eu já me vejo cansada da floresta. Conto os dias para tomar um banho quente e viver em um lugar onde o conceito de limpeza seja ao menos um pouco mais próximo do meu. Quero caminhar sem ter que constantemente tirar teias de aranha do meu rosto ou cabelo. Quero ver as estrelas sem me preocupar com mosquitos. Quero sentir de novo o silêncio de nenhum zumbido em meu ouvido. Quero conversar com as pessoas, trocar experiências, conhecer histórias.

Fico eu aqui, no meio da floresta, tendo a certeza de que sou de praia. Quero também um banheiro no quarto, para que eu não precise segurar o xixi, nem sair a noite, no escuro, de lanterna em mãos, para conseguir voltar a dormir. Penso se fazer jejum não seria melhor do que seguir comendo essa comida pálida, sem cheiro e sem sabor. Penso nos lugares lindos que ainda irei conhecer… Machu Picchu, Montanha Colorida, Lago Titicaca.

Ao mesmo tempo, o livro fala sobre viver o agora. Sobre estar presente. Penso nos desafios impostos por Noya Rao e nos sacrifícios que ela pede como prova do comprometimento com a elevação espiritual. Rezo, medito, respiro. Tento encontrar a paz comigo mesma e com o ambiente. Sei que tudo isso faz parte da jornada. Entendo. Aceito. Agradeço.

Capítulo 14

Durante a cerimônia de Noya Rao da noite passada, descobri que Nathan também está indo a Cusco. Provavelmente terei companhia em alguns passeios e confesso que gosto da ideia.  Segundo Anna, outros também irão para o mesmo destino. Resta saber quem.

Esta seria a última cerimônia em que beberíamos o chá da árvore mestra da nossa dieta. Após a quarta Cerimônia de Ayahuasca, teríamos uma sessão de Baño de Amor, com um preparo feito por Maestra Juanita com o que sobrou da bebida. Receberíamos esse banho como a conclusão desse laço que deve permanecer para sempre, já que a partir de agora, Noya Rao já vive em cada um de nós. Anna conduziu mais uma vez de forma maravilhosa, com uma meditação poderosa ao final.

Eu havia dormido três horas durante à tarde e ainda assim, dormi bem a noite toda. Meu sono tem sido profundo por tanto tempo, de acordo com o aplicativo que uso para monitorá-lo, que parece que eu saio do corpo e me transporto dali. A sensação quando acordo é de quem acaba de sair de um belo descanso.

Acordei super disposta para a yoga. Dessa vez trabalharíamos o chakra da garganta, da expressão. A prática dessa vez foi um pouco mais fluida, com movimentos orgânicos e menos poses estabelecidas. Nos trouxe grande sensação de bem estar e decidi que o dia seria bom, que não pensaria mais no final do retiro, por mais difícil que isso fosse. Também decidi me focar nas frutas, já que essa é a parte boa da comida aqui.

Ainda pela manhã, Anna convidou à todos para fazermos juntos um Despacho. O ritual tem origem nos Andes e é uma oferenda à Pacha Mama, ou à Mãe Terra. Pediu que escrevêssemos bilhetes com desejos e que colhêssemos algumas flores e folhas. O Despacho seria queimado no dia seguinte.

Escrevi minha carta agradecendo à tudo o que sou e a tudo o que conquistei. Agradeci à minha curiosidade, que me faz sempre querer conhecer mais, à minha família e amigos, ao amor que sinto de cada um. Agradeci às oportunidades que me foram dadas e também por tê-las reconhecido e aproveitado quando achei que deveria. Pedi mais uma vez para que Noya Rao me guiasse pelo caminho que fosse melhor para mim e para o meu aprendizado. E pedi para que meu gato Johnnie Walker se curasse de um câncer intratável. Que se não fosse possível, que ele vivesse o máximo possível sem dor. E que quando a dor fosse inevitável, que ele fizesse a passagem por ele mesmo, em paz e de forma confortável, preferencialmente comigo ao seu lado.

Anna iniciou o Despacho estendendo uma folha de papel de seda branco na mesa. No centro, colocou uma concha, representativa da água como fonte de vida. Explicou ainda que a concha é o que fica, é a base. Que ela pode ficar por dias na fogueira, mas que ela não se destrói, assim, representa também a força de uma boa estrutura. Na sequência, preencheu a concha com gordura de Alpaca. Explicou que a Alpaca é um animal adorado nos Andes por ter o servir como essência. Sua carne serve de alimento, sua gordura, de energia para iluminação, seus ossos para ferramentas e sua lã e couro para roupas e artefatos. Anna explicou que nos Andes, a elevação espiritual buscada é a de servir por inteiro, assim como a Alpaca.

Na sequência foram entrando outros elementos, grãos representativos de intenções e energias. Lembro que a quinoa representava a superação de obstáculos. “A quinoa nasce em qualquer terreno, mesmo os mais duros ou rochosos. Ela representa a esperança e a possibilidade de reverter as adversidades”, explicou Anna. Uvas passa significavam os anciãos. “Eles ganham rugas, mas ficam mais doces”, disse. Também grãos de milho, folhas de coca, balas e doces. “Precisamos sempre lembrar de festejar. Somos seres humanos e merecemos momentos de prazer”, continuou Anna.

Ao final, alcançamos nossas cartas e cobrimos a oferenda com as flores colhidas pela floresta. Anna então embrulhou tudo com o papel de seda branco que estava na base e amarrou com um cordão. Depois o colocou em um papel de presente, passando ainda cordas de duas cores em torno dele. Por fim, adicionou as folhas que havíamos colhido junto com as flores. Era uma oferenda cheia de energias e intenções e esperávamos que fosse bem recebida.

Com as emoções à flor da pele, fomos para o almoço. Otto sentou-se em frente à mim e chorou por algum tempo, em silêncio. Fiquei em dúvida sobre interferir ou não, mas decidi que me faria bem ajudar. Lhe ofereci minha mão e deixei que a segurasse pelo tempo que precisasse. Não era necessário falarmos a respeito. Eu apenas queria dizer que estava ali para ele. Que ele não estava sozinho.

Fomos então lavar a alma com um banho no lago. Foi o meu primeiro, mas o pessoal já havia se aventurado por ali. Foi um bom banho, mas melhor foi o banho de chuveiro que tomei na sequência. Assim, no meio do dia, calor, foi o melhor de todos o que havia tomado. Aproveitei para ficar ali por bastante tempo, curtindo o momento.

Visitas inesperadas, Noya Rao e arte

Capítulo 11

Acordei antes do café, mas ansiosa por comida. Parecia que eu poderia passar mais um dia em jejum, mas o simples fato de eu haver decidido comer me encheu de fome. No meu quarto, muitas baratas mortas e uma aranha gigante encolhida no meio da escada. Aproveitei que avistei Ramiro na minha ida ao banheiro e pedi ajuda para a remoção do corpo.

Depois do banho gelado, fui direto para a cozinha. Otto já estava lá e logo chegaram os outros. Comi dois pedaços de mamão que estavam deliciosos, doces. Pareciam a melhor comida do mundo. Em compensação, havia um creme de ervilha que me encheu os olhos mas que, no fim, não tinha nada de sal, bem como toda a comida por ali.

Na sequência veio a roda de conversa. A cada encontro, o grupo se abria mais. E haviam problemas realmente muito sérios por ali. Abuso sexual quando criança, vício em crack e heroína na família, vítima de múltiplos estupros, experiências sexuais traumáticas. Tudo sendo colocado para fora, sendo curado. Era um processo muito profundo e muito bonito.

Contei minha história e agradeci a cada um por estarem ali. Sabia que havia um motivo para eles estarem em minha vida e que, até o final da jornada, aprenderia com cada um deles.

O restante do dia foi bem calmo. Havia passado quase que toda a tarde na casa central, lendo numa rede, até terminar o livro do Don Juan. Diferente da primeira cerimônia, não senti cansaço na parte da tarde. Era como se minhas poucas horas com Noya Rao tivessem valido por muitas.

No almoço teve um peixe muito saboroso, ainda que sem sal. Era irônico botar salada por cima do arroz na intenção de dar sabor a ele. A melhor parte eram sempre as frutas. Almoço e jantar. Banana, pera, melão, melancia. Todas deliciosas. Mas ainda me faltava o sal.

