Category Archives: Minhas Histórias

Espanha: um novo começo

Chegar ao fim do mestrado era, teoricamente, o momento de decidir: voltar ou ficar. Mas a verdade é que, quando a gente muda por dentro, não existe mais “voltar”. Existe seguir. De outro jeito, com outro olhar, com outro corpo.

Eu poderia ter encerrado tudo ali e voltado para Lisboa. Seria fácil. Seria emocionalmente confortável. Lisboa tem cheiro de casa, gosto de Brasil, amigos que viraram raiz. Tudo em Lisboa me chama pelo nome.

Mas liberdade também é papel, carimbo e prazo legal. E, enquanto meu coração dizia “fica em Lisboa”, a burocracia dizia “não será tão simples assim”.

A lei do estrangeiro em Portugal se reescreve a cada semana. Processos emperram. Documentos somem. Vistos voltam. Ficar virou sinônimo de esperar. E eu não tenho muita paciência para esperar.

Foi então que a Espanha apareceu, não como destino romântico, mas como caminho estratégico. Descobri, naquela ida instintiva à Berlin para visitar amigos queridos e importar leite condensado, que brasileiros têm um benefício migratório por lá. Dois anos de residência legal e já é possível solicitar cidadania. Dois anos! O mesmo tempo que vivi em movimento entre quatro países. Dois anos que já sei atravessar.

E, dessa vez, não será mochilão acadêmico, nem vida provisória: será declaração de permanência, mesmo que temporária. É diferente viver em um lugar “por enquanto” e viver “até segunda ordem”.

Eu poderia ir para Madrid. Ou Barcelona.
Mas eu escolhi Valência, cidade que ainda não vi, mas já imagino.
Me disseram que é solar, internacional, criativa, com praia e vida de bairro, como Lisboa, mas com velocidade espanhola e menos labirinto burocrático.

E eu gostei da ideia de chegar onde ainda não estive, mas com o corpo inteiro, não mais em trânsito acadêmico. Dessa vez, vou entrar não como estudante, mas como alguém que está testando mais uma forma de vida.

Lisboa é o afeto. A Espanha é o acordo.
Entre as duas, estou tentando construir liberdade com método.

A documentação está sendo preparada. Um visto de nômade digital me espera em algum balcão espanhol. E dizem que, se em 20 dias ninguém responder, o silêncio vira aprovação. Gosto dessa imagem: “se não me negam, me autorizam.”

Em março, eu entro em Valência.
Ainda não sei onde vou morar.

Mas já sei o que estou levando comigo: coração cheio de expectativas, planilha organizada, verão interno e uma mala cheia espaço para novos começos.

E o resto — o resto eu conto de lá.

Quando o corpo já estiver pisando no solo espanhol e o mar do Mediterrâneo me der o primeiro bom dia.

Não caber mais no Brasil: o amor permanece, o endereço muda

Eu cheguei na Europa no início de setembro de 2023. E, três meses depois, em dezembro, voltei ao Brasil para passar o Natal e o Ano Novo antes de seguir para Dublin. Foi nessa volta, curta, afetiva, carregada de reencontros, que algo silencioso aconteceu: eu entendi que eu amava o Brasil, mas já não cabia mais nele.

Descrever isso é delicado, porque o Brasil ainda é o melhor lugar do mundo para se sentir acolhida. Eu amo a tia da faxina do aeroporto, que olha e sorri com aquele sorriso que só um brasileiro consegue dar, sorriso que diz “bem-vinda, meu amor, senta e come alguma coisinha”. Esse tipo de afeto não existe em outro lugar do mundo.

Mas amor não é sinônimo de pertencimento. E foi estranho perceber isso com tanta clareza.

Lisboa me abriu os olhos para um mundo vibrante, múltiplo, em movimento. Gente de todo lugar, eventos acontecendo todos os dias, idiomas se misturando nas ruas, e a praia logo ali, para quando a mente precisa de um respiro. E, de repente, São Leopoldo, que sempre foi casa, começou a parecer pequena. Não pequena de tamanho, pequena de horizonte.