Depois do jantar fui até o quarto na intenção de tomar um banho antes da cerimônia da Noya Rao, mas paralisei quando vi uma aranha, prima da de de manhã, pendurada na cortina. Petrifiquei no meio do quarto e comecei a suar como há tempos não acontecia. Era uma tarântula de tamanho médio, do tamanho da palma da minha mão. Não sabia o que fazer. Decidi que eu não queria mais ficar na floresta. Queria ar condicionado, minha cama, zero bichos. Felizmente avistei luz no quarto da Tatiana, que veio em meu socorro removendo o que então vimos serem duas aranhas com traquilidade. Eu dizia “mata” e ela dizia “elas não precisam morrer”, e as arrastou para a rua.

Na cerimônia da Noya Rao, Anna cantou um ícaro para a árvore que fez com que todos nós entrássemos em alfa num piscar de olhos. Foi lindo. Preciso lembrar de pedir que ela escreva para mim.

————

O dia seguinte amanheceu chuvoso e frio. Um banho difícil para acordar e ir para a yoga. Trabalhamos o chakra do coração em movimentos gentis e lentos, bem como o dia pedia. Fiquei pensando sobre a prática da yoga pela manhã. Ainda não sei se é um hábito que irei levar daqui ou se o dia-a-dia vai me convencer que uma hora a mais de sono ainda funciona melhor para mim. Mas por aqui posso dizer que acordo com outra energia. Claro, estou dormindo bem e bastante.

Comecei um novo livro, chamado The New Earth (Um Novo Mundo), de Eckhart Tolle, famoso autor de O Poder do Agora. A leitura é fácil e muito interessante, trazendo à luz conceitos que passam desapercebidos  por nós. Ego, pensamentos, emoções, o que é meu e o que sou eu, trauma, dores… Passei quase todo o dia envolvida com ele, dobrando cada página com passagens interessantes para que eu pudesse fotografar depois e refletindo sobre a aplicação da teoria na prática.

Ainda durante a manhã, tivemos um workshop de arte visionária. Para a aula, veio um artista de Pucallpa que trouxe com ele, algumas de suas obras. Eram peças lindas, cheias de cores fortes e fluorescentes. Mesclavam a floresta, índios, cachoeiras e animais num cenário estilo Avatar. Nossa tarefa era em duplas, um deveria pintar o olho do outro, depois explicando o que viu e como optou representar.

Minha dupla era Tracy e foi maravilhoso dividir essa experiência com ela. Cheia de juventude, cores e luzes, ela havia se apagado em função de alguns traumas internos. Iniciamos com o desenho da floresta, sempre guiados pelo artista, para depois irmos para o olhar. Estava bastante insegura quanto a minha habilidade de desenhá-la. Queria fazer justiça à beleza que eu enxergava e não sabia se teria talento para isso. Pedi desculpas já antes de iniciar, mas ela mesma disse que parasse com isso. Assim, nos divertimos enquanto misturávamos cores e ferramentas.

Era incrível poder passar para o papel a essência de Tracy. Afinal, pouco havíamos conversado em função do silêncio. O que eu sabia sobre ela havia sido compartilhado nas rodas de conversa, mas aquele era um momento de cura, era diferente. Por fim, acho que consegui representá-la bem. Tentando através de cores, mostrar toda alegria que eu via nela. Da mesma forma, Tracy apresentou seu desenho falando sobre o que enxergava em mim. “Vejo um pessoa forte, segura, mas com uma incrível doçura e gentileza”, contou. Pedi que ela me desse seu desenho e entreguei o meu à ela.

Eu, pelos olhos da Tracy.

À tarde sentamos todos na Maloca para ouvir um podcast gravado por Nathan à um amigo alemão que havia dividido com ela uma experiência similar em um retiro na Costa Rica. Nathan é veterano do exército americano e, como já mencionei, havia passado muitos anos entre Iraque e Afeganistão no que ele chamou de “a guerra contra o terror”. Diagnosticado com problemas cerebrais em função de traumas e concussões, havia passado por inúmeros médicos e  tratamentos. Nos contou que havia gasto algo em torno de 4,5 milhões de dólares em tratamentos, mas que nada havia funcionado. Até que ele descobriu a Ayahuasca e as plantas medicinais.

No podcast, que durou mais de uma hora, ele contava sobre sua intenção de trazer para a discussão os tratamentos com base em plantas consideradas psicodélicas e, por isso, proibidas nos Estados Unidos. Ele queria mostrar que esse é um tipo de tratamento sério, natural e imensamente mais barato, além de claro, mais funcional. Para isso, Nathan está escrevendo um livro, com a ajuda de dois autores, para que sua mensagem seja massificada.

À noite teríamos nossa terceira cerimônia. mas eu estava bem receosa quanto a minha participação. No almoço eu havia comido arroz com feijão e a mistura não havia me feito bem. Ainda assim, decidi arriscar.

Conversaria com Aya e Noya Rao e pediria que pegassem leve comigo. De qualquer forma, avisei Anna, já que meu colchão ficava bem em frente a organização central, onde ficavam os facilitadores e não queria correr o risco de atropelar ninguém no escuro.

Das lições

Capítulo 10

Tomei a bebida e logo em seguida já vomitei boa parte. Quase não segurei por tempo suficiente para apagarem todas as velas. Me deitei e fiquei por ali, meditando. Passou um tempo e não senti nada. Comecei a pensar em tomar uma segunda dose, mas decidi não fazê-lo. Ao invés disso conversei com ela. “Tu que me fizeste te vomitar quase toda, agora vai ter que trabalhar com o que quer que seja que sobrou de ti em mim”, pensei com convicção.

Segui por ali, deitada, meditando. De repente, passei a sentir cada movimento da sala. Uma sensação de atenção total, como se todos os meus sentidos estivessem em estado de alerta. Ouvia cada som, cada barulho, cada batida no chão (era nosso sinal para pedir ajuda aos facilitadores), cada acendida de Mapacho, cada cheiro. Era como um super poder. Mas um super poder exaustivo. Eu estava me sentindo enjoada. E os cheiros do Mapacho e da Água Florida começaram, aos poucos, a ficar insuportáveis.

Do meu lado direito, sentia uma das participantes passando por um momento muito difícil. Eram traumas intensos sendo colocados para fora com a angústia de quem os enterrou durante muito tempo. Eu sabia que Elio estava com ela, mas queria muito lhe dar a mão e dizer que eu estava ali para o que ela precisasse, mas não podia. Ainda deitada, começaram a escorrer lágrimas dos meus olhos. Não havia choro ou desespero, apenas lágrimas vertendo como que sem fim. Pedi à Auahuasca que me mostrasse o que é que estava me causando aquelas lágrima. Não conseguia entender.

De repente a colega do meu lado esquerdo começou a chorar com muita força. Maestra Juanita havia passado por ela e estava na minha frente, mas retornou a cantar em frente à ela. Dizia-lhe “no chores”, “tome água” e cantava, pedindo que a Ayahuasca a deixasse naquele momento. Queria abraçá-la, dizer-lhe que é ok chorar de vez em quando. Mas não podia. Logo os esforços da Maestra tiveram sucesso e o choro se transformou uma risada de alívio. No dia seguinte, na roda de conversa, soube que o trabalho ali havia sido realmente intenso. Impressionante como Juanita sabia que não era um choro normal.

Esse é o exemplo da conexão que os xamãs criam com as medicinas da floresta. Não é uma bebida, mas um espírito, uma força, uma energia. E é com essa energia que a Maestra se comunica. E assim como a desperta, tem o poder de fazê-la dormir. Maestra Juanita tirou como que com a mão os efeitos da Ayahuasca de quem estava à minha esquerda. Foi como um desencarne. Ela soube, através de uma comunicação que nem ela sabe explicar, que naquele momento, minha colega não estava pronta para ver o que a Ayahuasca estava mostrando. E encerrou a conexão. Simples assim.

Eu seguia perguntando o motivo das minhas lágrimas, e elas seguiam rolando pela minha face. Vomitei mais algumas vezes. Me perguntava o que seria que eu estaria vomitando. Com quase 70 horas de jejum, eu sabia que comida não era. Ouvia um dos meninos fazer um som, repetidas vezes, que misturava a soplada com um assovio. Pensava “o que é isso? Será que eles está bem?”. Até que a exaustão me derrubou e domi.

Acordei com os cânticos finais da Maestra e, logo em seguida Anna fez a roda, perguntando como estávamos e se gostaríamos de cantar uma música. Havia chovido muito durante o dia e a noite e desde que eu chegara, Anna me falava de uma música brasileira que ela estava aprendendo. “Ô chuva!”, me dizia ela. Então decidiu me convidar a cantá-la. Eu e meu nenhum talento vocal, abraçamos o desafio.

“Você quem tem medo de chuva
Você que não é nem de papel
E muito menos feito de açúcar
Ou algo parecido com mel
Experimente tomar banho de chuva
E conhecer a energia do céu
A energia dessa água sagrada
Que me abençoa da cabeça aos pés
Ô chuva, eu peço que caia devagar
Só molhe esse povo de alegria
Para nunca mais chorar”.

Cantar havia me ajudado com a náusea, então tomei a água, como indicado e retornei ao meu quarto. Foi aí que a mágica aconteceu.

——–
Deitada na minha cama, comecei a entender melhor as coisas. Compreendi que todos temos esse super poder da sensibilidade. E que eu talvez houvesse desenvolvido um sexto sentido para quando alguém não está bem. As pesoas passaram a dividir suas negatividades comigo. E não era culpa de ninguém. Ao contrário, por muitas vezes eu insistía para que dividissem comigo suas angústias. Era como se as pessoas filtrassem suas dores na minha energia. Eu sempre queria dar a mão ou um abraço, mas o grande problema era que quando era eu que precisava de uma mão ou um abraço, eu não sabia pedir. E nesse momento eu pensei na música que eu havia cantado.

A Ayahuasca havia sido muito gentil comigo e me sentia muito grata por isso. Também sentia uma gratidão imensa pelas forças ao meu lado, que ainda que em momentos tão dramáticos, me ajudaram à dar luz à algumas reflexões. Agradeci à Anna pela música.

No final, uma imagem me veio a cabeça. Era Noya Rao, no formato de uma árvore humana, que me pegava em seus braços/galhos e me colocava para dormir. Deitou-se ao meu lado e ali ficou, me confortando. Me deixei cuidar…

Ainda demorei bastante até pegar no sono. O super sentido seguia aguçado e estava chovendo na floresta. Era um festival de sons. Mas quando consegui, foi um sono pesado e profundo. Havia entendido uma lição importante.

Dois dias de jejum

Capítulo 8

Na manhã do dia seguinte haveria uma roda para compartilhar os aprendizados da noite anterior. Levantei, tomei o banho gelado – não sabia se um dia me acostumaria àquilo – e retornei ao Tambo para refletir um pouco sobre a Cerimônia. Percebi que as baratas haviam sumido do quarto, como se, no primeiro dia, houvessem sido colocadas ali como um teste da minha fé no processo.

A roda de conversa foi bem especial. Eu não havia sido a única a ter visto de perto o poder da Ayahuasca, mas alguns dos participantes resistiram por mais tempo à sua força. Quando contei minha experiência, Anna mencionou que minha conexão com a Noya Rao havia sido formada. Tanto pela luz branca, quanto pelas corujas, que para a tribo Shipibo, são as mensageiras da noite, trazendo sabedoria e proteção. Ela ainda disse que uma das músicas que havia cantado ao final da Cerimônia, falava de corujas, e que ela havia sentido a necessidade de cantá-la.

Era dia de jejum, e não sabia como meu corpo reagiria sem comida depois de tudo o que havia saído de mim na noite anterior. Para a minha surpresa, não tive muita dificuldade. Me sentia alimentada espiritualmente e capaz de passar mais do que apenas um dia na modalidade. Foi um dia de muita escrita. Pela primeira vez, usei o caderno/diário que me ofereceram no primeiro dia. Queria documentar cada sensação, cada aprendizado. Queria mais. Mal podia esperar pela próxima Cerimônia.

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Era meio dia quando decidi dormir um pouco. Acordei três horas depois, pronta para o workshop sobre Noya Rao que teríamos em seguida. Às 18h30, mais uma Cerimônia, dessa vez bem curta e somente com a Planta Mestre. Tomamos um copo cada. E a cada copo, Anna fazia a soplada com Mapacho na própria bebida.

Agredeci à Noya Rao por me permitir essa conexão tão especial. Pedi que me mostrasse o caminho para o meu aprendizado, que me colocasse em frente ao que fosse necessário para minha evolução como pessoa, elevação espiritual e expansão da consciência. Que eu fosse colocada à frente de desafios pessoais e que ela pudesse me acompanhar nesses momentos, me protegendo e garantindo a minha segurança.

Quando voltei ao quarto, havia uma barata dentro do meu mosquiteiro.

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No caminho para o quarto, o céu mais estrelado que já vi. Eram tantas estrelas que elas se misturavam e criavam uma sombra, como desenhos coloridos. Parei no meio do campo e fiquei ali um tempo, olhando para cima e admirando o espetáculo que se colocava para mim. Os mosquitos, é claro, aproveitaram o momento.

Capítulo 9

Decidi por mais um dia de jejum. Havia passado bem no dia anterior e acreditava que conseguiria manter o exercício por mais tempo. Era o primeiro dia em silêncio. Antes de ir para a Yoga, deixei recados no Livro do Silêncio. Ao Elio, pedi que me ajudasse com as baratas. À Anna, que procurasse a letra da música “Me cura de mim”. O título viera na minha cabeça, mas de forma alguma eu conseguia lembrar as palavras.

A Yoga já me pareceu um pouco mais fácil. Na primeira vez havíamos trabalhado o primeiro chakra e, desta, trabalharíamos o segundo e o terceiro. Anna guiou a prática de forma gentil e delicada, consciente do jejum coletivo e da energia baixa. Encerramos, como da primeira vez, com uma posição de rendição completa, chamada shavasana. Deitados no chão, braços e pernas abertas, conectados à terra e abertos para as energias que viriam.

O banho gelado não pareceu incomodar tanto. Li bastante deitada em uma rede na casa principal, de onde saí próximo da hora do almoço. Eu não sabia quantos estavam mantendo o jejum e preferia não ser tentada com cheiro de comida. Enquanto estava por lá, Ramiro, um dos ajudantes do local, passou um produto no meu Tambo para dar um jeito nas baratas. Sabia que era uma mistura com gasolina, o que por si só, já é um pouco assustador considerando que à noite são as velas que iluminam o lugar. Elio me avisou que não retornasse ao Tambo por ao menos 30 minutos.

Quando retornei, o cheiro era fraco. Fui até a varanda fumar um Mapacho como haviam me ensinado na primeira Cerimônia. Depois chegou Anna com um papel. Havia encontrado a música e descrito a letra para mim. Infelizmente, não era a que eu havia solicitado, mas entendi que havia sido esta por algum motivo.

“CUIDAR DE MIM

Minha cabeça bem confusa
Só de ver ela passar
Só de ver ela sem mim
Ainda usa a mesma blusa
Com o broche que eu lhe dei
Combinando com o colar
Eu fico imaginando coisas
Me pego imaginando coisas
Lembranças de um tempo bom
Que a gente se amava em paz
Que pena que vacilei
Agora que não dá mais
Você não me deu perdão
Não tem problema
Espero que esteja bem
Feliz como eu fui feliz
O tempo é quem vai dizer
A vida quem quis assim
Não sou capaz de entender
Como sair de cena
Não dá pra mim
Eu vou voar
Melhor assim.”

Traduzi a música para o inglês, pensando que deveria compartilhar seu significado com Anna. Haveria de ser uma mensagem importante, ainda que pra mim não fizesse sentido algum. Pensei também em um dos participantes e na sua busca. Não sabia se o silêncio me permitiria oferecer-lhe o papel, então pedi à Noya Rao que repassasse a mensagem.

O dia seguiu com mais leitura. Praticamente terminei o livro com os ensinamentos de Don Juan. O jejum não incomodava. Me sentia bem e hidratada, apesar de estar ingerindo bem menos líquidos do que de costume. A vontade de comer existia, mas era mais uma tentação por sal, gorduras e carne do que pela comida que me seria servida. Imaginei que era uma provação da Noya Rao, então desviei a atenção do assunto.