Talvez, para voltar a viver no Brasil, eu tivesse que ir para lugares como São Paulo. Mas São Paulo carrega uma energia acelerada que não conversa com o tipo de vida que eu quero construir agora. Lisboa me mostrou algo raro: é possível ter intensidade e respiro, movimento e mar ao mesmo tempo.

Meu pensamento está em expansão. E, quando a gente se expande, alguns lugares apertam, mesmo que continuem amados.

Ir embora foi trabalhoso, doído, exigiu desmobilizar uma vida inteira, emocionalmente, financeiramente, logisticamente. Mas entender que não dá mais para voltar foi ainda mais definitivo. Não como ruptura. Não como rejeição. Mas como consciência: quem se move, muda.

E, quando a gente volta, a cidade está igual. As pessoas estão iguais. E isso é lindo, porque é estável. Mas nós não somos mais as mesmas. E é nesse desencontro de tempo que mora a estranheza.

O Brasil ainda me abraça.
Mas, hoje, é um abraço de visita.

Design Justice: quem tem permissão de existir no mundo

Depois de falar de corpo, de desejo, de perimenopausa, de teses e de gênero, talvez pareça que já fechei um ciclo. Mas foi justamente no início dessa jornada acadêmica, ainda no primeiro semestre do mestrado, que algo me atravessou com força suficiente para reorganizar tudo o que eu vinha entendendo sobre perspectivas, legitimidade e mundo.

Foi quando li a introdução de Design Justice, de Sasha Costanza-Chock.

Eu já tinha cruzado muitos aeroportos. Já tinha passado dezenas de vezes pelo mesmo scanner corporal. Tirado cinto, sapato, notebook da mochila, seguido o protocolo e seguido viagem. Mas ali, nas primeiras páginas do livro, Sasha, uma mulher trans, descreve o momento de passar pela segurança do aeroporto de um jeito que eu nunca tinha sido capaz de enxergar.

Se ela se declara mulher, o scanner acusa uma “anomalia” na região genital. Se ela se declara homem, o scanner acusa uma “anomalia” no peito. O corpo dela nunca acerta. A máquina não a reconhece. O sistema não tem lugar para ela.

Eu li e parei. Senti uma espécie de vergonha lúcida. Porque eu já tinha vivido essa mesma situação dezenas de vezes, e nunca tinha percebido o quanto esse mesmo percurso é um campo de guerra para corpos que não cabem na narrativa dominante do design.

Não é o corpo que está errado. É o design do mundo que foi feito para reconhecer apenas alguns corpos como legítimos. E foi aí que entendi uma coisa: o design do mundo não é neutro. Ele escolhe quem encaixa e quem é lido como erro.

Quando Sasha cita Kimberlé Crenshaw e fala de interseccionalidade, algo se deslocou de vez em mim. Ser mulher não me coloca automaticamente ao lado de todas as mulheres. Eu sou mulher, branca, com passaporte carimbado, com educação, com acesso. Outras mulheres, tantas, não atravessam o scanner da vida com a mesma margem de segurança que eu.

E esse reconhecimento traz responsabilidade política. Entender que privilégio não é culpa, mas é contexto, e contexto exige reposicionamento.

Na época, eu ainda não sabia que minha tese seria sobre CEOs, LinkedIn e legitimidade de mulheres em espaços de liderança. Mas acho que foi ali, na leitura de Design Justice, que a

semente foi plantada.

Porque no fundo, o design das plataformas corporativas, assim como o design dos scanners de aeroporto, também decide quem passa direto e quem precisa explicar sua existência. E talvez o design mais cruel não seja o das máquinas, mas justamente o das narrativas autorizadas.

Ter mais de 40 não me blindou de ser surpreendida. Pelo contrário: me fez entender que ainda havia camadas inteiras que eu nunca tinha enxergado.

O texto me ofereceu incômodo. E eu abracei.

Se o mundo é projetado, então ele pode ser redesenhado.
Quem projeta o mundo desenha também fronteiras de pertencimento.
E hoje entendi que o meu viver passa por questionar quem desenhou as condições para essa vida existir.