A tarde tive uma sessão de massagem individual com Maestra Juanita. Ainda não sei dizer  se os cem Soles valeram a pena ou não. É uma massagem de cura, então inicia com ela perguntando sobre dores no corpo. Falei da minha dor de anos no ombro, que me fez parar de jogar vôlei, e dos joelhos, que já sofreram com alguns saltos desde que comecei a jogar, ainda na escola.

Foi como uma sessão de tortura. Juanita apertou costas, ombro, axila e joelhos de forma a me fazerem gritar de dor. A cada grito, ela murmurava algo como “aham”. De fato, aos pouco os apertos foram ficando menos e menos doloridos, mas a esta altura, é impossível saber se foi meu corpo aceitando o castigo, ou se estava de fato me curando. Espero ter sido a segunda opção.

A noite, nossa segunda Cerimônia com a Ayahuasca. Maestra Juanita havia pedido que Elio colocasse um pouco de Noya Rao na mistura, potencializando nossa experiência. Eu estava sem comer há 56 horas, desde o almoço do dia da primeira Cerimônia, e além disso, havia botado para fora qualquer resquício de comida na minha experiência com a Ayahuasca. Assim, tinha expectativas de grandes respostas durante a noite.

Dessa vez me preparei melhor. Levei travesseiro, coberta, moletom e meias. Não passaria frio.

Muito prazer, Ayahuasca.

Capítulo 6

As 19 horas e 30 minutos, conforme o combinado, estávamos todos à postos para a Cerimônia. Eu, de calça legging e moletom, os outros com travesseiros, cobertas e vestindo seus pijamas. Era um sinal de que eu não havia entendido bem a mensagem. 

Colchões espalhados em semi círculo. No centro estavam a Maestra, Elio e Anna. Elio então passou o recipiente onde estava a Noya Rao para Maestra Juanita, tirou a tampa e deixou que ela fizesse contato com seus espíritos, pedindo proteção e luz para o dieteros. Maestra cantou e assoviou, com a cabeça praticamente dentro do recipiente. Os assovios, baixos e falhos, são chamados de ícaros.

Com o chá abençoado, chamaram um a um dos participantes, iniciando por Elyse. Ela sentou-se em frente a Elio, que lhe entregou o copo com a bebida. Arrastou-se um metro e parou então em frente à Maestra, que fez a soplada (fuma o Mapacho e solta a fumaça na cabeça, mãos e rosto). Ne sequência veio Tatiana, depois Tracy. Havia chegado, então, a minha vez.

Segui com o comportamento das que vieram antes de mim. Sentei-me em frente a Elio, recebi o copo e, antes de beber, reforcei minhas intenções, pedindo para que a planta me guiasse pelo melhor caminho para o meu aprendizado. Bebi a Noya Rao e, para minha surpresa, achei bem saborosa. Um chá amargo, como gosto. Sentei-me em frente à Maestra e recebi, eu mesma, a soplada. Ao meu lado estavam, na ordem, Adelina, Nathan, John e Otto.

Quando todos haviam bebido a Noya Rao, Elio nos ensinou sobre o Mapacho. Haviam cigarros com essa mistura à disposição, assim como Água de Florida, Palo Santo e velas. Pediu que acendêssemos nossos Mapachos e fizéssemos três sopradas por vez. Primeiro para cima, depois para a direita, então esquerda e, por fim, em nossas mãos abertas em frente ao rosto, para que pudéssemos espalhar a fumaça por nossa cabeça. O gosto era bem forte, então deixei que ele apagasse depois dessa primeira aula. O Mapacho, assim como a Água de Florida, deveriam ser utilizados durante a Cerimônia para casos em que o participante estivesse percebendo a Ayahuasca muito intensa e precisasse pedir proteção.

Iniciamos então a Cerimônia. Mas antes, acordamos todos que o dia seguinte seria de jejum.

—————

Eu estava animada com o que a Ayahuasca poderia me apresentar. A tarde havia conversado com Nathan, que me contou um pouco da sua experiência com a bebida medicinal. Perguntou se eu estava nervosa. “Na verdade não. Não li muito a respeito, então não sei exatamente o que esperar. Estou é curiosa com o que ela pode me mostrar”, contei.

Na mesma ordem da Noya Rao, Elyse foi a primeira. Sentou-sem frente a Elio, que lhe ofereceu a bebida. Tomou, fez um som de desagrado e retornou ao seu lugar. Enquanto Tatiana se deslocava, Elyse enxaguava a boca com água e cuspia no balde do vômito diversas vezes em sequência. Elio havia dito que isso poderia acontecer. Como o sabor da bebida não ela muito agradável, poderíamos fazer esse enxágue, mas sem beber a água. 

Fiquei um pouco apreensiva, mas Tatiana segurou a onda e voltou ao seu lugar em silêncio. Da mesma forma, Tracy. Era a minha vez.

Capítulo 7

Passei o dia tentando compreender o que havia se passado na noite anterior. Havia sido uma experiência poderosa, mas ainda confusa quanto às mensagens que eu precisaria entender. Me sentia bem, porém um pouco cansada. Meus pensamentos estavam desordenados e eu tentava, com bastante dificuldade, elaborar um pouco do que eu estava sentindo.

A Ayahuasca havia sido servida em uma copo pequeno, feito com madeira de Noya Rao. Era uma dose que se podia beber de uma só vez, o que facilitou um pouco as coisas. Era espessa, arenosa e, extremamente doce. Sentia cheiro de melaço de cana, apesar de saber que não havia melaço na fórmula. Voltei ao meu lugar, deitei e pensei: “OK, não é tão ruim assim”. No que pareceu um minuto depois, estava com o pote de vômito em meus braços e colocava para fora muito do que havia dentro de mim. Estranho, mas foi uma sensação libertadora. 

Apesar de ter absorvido bem o discurso sobre render-se e deixar o universo me mostrar o melhor caminho, sempre tive um comportamento bem controlador. Como disse: na prática, muita teoria. A Ayahuasca me pegou no contrapé. Chegou dizendo “aqui quem manda sou eu”. E assim foi por toda a noite. Era uma apresentação, estávamos apenas nos conhecendo. Mas ela deixara claro, desde o início, sua força e poder sobre mim.

Ela me fazia sentir muito sono, mas ao mesmo tempo, não me permitia dormir. Foram horas de senta, levanta, deita, vira, senta de novo… Uma inquietação física, reflexo da inquietação da mente. Aos poucos, algumas visões apareceram. Primeiro era uma luz. Apenas um ambiente claro, uma luz branca, fluorescente. Depois, corujas. De diversos tipos e cores. Esses momentos vieram em sequência, ao que me pareceu, mas pararam por aí.

Enquanto isso, Maestra Juanita rastejava pela sala, parando em frente a cada um e cantando hinos e ícaros Shipibo. Era incrível observar o poder daquele ser tão pequeno, com idade para ser minha avó, cantando por quase uma hora em frente a cada um de nós, num total de quase seis horas ininterruptas.

Eu queria dormir, mas ao mesmo tempo, sentia a presença da Maestra se aproximando. Queria aproveitar cada segundo daquela magia, mas tinha dificuldade de lutar contra o sono. Sabia que poderia estar deitada quando cantasse para mim, mas ao mesmo tempo, queria honrar sua presença e admirar sua força de perto. Até que ela chegou.

Meu corpo, involuntariamente, acompanhava com movimentos leves as canções entoadas por Juanita. Ela, ali sentada enfrente a mim, cantava como que possuída por um espírito superior. Movimentava os braços, horas na minha direção, horas para o céu. A escuridão da mata era forte, mas os movimentos eram vistos e sentidos. Foi um momento de muita humildade frente a tanto vigor e tanta sabedoria. Meu corpo ali, dançando conforme a música. Minha cabeça tentando lutar contra a submissão e se manter racional o tempo todo.

De repente Maestra Juanita parou de cantar. Levantou o braço, como que pedindo que eu baixasse a cabeça. O fiz, encostando a testa no colchão. Ela então tocou no alto da minha cabeça, botou na boca um pouco de Água Florida e como se a estivesse soprando, a derramou sobre mim como em forma de vapor. Fez isso algumas vezes antes de rastejar para Adelina.