Perimenopausa: o corpo em transição

Ninguém me avisou sobre a perimenopausa.

Falaram sobre menopausa como um ponto final, um dia você menstrua, no outro não menstrua mais e pronto: encerra, resseca, começa a reposição.

Mas ninguém falou sobre o intervalo. Sobre esse corredor confuso entre uma porta e outra, quando o corpo ainda não fechou um ciclo, mas também já não funciona como antes.

Esse corredor tem nome: perimenopausa. E eu só descobri que ele existia depois dos 40, e vivendo tudo isso longe de casa, mudando de país, de fuso, de idioma… e de eixo hormonal.

Fiz um check-up antes de ir para a Europa. Ciclos irregulares, menstruação que falhava. Fiz exames. Não era menopausa. Era a fase de transição. Era o climatério. O primeiro ato dessa ópera hormonal.

A sensação é de viver numa TPM permanente. Eu poderia assassinar uma pessoa por dia, com argumentos bem estruturados. Tem dias em que acordo pronta para abraçar a vida, e no mesmo dia quero tacar fogo em tudo ao meu redor.

E, com vida sexual ativa, cada atraso da menstruação vira um jogo mental entre idade, perimenopausa e “vai que é filho?” Já fiz mais testes de farmácia do que gostaria de admitir. Ser transante na perimenopausa é basicamente um pequeno ataque cardíaco por mês.

Quase todo mundo fala dos calores (que por enquanto eu nem tive) e dos hormônios, mas pouca gente fala da insônia. A insônia da perimenopausa cria um looping mental dolorido: não durmo → fico irritada → os hormônios fazem rave → o corpo tenta descansar, mas a mente ainda está acesa → não durmo de novo.

É exaustão de alma. E, quando o sono não vem, tudo vem em excesso: a emoção, a irritação, o cansaço, a intensidade.

Calma que tem mais!

Nessa fase, há estudos indicando redução momentânea de massa cinzenta no cérebro, o que explica alguns lapsos cognitivos que às vezes me assustam. Agora meu cérebro precisa terminar de processar antes de permitir que eu fale. Se tento falar enquanto penso, sai um troço que nem eu entendo. E eu, que sempre tive a palavra como ferramenta afiada, agora preciso respirar antes de concluir uma frase inteira.

E tem também o corpo. Ele responde diferente. Ele dói com mais intensidade. Treinar Taekwondo nesse contexto é quase um ritual de resistência. Tem dias em que tudo dói: músculos, peito, articulações. E a vontade real é de deitar em posição fetal no canto do tatame.

Mas, e aqui está a beleza, nunca admirei tanto meu corpo quanto agora. Mesmo oscilando, mesmo doendo, mesmo falhando. Existe uma poesia selvagem no corpo que muda e ainda assim segue vivo, pulsando, insistente.

Há poesia exatamente onde o corpo se desorganiza e reconstrói um eixo próprio. Talvez seja hormônio. Talvez seja maturidade. Talvez seja as duas coisas dançando juntas. Mas, depois dos 40, e mais ainda atravessando essa transição, eu liguei um foda-se que eu nunca tinha acessado antes.

Não tenho mais energia para caber em expectativas.
Não tenho mais tempo para justificar minhas escolhas hormonais, afetivas ou corporais.
Existe vida linda no meio do caos.
E existe coragem no ato de permanecer enquanto tudo dentro está mudando.

Depois dos 40: Aprendendo outra gramática do prazer

Quando cheguei à Europa, eu sabia que iniciar uma relação fixa significaria adicionar uma nova camada de complexidade a uma vida que já estava suficientemente complexa. Eu não vim para construir estabilidade afetiva. Eu vim para experimentar presença. E entendi rapidamente que, se fosse para me relacionar, seria com lucidez, intensidade e sem a fantasia da permanência.

Depois dos 40, algo acontece com a autoestima. Ela se torna mais silenciosa e mais real. O corpo que antes era critério passa a ser morada. A bunda, que me incomodou a vida inteira, virou patrimônio afetivo-político. Aquilo que já foi motivo de autocensura passou a ser alicerce da autoestima. Não aquela autoestima de manual de autoajuda. 