Quando pensei que havia chegado a hora de dormir, a Ayahuasca me mostrou de novo quem estava no controle. Assim que deitei, ela me trouxe de volta para a posição sentada e fez com que eu vomitasse ainda mais, o que agora imaginei ter sido absolutamente tudo o que havia em mim. Aí sim, deitei e dormi. 

Quando acordei, sentia frio. Maestra Juanita estava de volta no centro do semi círculo e entoava os cânticos finais, encerrando a Cerimônia. Quando terminou, Anna perguntou a cada um como estava e se desejava cantar uma música. Todos passaram a vez, até que Adelina começou a cantar lindamente. Foi como um transe coletivo. Uma meditação orgânica, natural. Maestra pediu que ela cantasse outra e ela assim o fez. Elio e Anna também cantaram algumas músicas antes de encerrarem a Cerimônia e permitirem que tomássemos água.

Sentia frio, então retornei para o meu Tambo. Eram quase três da manhã, dormi então por mais cinco horas.

Noya Rao, muito prazer!

Capítulo 4

O segundo dia foi bastante intenso. Começando pela aula de yoga. Achei que tiraria de letra, afinal, anos de pilates deveriam me ajudar com relação a flexibilidade. Ledo engano. As posições que Anna demonstrava como para iniciantes exigiam força, equilíbrio e concentração. Mas no fim deu certo. Valeu ter carregado um tapete para esse fim.

Depois do café da manhã iniciaram as consultas individuais com Maestra Juanita. A ideia era passar para ela quais eram as nossas intenções com o retiro e que respostas estávamos buscando. A dinâmica seria um pouco caótica. O participante falaria em inglês, o Elio traduziria para o espanhol e o sobrinho da Maestra traduziria para Shipibo. Sendo assim, decidi me arriscar no espanhol e encurtar um pouco as coisas. Deu certo!

A Maestra ouviu com atenção. Ela mesma captava um pouco do que eu dizia, pois fala um pouco de espanhol (provavelmente mais do que eu). Aguardou que eu terminasse para falar, mas a mensagem veio em Shipibo. Eu poderia ficar tranquila. A dieta liderada pelo espírito da Noya Rao, a Ayahuasca e toda a experiência, me fariam sair dali uma pessoa diferente. Me assegurou de que me ajudaria no processo e que eu enxergaria novos caminhos possíveis ao final do percurso.

Me incomodou um pouco o fato de logo aparecerem coisas para comprar. Um perfume feito por ela mesma, que traz alegria e amor em abundância e cachimbos feitos da madeira da própria Noya Rao para fumar o Mapacho, uma espécie de tabaco selvagem, distribuído livremente no Centro e muito incentivado durante as cerimônias. Me peguei duvidando da legitimidade da recomendação, mas logo me dei por conta da realidade de índios em qualquer lugar do mundo, isolados e oprimidos, tentando sobreviver da sua arte, cultura e sabedoria.

A partir dali, encontrei uma rede na casa principal e por lá fiquei, com minha leitura, até o almoço. Esse dia não teria jantar, já que à noite teríamos a primeira Cerimônia de Ayahuasca, então teve frango como prato principal. Um alento, apesar da falta de tempero. Mal sabia eu que o frango duraria pouco tempo dentro de mim.

Aquele banho frio para me preparar para a Cerimônia e, às 17 horas estava eu lá, pronta para a reunião preparatória.

Elio e Anna explicaram como funcionaria tudo em detalhes. Iniciaríamos com a Maestra abençoando a Noya Rao e em seguida convidando cada um de nós para tomar um copo de uma bebida preparada com a planta. Depois de um tempo, iniciaríamos a roda com a Ayahuasca, um de cada vez, na mesma ordem inicial. Nos deram recomendações para que cuidássemos com sons e luzes durante a Cerimônia. A Ayahuasca nos deixaria muito sensíveis e idas ao banheiro deveriam ser silenciosas e com a lanterna por debaixo da blusa. A Cerimônia duraria de quatro à seis horas e quando chegasse ao fim, os facilitadores avisariam para que tomássemos água. Também recomendaram trazer um casaco quente e usar roupas confortáveis.

Os participantes foram dispensados para que pudessem se organizar para a Cerimônia de logo mais, mas Elio pediu que Tracy e eu ficássemos por lá, as duas novatas, para que ele explicasse sobre os efeitos da medicina. Primeiramente, pediu que nos despíssemos de qualquer expectativa. “Em algumas pessoas a Ayahuasca pode demorar dias para se manifestar. Às vezes meses. Confiem no processo e não estranhem se nada acontecer”, falou. Também falou sobre o vômito que a bebida provoca, já que era também conhecida como La Purga. Para isso, havia um pote, uma espécie de pinico, ao lado de cada colchão. Também comentou sobre a possibilidade de uma diarréia. E alertou: “Pode parecer que sejam gases, mas não é. Corram para o banheiro”.

Capítulo 5

Eu nunca ouvira fala sobre a Master Plant Dieta, ou Dieta da Planta Mestre. Segundo os materiais que recebi da organização do retiro, a dieta possui papel fundamental na construção da fundação da Ayahuasca como medicina.

Em linhas gerais, a Dieta da Planta Mestre é um contrato feito entre o xamã e o espírito de determinada planta. Os termos desse contrato seriam acertados antes do início da dieta. Foi assim com Maestra Juanita e Noya Rao.

Noya Rao é uma árvore de tronco largo e alto. Dizem ser impossível encostarmos as mãos ao abraça-la, tamanha sua força e grandeza. As folhas são pequenas e luminescentes. Segundo a história, ela desapareceu durante o período Colonial, reaparecendo mais tarde. Hoje existem apenas quatro no mundo, mas espera-se que outras comecem a despertar conforme mais e mais dieteros (quem faz a Dieta da Planta Mestre) se conectem à ela. Suas folhas possuem substâncias luminescentes que as fazem brilhar no escuro. Imaginei a beleza dessa árvore, grande, robusta, protetora, com suas folhas brilhantes na copa, mas também no chão, formando um tapete de luz onde ela própria descansa. Me senti honrada e extremamente grata por ter a oportunidade de ter Noya Rao como guia espiritual.

Noya significa voador e Rao significa Deus. Reza a lenda Shipibo que, quando próxima à um rio, a árvore faz os peixes voarem. Também existem histórias de tribos inteiras que aprenderam a voar depois de se conectarem à Noya Rao.

Conhecida como El Arbor de la Verdad, ou a Árvore da Verdade, Noya Rao traz à luz sentimentos e comportamentos que tentamos esconder. Assim, ela permite que descartemos o que nos faz mal e enfrentemos nossos medos e frustrações. Enquanto outras Plantas Mestres trabalham com dualidade, a Noya Rao trabalha mostrando um único caminho, o caminho da verdade.

Entre os benefícios de ter a Noya Rao como guia espiritual, está a atração do amor, seja ele romântico, em busca de nossa alma gêmea, seja nas diversas relações das quais somos parte. Inclusive, recomenda-se escrever cartas de amor à árvore como forma de manter a conexão, mesmo após o período da dieta. Elio também sugeriu que perguntássemos nós mesmo à Noya Rao sobre formas de mantermos a conexão espiritual. Indica-se que se cante, reze, fume Mapacho, medite e faça oferendas, mas cada caso é um caso e a planta pode pedir que ao invés de cantar, dancemos para ela, por exemplo.

Muito das restrições que foram colocadas no período pré retiro, assim como as restrições impostas no Centro, são para facilitar a absorção das propriedades da planta por nosso corpo. “Quando fazemos o sacrifício de jejuar ou comer comida sem sal, sem temperos, sem alho ou cebola, quando abrimos mão da carne vermelha ou de porco, quando praticamos abstinência sexual, mostramos à Noya Rao que estamos comprometidos com seus ensinamentos. Nosso corpo está limpo para recebê-la”, explicou Anna.

Ganhamos, cada um, uma folha da árvore. Guardo comigo até hoje.