Mas a autoestima que nasce quando a gente se vê com os próprios olhos. E gosta! Quando percebe que o corpo não precisa mais pedir desculpas por existir.

Sem a necessidade de encaixar tudo em um modelo de relacionamento, a intimidade se tornou mais verdadeira. Os encontros não pediam promessa, pediam presença.
E isso muda tudo.
Sem a obrigação de caber num modelo de relação, o corpo respira melhor, o desejo escolhe com mais precisão, e a entrega simplesmente acontece.

Foi aqui também, em trânsito, com o coração disponível mas não ancorado, que o poliamor deixou de ser conceito e virou compreensão: é sobre reconhecer que é possível se conectar com pessoas diferentes, de formas e intensidades diferentes, ao mesmo tempo ou em tempos distintos.

Alguns encontros foram intensos e breves. Outros, superficiais à distância, mas profundos no instante em que os corpos se olharam de verdade.

Ah, e claro, também tive o coração partido. Porque baixar a guarda, mesmo sabendo que tudo é passagem, ainda é escolha de risco. E eu sempre gostei de arriscar. I hurt, but I heal. Faria tudo de novo.

Viver fora também significa internacionalizar a experiência do encontro.
Não preciso entrar em detalhes, mas algumas diferenças culturais são mais educativas do que muitos livros de teoria relacional. Explorar isso tudo foi uma pesquisa de campo com alto valor empírico.

Aprendi rápido que primeiro encontro, só com drink. Jantar exige compromisso de tempo, e, depois dos 40, ninguém precisa ficar preso a um date ruim só porque foi educada demais para levantar.

Depois dos 40, o sexo melhora. Não porque o corpo faz mais, mas porque a vergonha faz menos. Depois dos 40, eu sei exatamente o que eu gosto e tenho zero pudor em dizer.
E eu não finjo nada: nem entusiasmo, nem orgasmo. E, aqui, qualquer toque só acontece se for escolha minha.

Depois dos 40, sexo deixa de ser validação e vira celebração da presença. O corpo deixa de pedir licença e começa a ocupar o espaço a que tem direito. E, quando a gente finalmente habita nosso corpo com inteireza, o encontro com o outro deixa de ser esforço e vira escolha consciente.

Depois dos 40, o corpo deixa de pedir licença e começa a se divertir. E eu também.

Minha tese: gênero, presença e o direito de existir no centro

Viver essa experiência de mobilidade, mudança constante, corpo em trânsito, libido em ebulição e hormônios reorganizando minha biologia por dentro me aproximou ainda mais das questões de gênero.

Porque viver fora também é entender, com mais nitidez, o que significa habitar um corpo de mulher em um mundo estruturado para homens. E fazer isso depois dos 40, com a perimenopausa batendo na porta, só ampliou meu senso de urgência.

Foi nesse estado, de corpo vivo, em movimento e sem pedir licença, que a minha tese nasceu.

Quando chegou o momento de escolher o tema, tudo apontava para o caminho mais fácil: clima.

Eu tinha feito estágio na Youth Climate Leaders; tinha rede, dados, especialistas, referências. Falar de clima faria sentido acadêmico, logístico, curricular.

Mas não fazia sentido vital. Se, por um lado, eu pensava “sem planeta, não faz sentido discutir gênero”, por outro, eu tinha a certeza de que se tivéssemos mais mulheres na liderança, as questões climáticas estariam sendo tratadas de forma mais eficiente.

Foi aí que entendi: meu tema era gênero. Sempre foi gênero. Não porque é bonito. Mas porque é político e é visceral. É corpo e é o campo onde eu tenho lugar de fala e de transformação.

Eu estudei como homens e mulheres em posição de liderança performam sua presença no LinkedIn. O LinkedIn vende a ideia de meritocracia limpa, neutra, profissional. Mas ele é um palco de poder, e assim, conta com aquela hierarquia invisível, mas que é quase tangível quando aprendemos a ouvir o não dito.

Homens podem performar autoridade pura. Mulheres, para serem levadas a sério, precisam equilibrar poder, competência e humanidade.