Reconhecendo território

<English version below>

Capítulo 3

Logo na chegada estava Elio, o fundador, acompanhado por Kira e Lisa, duas cachorras vira-latas que moravam por lá. Elio nos recebeu com um abraço carinhoso e nos mostrou as instalações. Começamos pelos Tambos, pequenas acomodações individuais. Ele ia mostrando quem ficaria onde e, para minha surpresa, fiquei com o maior. Tinha dois andares e duas camas, uma em cada um. Cada cama com um mosquiteiro. Era bastante aberto, coberto apenas por telas de proteção contra insetos.

Não era nada mal, mas era longe de ser um local onde eu me sentisse segura. Especialmente pela falta de iluminação. Não tinha como ter certeza de quem eram meus companheiros de quarto. “Tudo bem”, pensei, “tenho velas e lanterna”.

Fui conhecer o resto das instalações. A casa central era o local onde faríamos as refeições. Próximo à ela, havia um banheiro com eletricidade, que poderia ser usado à noite. Uma outra construção, grande e redonda ficava à sua direita. Era ali, na chamada Maloca, onde aconteceriam as Cerimônias, reuniões e workshops. O primeiro evento tinha hora marcada. Seria nesse mesmo dia, às 16 horas.

Voltei ao meu Tambo e desfiz a mochila. Quem já fez mochilão sabe o inferno que é viajar com o armário nas costas. É impossível manter qualquer organização. Estendi tudo em cima da cama, separei os produtos de higiene e decidi que dormiria na cama de cima. O mosquiteiro era maior, achei que dormiria melhor.

Na casa central estavam servindo o almoço. Uma boa variedade, mas em pouca quantidade e nada de tempero (era parte da dieta). Ao menos o abacaxi estava bem doce. Fiquei um pouco ali e logo estava na hora da primeira reunião. Era hora de entender a programação, conhecer a dinâmica e dividir minhas intenções com os outros participantes. Sentamos em círculo, bem no centro da Maloca. Foi Anna quem iniciou a fala. Ela explicou que antes de entendermos sobre o retiro, era importante que conhecêssemos à nós mesmos como grupo. Assim, pegou um novelo de lã, segurou uma ponta e passou o novelo para Elio que iniciou sua apresentação.

Elio era um italiano, formado em ciências sociais, que havia corrido o mundo para aprender sobre plantas medicinais e trabalhar com xamãs de diversas culturas. Havia fundado o Aya Healing Retreats e estava baseado em Pucallpa. Estava feliz com a recém conquistada permissão de residência concedida pelo País. Quando parou de falar, pronunciou “aho”, segurou a ponta da linha e jogou o novelo para mim.

Me apresentei. Falei sobre minha intenção de ouvir minha própria voz e aprender a me colocar como prioridade da minha vida. Falei que precisava mudar meu comportamento e que não sabia bem como fazer isso. Segurei a ponta da linha e joguei o novelo para Adelina.

Adelina era uma americana da Flórida. Experiente em aventuras como essa. Queria seguir seu caminho de cura, encontrar tranquilidade e novas experiências. Ela jogou o novelo para Nathan, outro americano, esse da Califórnia. Veterano do exército, havia passado boa parte da suas juventude em países do Oriente Médio. Depois de diversas tentativas de tratamentos e terapias convencionais, encontrou seu caminho de cura através da Ayahuasca. Já havia participado de doze Cerimônias.

Nathan jogou o novelo para Tracy, outra americana. Tracy parecia bem jovem, falou sobre ainda estar no processo de compreender suas intenções. Sabia que queria encontrar novos caminhos para sua vida, novos entendimentos. Compreendia que ali conseguiria descobrir mais sobre si mesma. Tracy, assim como eu, nunca havia experimentado Ayahuasca.

Tracy jogou o novelo para John, um inglês que mora já há alguns anos nos Estados Unidos. John vinha em busca de respostas. Assim como eu, estava tentando encontrar uma alternativa para sua vida, algo que fizesse mais sentido. De John para Tatiana, uma canadense da British Columbia. Uma jovem determinada a conhecer locais sagrados e a desbravar lugares fora e dentro de si mesma. Tatiana contou sobre seu desejo de um dia ser uma facilitadora e que, para isso, precisa ainda aprender muitas coisas sobre as plantas medicinais e sobre si mesma.

Ela passou a palavra para Otto, um australiano que já estava na estrada há alguns anos em busca do seu lugar no mundo. Otto falou sobre sua intenção e passou para Elyse, também australiana, mãe do Felix, que ainda não completara um ano. Elyse mora no Peru há quase dois anos. Disse ter encontrado no País o seu lugar. Fazia uma caminhada para seu próprio desenvolvimento. Entendia que ainda precisava evoluir. Por fim falou Anna, a facilitadora que havia iniciado a roda. Anna era americana, mas estava como residente no Peru. Buscou terapias e tratamentos indígenas e espirituais durante sua vida, passando por México, Índia e Peru. Nos acompanharia durante todo o processo.

Cada um prendia no dedo um pedaço da linha vermelha. Em grupo, formamos uma teia de energia, compreendendo que a partir daquele momento, a energia de um influenciaria na do outro. Foi como estabelecer um vínculo imediato. Era a criação de uma família que, pelos próximos dias, se conheceria pela coexistência em silêncio.

Elio então ditou as regras que passariam a valer a partir daquele momento, com exceção do silêncio, que iniciaria no quarto dia:

  1. O silêncio era obrigatório. A comunicação se daria por mensagens em um Livro do Silêncio, apenas entre participantes e facilitadores. Claro, os facilitadores estariam à disposição caso alguém precisasse conversar e havia um banco, onde a Maestra Juanita, nossa xamã, ficaria na maior parte do dia, em que se poderia conversar.
  2. Não seria permitido o uso de aparelhos eletrônicos. A não ser que fosse para escrever sobre a experiência, usar como alarme ou ouvir músicas espirituais e mantras.
  3. Não seria permitido o uso de aparelhos celulares para contato com outras pessoas. Em caso de urgência, deveria ser solicitado a um dos facilitadores.
  4. Leitura era permitida, desde que livros de cunho espiritual. Ainda assim, sugeria-se o foco no entendimento profundo de si mesmo. Havia pego um de Carlos Castañeda com o título “Os ensinamentos de Don Juan” da uma mini biblioteca que encontrei na casa principal.
  5. Abstinência sexual era obrigatória. Ninguém verificaria, mas era o ideal para manutenção do ambiente e para a apreciação da solidão.
  6. Recomendava-se o jejum. Conforme as recomendações da Maestra e as possibilidades de cada um.
  7. Era solicitado uma atitude de solidão. Isso significava não olhar, cumprimentar, sorrir ou se comunicar de qualquer forma com outro participante.
  8. Não era recomendado que olhássemos fotografias, seja da família, de amigos ou de comida.
  9. Manter um diário era altamente recomendado. Segundo os facilitadores, a experiência com a Ayahuasca pode não ser muito clara. Manter anotações das visões poderiam auxiliar o processo de entendimento posterior.

————

O dia seguinte iniciaria às 7h30 com uma aula de Yoga oferecida pela Anna. A participação não era obrigatória, mas recomendada. Depois do café da manhã, haveriam as consultas individuais com a Maestra Juana. Neste mesmo dia, após o jantar, Anna daria uma aula de Qi gong (tipo yoga), com movimentos iniciantes e uma meditação final para nos preparar para a primeira noite de sono.

Na ida para o quarto, a maior lua que já vi. Amarela, linda, cheia. Seu reflexo na água do lago. Ela parecia responder minhas dúvidas, me dizendo: “É isso mesmo. Confie no processo”.

Voltei para o quarto, na escuridão da floresta, e nada poderia me preparar para o que eu vi quando cheguei no Tambo. Já havia me encontrado com rãs, lagartixas e aranhas, mas até aí tudo bem. Haviam baratas por todo o segundo andar! Caminhavam por minhas roupas e se escondiam atrás da minha mochila. Entre pânico e compreensão de que eu mesma precisaria solucionar aquilo, voltei ao andar de baixo, baixei o mosquiteiro e dormi por ali mesmo. Deixaria a luta com as baratas para a manhã do dia seguinte, quando houvesse luz natural no cômodo.