Um CEO diz “vamos liderar com força” e é lido como firme. Uma CEO diz a mesma coisa e precisa sorrir na foto para não ser lida como agressiva.

Uma mulher priorizar causas sociais faz dela uma gestora não focada em resultados. Um homem priorizar causas sociais faz dele um exemplo a ser seguido.

Enquanto analisava isso, percebia o óbvio: mulheres ainda precisam justificar presença. Homens partem do pressuposto de que já pertencem ao centro. E, se apenas algumas vozes têm espaço para projetar futuros com credibilidade, há uma desproporção na definição da agenda de sustentabilidade.

Escrever essa tese não foi um exercício intelectual isolado. Foi um ato profundamente corporal.

Enquanto analisava presença digital, eu mesma aprendia a performar presença de outro jeito: com o corpo em perimenopausa, em outro continente, escrevendo sobre legitimidade enquanto meu próprio corpo negociava legitimidade com o sono, com o cansaço, com o fogo interno dos hormônios.

Minha tese é sobre CEOs, mas também é sobre mulheres tentando existir plenamente em espaços que ainda questionam o nosso lugar. Quanto mais mergulhei no tema, mais entendi: clima, tecnologia, futuro, sustentabilidade, tudo isso é atravessado por questões de gênero.

Porque transição ecológica sem transição de poder é só marketing verde. E ter mulheres na liderança não é um detalhe progressista, é eixo de transformação. Talvez com mais mulheres decidindo, a lógica do cuidado deixasse de ser vista como fragilidade e passasse a ser entendida como estratégia de futuro.

Defender aquele trabalho, em inglês, na Europa, com meu corpo em transição, longe do Brasil, foi um manifesto poderoso, íntimo e irreversível.

E termino esse texto com a frase que encerrei minha defesa: Liderança sustentável é entender quem tem poder de fala e como suas palavras são recebidas. E entender esse poder simbólico é fundamental para desenhar futuros mais justos e inclusivos.

Organização financeira: quanto custa a liberdade

Se estruturar financeiramente para um movimento como esse não é apenas montar uma planilha. É escolher, com todas as consequências. É colocar o dinheiro a serviço da vida.

Para sair do Brasil, antes de mais nada, eu precisei reduzir meus custos. O primeiro passo foi o apartamento. Eu não queria vender porque ainda não sabia se voltaria. Voltar em dois meses? Voltar no meio? Ficar de vez? Tudo era possível.

Tive a sorte de ter uma amiga que topou morar no meu apartamento. Do jeito que estava. Com as minhas coisas. Ela cuidou da casa melhor do que eu. Estratégia financeira afetiva na prática. E aqui entra a importância das relações de novo.

Mantive apenas o celular, porque o trabalho me encontra pelo WhatsApp, e o plano de saúde, porque ainda confio mais em fazer check-up no Brasil do que na burocracia fria do seguro internacional.

Depois de muito planejamento, estabeleci um número: 210 mil reais seria o teto para viver dois anos fora. Eu sei, o valor assusta. Quem tem 210 mil reais para apostar assim, no escuro?

Mas a dura realidade é que, devido ao câmbio, precisamos dividir o patrimônio todo por 6,5. 210 mil reais são 32 mil euros. Dividido por 24 meses, dá 1,3 mil euros por mês. Tira daí uns 800 para moradia, sobra 500 euros para comer, viver, me mover, existir, viajar e morar no próprio corpo com dignidade.

Ou seja: não dá! E, mesmo assim, eu fui.

Depois dos 40, descobri que casa não é luxo, é base emocional. Eu abro mão de muita coisa, mas não abro mão de morar bem. Dividir quarto? Dormir mal? Viver desconfortável? Não mais.

Não em nome de uma planilha.

Então aceitei: meu maior gasto seria sempre a casa. Em troca, eu me organizei com todo o resto.

Criei uma planilha que daria orgulho a qualquer virginiano. Alimentação, transporte, esporte, lazer, viagem, imprevistos, burocracia (vistos, documentos). Previsto x realizado. Tudo anotado. Tudo decidido diariamente. Hoje sushi, amanhã macarrão com ovo. Não é sacrifício. É consciência.

No meio do caminho, percebi algo importante: dava para estudar E trabalhar. Isso mudou tudo. Me deu mais liberdade.

Claro, eu não conseguia trabalhar tanto quanto antes e precisava converter tudo para euros. Ainda assim, foi uma ajuda e tanto.

Também aprendi alguns hacks para viajar barato que são fundamentais.

Em 2006, passei dois meses na Europa graças ao Couchsurfing, me hospedando com pessoas que abriam suas casas em troca de intercâmbio cultural. Foi lindo, foi mágico e… foi o que me permitiu ficar todo esse tempo lá.

Agora conheci o Trusted House Sitters, uma plataforma que permite que donos de pets ofereçam suas casas para petsitters dispostos a cuidar dos seus bichinhos em determinadas datas. Fiz alguns em Viena mesmo, para ganhar reputação, e logo pude explorar outros lugares, como Graz e Zurique, em troca de passar dias na companhia de peludos fofinhos.

Não tem relação mais ganha-ganha do que essa para quem é apaixonada por animais como eu.

Também entendi que era preciso avaliar

as oportunidades com carinho. Um amigo me convidou para ir a Luxemburgo. A passagem era cara, mas quando teria essa oportunidade de novo? Fui! Valeu cada centavo.

Dinheiro virou dança, não prisão. E é importante dizer isso com todas as letras, porque transformar recurso em movimento, especialmente depois dos 40, é chacoalhar o status quo. Falar de números é arrancar o romantismo da equação e devolver à liberdade o que ela realmente é: uma decisão sustentada.

E é por isso que eu escolho falar de valores com clareza. Porque mulheres não foram ensinadas a fazer isso. E quase nunca se ensina que investir em si mesma também é ampliar patrimônio.

No total, dois anos de mestrado, estadias, viagens e vida plena custaram 350 mil reais. Ou seja, uma média aí de 2,2 mil euros por mês, o que não é nada mal para quem tava morando bem e se permitindo alguns luxos, né?

Mas melhora, porque aqui está a parte que quase ninguém conta: com trabalho, com o apartamento vendido e rendendo, com o dinheiro girando, o que realmente saiu do meu caixa foi cerca de 50 mil reais.

Ou seja, 7,7 mil euros para dois anos. 320 euros por mês.
Isso não é mágica. É estratégia financeira com afeto, coragem e verdade. É tirar o patrimônio da gaveta para colocá-lo em movimento, não em tijolo.

Se valeu?
Eu pagaria tudo de novo. Com juros de alegria, liberdade e muitas possibilidades.

Para quem quiser fazer parte do TrustedHouseSitters, usa o meu link que tem alguns benefícios: https://bit.ly/thsBeta

A arte de estar longe: quando o amor precisa resistir à ausência

Quando decidi vir para a Europa, eu sabia que não estava apenas mudando de continente, eu estava renunciando à presença física em capítulos importantes da vida de quem eu amo. Eu tinha plena consciência disso. Talvez seja uma característica de quem já passou dos 40: a gente já não se engana sobre o custo das escolhas.

Eu deixei para trás um laço muito profundo com meu sobrinho, que cresceu literalmente batendo na minha porta todos os dias. Deixei também três afilhados que estavam naquela fase linda de começar a reconhecer rostos, criar memória afetiva, formar o vocabulário das presenças. E, junto com eles, família, amigos, pessoas que foram meu eixo durante anos.

Ir embora é aceitar que algumas cenas da vida das pessoas que amamos simplesmente acontecerão sem a gente. Aniversários, datas, pequenas conquistas, o primeiro dente que caiu, o pedaço de bolo dividido na varanda, a bagunça do almoço de domingo.

Mas também entendi outra coisa: às vezes, sair é uma forma diferente de estar. Talvez, lá na frente, eu possa ser porto, abrigo, ponto de passagem. Talvez ter alguém que está longe, mas está no mundo, também expanda o horizonte de quem ficou.