Dormi relativamente bem. Era cedo e os sons da floresta ajudaram a esquecer das inimigas do andar de cima. Acordei às três da manhã e encarei a escuridão para a habitual ida ao banheiro. Retornei e acordei em tempo para a aula de Yoga.

aya

Chapter 3

Upon arrival there was Elio, the founder, accompanied by Kira and Lisa, two stray dogs that lived there. Elio received us with a warm hug and showed us the facilities. We started with Tambos, small individual accommodations. He was showing who would stay where and, to my surprise, I got the biggest one. It had two floors and two beds, one on each. Each bed with a mosquito net. It was quite open, covered only by insect protection screens.

It wasn’t bad, but I was feeling far from safe. Especially because of the lack of lighting. I couldn’t be sure who my roommates were. “Okay,” I thought, “I have candles and a flashlight.”

I went to see the rest of the facilities. The central house was where we would eat. Next to it, there was a bathroom with electricity, which could be used at night. On the right, another large, round building. It was there, in the so-called Maloca, where Ceremonies, meetings, and workshops would take place. The first event was scheduled for 4 pm that same day.

I went back to my Tambo and undid the backpack. Anyone who has backpacked knows the hell it is to travel with the closet on our backs. It is impossible to maintain any organization. I spreaded everything on the bed, separated the hygiene products, and decided that I would sleep in the top bed. The mosquito net was bigger, I thought I would sleep better.

In the central house they were serving lunch. A good variety, but in little quantity and no seasoning (it was part of the dieta). At least the pineapple was very sweet. I stayed there for a while and it was time for the first meeting. We talked about the program for the retreat, learned about the dynamics, and shared our intentions with the other participants. We sat in a circle, right in the center of the Maloca. Anna started the speech. She explained that before we understood about the retreat, it was important that we get to know ourselves as a group. So, she took a ball of wool, held a point, and passed the ball to Elio who started his presentation.

Elio was Italian, graduated in social sciences, and had traveled the world to learn about plant medicines and to work with shamans from different cultures. He had founded Aya Healing Retreats and was based in Pucallpa. He was happy with the newly obtained residence permit granted by Peru. When he stopped speaking, he said “aho”, held the end of the line and threw the ball at me.

I introduced myself. I talked about my intention to hear my own voice and learn to make myself a priority in my life. I said I had to change my behavior, but didn’t know how to do it. I held the end of the line and threw the ball at Adelina.

Adelina was a North American from Florida. Experienced in adventures like this. She wanted to follow her healing path, find tranquility and new experiences. She threw the ball to Nathan, another North American, this one from California. A veteran of the army, he had spent much of his youth in Middle Eastern countries. After several attempts at conventional treatments and therapies, he found his healing path through Ayahuasca. He had already participated in many Ceremonies.

Nathan tossed the ball to Tracy, another North American. Tracy looked very young, talked about still being in the process of understanding her intentions. She knew that she wanted to find new paths for his life, new understandings. She understood that there she would be able to discover more about herself. Tracy, like me, had never tried Ayahuasca.

Tracy threw the ball to John, an English man who was now a United States citizen. John was looking for answers. Like me, he was trying to find an alternative to his life, something that made more sense. From John to Tatiana, a Canadian from British Columbia. A young woman determined to visit sacred places and to explore places outside and inside herself. Tatiana told usnabout her desire to be a facilitator one day and that, for that, she still needed to learn many things about plant medicines and about herself.

She gave the ball to Otto, an Australian who had been on the road for a few years in search of his place in the world. Otto talked about his intention and passed it on to Elyse, also an Australian, Felix’s mother, who was not yet one year old. Elyse has lived in Peru for almost two years. She said she found her place in the country. She was on her own path of development, and though there were still some evolving to be done. Finally, Anna, the facilitator who started the circle, spoke. Anna was a North American, residing in Peru. She sought indigenous and spiritual therapies and treatments during her life, passing through Mexico, India, and Peru. She would accompany us throughout the process.

Each held a piece of the red thread on his finger. As a group, we formed a web of energy, understanding that from that moment on, the energy of one would influence that of the other. It was like establishing an immediate bond. It was the creation of a family that, for the next few days, would know each other by a silent coexistence.

Elio then dictated the rules that would apply from that moment on, except for the silence, which would start on the fourth day:

  1. The silence was mandatory. Communication would take place through messages in a Book of Silence, only between participants and facilitators. Of course, the facilitators would be on hand if someone needed to talk and there would be a bench, where Maestra Juanita, our shaman, would stay for most of the day, where you could talk as well.
  2. The use of electronic devices would not be allowed. Unless it was used to write about the experience, as an alarm, or to listen to spiritual songs and mantras.
  3. The use of cell phones would not be allowed to contact other people. In case of urgency, one of the facilitators should be informed.
  4. Reading was allowed, as long as it was books of a spiritual nature. Still, it was suggested to focus on a deep understanding of ourselves. I had taken one book by Carlos Castañeda with the title “The teachings of Don Juan” from a mini library I found in the main house.
  5. Sexual abstinence was mandatory. Nobody would check, but it was ideal for maintaining the environment and for enjoying the solitude.
  6. Fasting was recommended. According to Maestra’s recommendations and the possibilities of each one.
  7. An attitude of solitude was requested. This meant not looking, greeting, smiling, or communicating in any way with another participant.
  8. It was not recommended that we look at photographs, whether of family, friends, or food.
  9. Keeping a diary was highly recommended. According to the facilitators, the experience with Ayahuasca may not be very clear. Keeping notes of the visions could help the process of further understanding.
    ————

The next day would start at 7:30 am with a Yoga class offered by Anna. Participation was not mandatory but recommended. After breakfast, there would be individual consultations with Maestra Juana. That same day, after dinner, Anna would teach a Qi gong class (like yoga), with beginner movements and a final meditation to prepare us for the first night’s sleep.

On the way to the room, the biggest moon I’ve ever seen. Yellow, beautiful, full. Its reflection in the lake water was astonishing. It seemed to answer my questions, telling me, “That’s right. Trust the process”.

I went back to the room, in the darkness of the forest, and nothing could prepare me for what I saw when I arrived at my Tambo. I had already met frogs, geckos, and spiders, but so far so good. There were cockroaches all over the second floor! They walked by my clothes and hid behind my backpack. Between panic and the realization that I would need to solve this myself, I went back downstairs, lowered the mosquito net, and slept right there. I would leave the fight with the cockroaches for the next day, when there would be natural light in the room.

I slept relatively well. It was early and the sounds of the forest helped to forget the enemies from upstairs. I woke up at three in the morning and faced the darkness for the usual trip to the bathroom. I returned and woke up in time for Yoga class.

O início

<English version below>

Capítulo 1
Quando entendi que precisava de cura, fiz o que toda pessoa normal faz: abri o Google e entrei pelo buraco negro e infinito da internet. Eu buscava por um retiro. Um espaço e um tempo para que eu pudesse refletir, meditar e cuidar de mim.

Sempre fui uma pessoa bem espiritualizada, mas nunca religiosa. Na verdade, religiões normalmente me afastavam da fé. Então busquei algo que pudesse me trazer uma expansão da consciência, ao mesmo tempo em que respeitasse minhas crenças, ou a falta delas. Queria um lugar neutro, onde eu pudesse ser eu mesma, sem negociações ou julgamentos.

Eu não sabia se existia um lugar assim. Nem exatamente o que é que eu estava procurando. Ou precisando. Mas nosso amigo Google me fez uma sugestão que me agradou à primeira vista. Um retiro de silêncio no meio da floresta amazônica peruana. Doze dias. Cinco rituais de Ayahuasca. Um plano alimentar com base em plantas medicinais. Uma xamã da tribo Shipibo. Meditação. Paz.

Era o que eu queria. Mas se era o que eu de fato precisava, eu só saberia mais tarde.

A maioria das pessoas estranha quando queremos curar a nós mesmos. Por que tantos dias? Não acha que são muitos os rituais de Ayahuasca? Vai pagar para fazer jejum? Por que não procura algo parecido no Brasil? Vai mandar notícias, né? Será que tu volta? Não tem medo de quem tu vais ser quando voltar de lá?

Os questionamentos me fizeram refletir ainda mais sobre minha intenção e, claro, fazer uma verificação profunda com relação a equipe do retiro. Elio, o fundador se mostrou muito prestativo desde o início. Respondera a todas as minhas dúvidas e mensagens no Whats App.

Não haver nenhum brasileiros entre os ex-participantes me intrigava. Mesmo assim, fui.

Nunca fui muito de planejar. Especialmente em viagem. Vou a la loca e vejo sempre no que dá. Logo, não me preocupei muito em ler os diversos arquivos com instruções que Elio havia me enviado. Por sorte, me atentei à tempo para o fato de que poderia haver uma preparação para o período na floresta. E assim foi.

As restrições iniciavam duas semanas antes do retiro, começando por não comer carne de porco, não praticar sexo ou masturbação, não consumir bebida alcóolica, não consumir nenhum tipo de droga (nem mesmo maconha, dizia) e não fumar. Me pareceu simples e consegui manter a dieta com êxito. Na semana seguinte a coisa era mais rigorosa. Adicionando as restrições da semana anterior estavam não comer carne vermelha, não consumir bebidas fermentadas (o que incluía meu sagrado kefir), não consumir gorduras (eu vinha de oito quilos a menos conquistados com a dieta cetogênica), nada com açúcar refinado, pouco ou nada de sal e pimenta e o pior de tudo, nada de café ou estimulantes.

Eu podia ficar sem álcool e sem sexo, mas sem café eu me transformaria em um risco sério para a sociedade. Consegui sobreviver a semana, mas os primeiros dias me fizeram passar por uma crise de abstinência que incluía dores de cabeça fortíssimas. Ainda assim, sobrevivi. E o fiz sem matar ninguém.

Capítulo 2
Era sábado. Eu daria uma aula naquela manhã. Uma aula sobre propósito, de vida e para os negócios. Decidi abrir meu coração e contar o que se passava comigo. Eu não sabia se era depressão ou burnout. Pouco me importava. A mensagem que eu queria deixar era de que eu estava indo em busca de cura. E aquele momento era o início do processo.

Fui da aula direto para o aeroporto. Voaria de Porto Alegre à São Paulo, onde ficaria por algumas horas. Depois um vôo para Lima e, de lá, para Pucallpa, cidade do nordeste peruano, bem próxima do Sui Sui Center, para onde eu estava indo. Eu, minha mochila, e algumas ideias na cabeça.

A chegada em Pucallpa foi melhor do que o esperado. Havia reservado um hotel de preço razoavelmente baixo para os padrões brasileiros, mas de alto nível para os padrões da cidade. Já no aeroporto, havia um carro me aguardando para me levar ao hotel. No dia seguinte eu pegaria um dos muito mototáxis da cidade para encontrar com o grupo do retiro.

Mototáxis são como charretes puxadas por uma moto. Ou como um tuctuc tailandês. Achei divertido o passeio, mas a falta de qualquer regra de trânsito para esse tipo de veículo me deixou um pouco apreensiva durante o caminho.

Cheguei no ponto de encontro e facilmente identifiquei um participante. Cara de gringo, grande mochila, só poderia ser. E era. Aos poucos chegaram os demais. O grupo era composto por oito pessoas e um bebê. Dois australianos, três americanos, um inglês, uma canadense e eu. Anna, a facilitadora que nos buscou, explicou um pouco do que seria o trajeto até o Centro, alguns quilômetros de estrada de chão por meio de uma região bem rural, e vinte minutos de canoa. Enquanto ela explicava, tentávamos nos conhecer. Logo soube que eu era uma das duas novatas nesse tipo de processo de cura através de plantas medicinais.

Nos dividimos em dois carros e iniciamos o trajeto. Era uma pilha imensa de mochilas que passou de uma caminhonete para a canoa. O último trajeto era encantador. Navegar pelos lagos, em meio a floresta Amazônica parecia cena de filme. Toquei a água, sentindo a energia que me alimentaria pelos próximos doze dias. Era morna, convidativa.

Logo avistamos o Sui Sui Center. Uma grande casa central, algumas acomodações menores e, ao fundo, mata fechada. Seria esse o meu lugar ou, por mais uma vez, eu estaria de passagem? Minha vida urbana e conectada me fazia rejeitar a ideia de que alguém poderia vivem em um lugar assim. Que fosse então uma passagem transformadora.
mochilabarquinho

Chapter 1
When I realized I needed to cure myself, I did what every normal person does: I opened Google and entered the infinite black hole of the internet. I was looking for a retreat. Space and time for me to reflect, meditate, and take care of myself.

I have always been a very spiritual person, but never a religious one. In fact, religions usually kept me away from the faith. So I looked for something that could bring me an expansion of consciousness while respecting my beliefs, or the lack of them. I wanted a neutral place, where I could be myself, without negotiations or judgments.

I didn’t know if there was such a place. Nor exactly what I was looking for. Or what I needed. But our friend Google made me a suggestion that pleased me at first sight. A silence retreat in the middle of the Peruvian Amazon forest. Twelve days. Five Ayahuasca rituals. A master plant dieta. A shipibo shaman. Meditation. Peace.

It was what I wanted. But if it was what I really needed, I wouldn’t know until later.

Most people find it strange when we want to heal ourselves. Why so many days? Don’t you think there are many Ayahuasca rituals? Will you pay to fast? Why not look for something similar in Brazil? You will send news, right? Will you come back? Aren’t you afraid of who you will be when you get back from there?

The questions made me reflect even more on my intention and, of course, make a double check regarding the retreat’s team. Elio, the founder was very helpful from the start. Answered all my questions and messages on Whats App.

Not having any Brazilians among the former participants intrigued me. Even so, I went.

I’ve never been much of a planner. Especially when traveling. I just go and see what happens. So, I didn’t bother much to read the various files with instructions that Elio had sent me. Luckily, I noticed them in time for the preparation.

The restrictions started two weeks before the retreat, starting with no pork, no sex nor masturbation, no alcohol, no drugs (not even marijuana, he said), and no smoking. It seemed simple and I managed to maintain the dieta successfully. In the following week it was more rigorous. Adding to the restrictions of the previous week were no red meat, no fermented beverages (which included my sacred kefir), no fats (I had lost eight kilos with a ketogenic diet), no refined sugar, little or no salt and pepper and, worst of all, no coffee or stimulants.

I could live without alcohol and sex, but without coffee, I would become a serious risk to society. I managed to survive the week, but the first few days put me through an abstinence crisis that included severe headaches. Still, I survived. And I did it without killing anyone.

Chapter 2
It was Saturday. I would teach a class that morning. A lesson on life and business purpose. I decided to open my heart and tell what was going on with me. I didn’t know if it was depression or burnout. I didn’t care. The message I wanted to leave was that I was looking for a cure. And that moment was the beginning of the process.

I went from class straight to the airport. I would fly from Porto Alegre to São Paulo, where I would stay for a few hours. Then a flight to Lima and from there to Pucallpa, a city in northeastern Peru, very close to the Sui Sui Center, my destination. Me, my backpack, and some ideas in my head.

The arrival at Pucallpa was better than expected. I had booked a reasonably low-priced hotel by Brazilian standards, but it turned out to be a high end one by city standards. At the airport, a car was waiting for me to take me to the hotel. The next day I would take one of the many moto-taxis in the city to meet with the group from the retreat.

Moto-taxis are like buggies pulled by a motorcycle. Or like a Thai tuctuc. The ride was fun, but the lack of traffic rules for this type of vehicle made me a little apprehensive along the way.

I arrived at the meeting point and easily identified a participant. Gringo guy, big backpack, there was no doubt he was one of the participants. And he was. Gradually the others arrived. The group consisted of eight people and a baby. Two Australians, three Americans, one English/American, one Canadian, and me.

Anna, the facilitator who came to guide us to the Center, explained a little of what the journey would be like: a few kilometers of dirt road through a very rural region, and twenty minutes by canoe. While she explained, we tried to get to know each other. I soon learned that I was one of the two newbies in this type of healing process using plant medicines.

We split into two cars. It was a huge pile of backpacks that went from a truck to a canoe. The last ride was charming. Navigating the lakes, in the middle of the Amazon rainforest, looked like a movie scene. I touched the water, feeling the energy that would feed me for the next twelve days. It was warm, inviting.

Soon we saw the Sui Sui Center. A large central house, some smaller accommodations, and, in the background, the woods. Would this be my place or, once again, would I be passing through? My urban and connected life made me reject the idea that someone could live in such a place. Let it then be a transforming passage.

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