A distância exige duas habilidades simultâneas: presença e ausênciaExistem momentos em que estar perto significa mandar uma foto, um áudio, um vídeo curto, um “olha isso” sem contexto, e isso basta. E existem dias em que amar também é se ausentar sem culpa, porque, para estar disponível para o outro, primeiro é preciso voltar para si.

Eu brinco, mas é verdade, que espero que o amor resista à minha incompetência ocasional de manter conversas. Porque eu sei o quanto uma mensagem pode ser importante. E sei também que existem dias em que simplesmente não dá. O fuso atrapalha, o corpo cansa, o espírito recolhe. E a gente precisa confiar que o amor das relações verdadeiras sabe atravessar esses silêncios.

Longe, coisas pequenas viram âncoras:
Os desenhos enviados pelos meus afilhados.
As visitas da minha mãe, em todos os quatro países onde morei, não como turista, mas como alguém que pisa no meu território e diz: “entendi, é aqui que tua vida acontece agora.” As duas idas ao Brasil, que foram menos viagem e mais reconexão de eixo.

E coisas que antes não tinham importância passaram a ter função de laço. Farofa, churrasco com pagode, ouvir samba. O corpo reconhece antes da mente: “aqui tem memória, aqui eu respiro.”

Depois dos 40, amar à distância deixa de ser espera, vira pacto silencioso.
A saudade existe. Ela não é romântica, não é dramática, ela é uma constatação madura de que não dá para estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E que toda escolha é uma renúncia, sim, mas também pode ser um gesto generoso de abrir caminho.

Talvez, mais do que estar presente o tempo todo, amar depois dos 40 signifique confiar que o vínculo suporta a ausência.
O amor não mora na frequência.
O amor mora na permanência.

E, se há algo que aprendi nessa travessia, é que estar longe não é o contrário de estar presente.
Às vezes, estar longe é só uma outra forma de ficar.

Aprender outra vez: desaprender para continuar

Quando comecei o mestrado, percebi logo no primeiro dia: eu era a aluna mais experiente da sala. Em idade, em carreira, em vida vivida.

Não era um incômodo, era uma constatação. A turma era excelente, cheia de gente brilhante, curiosa, articulada. Mas eu sabia que minha relação com o tempo era outra.

Aos 40 e tantos, a pressa muda de forma. Não é mais sobre chegar primeiro, mas sobre aproveitar melhor o caminho.

Conviver com pessoas muito mais jovens me lembrou uma conversa antiga com a minha mãe: até a geração dela, aprendíamos com os mais velhos; desde a revolução tecnológica, aprendemos, e muito, com os mais jovens.

E esse talvez seja o maior exercício dos nossos tempos: entender o que ainda vale daquilo que sabemos e o que precisa sair de cena para dar espaço ao novo.

Voltar a estudar depois de 20 anos de estrada profissional é um paradoxo bonito. Às vezes a prática refuta a teoria. Às vezes a teoria explica a prática. E a gente fica no meio, tentando equilibrar o que se sabe com o que se descobre.

O desafio é saber quando trazer a experiência para a mesa e quando simplesmente calar e ouvir.
Eu não estava ali para ensinar. Eu estava ali para aprender. E, para isso, precisei descer do palco. Quem já foi professora sabe o que é esse gesto: guardar a voz, deixar que o silêncio faça o seu trabalho.

E o mestrado me testou todos os dias. Em paciência, em humildade, em presença. Os mais jovens se desesperavam com prazos, choravam por pequenas crises. E, às vezes, eu olhava e pensava: “Ah, espera só o que vem depois.” Mas logo me lembrava que, na idade deles, talvez eu também tivesse feito o mesmo drama.

Aprendi demais com eles. Com cada um de um jeito.
Só o fato de sermos de 19 países diferentes já era uma aula de mundo por si só. Geopolítica, cultura, religião, costumes, afetos. Cada café era uma reunião da ONU em miniatura.

Descobri tradições que eu desconhecia. Descobri jovens com almas antigas e histórias de vida que caberiam em três encarnações. E descobri, sobretudo, a lindeza que é viver num mundo absolutamente diverso.

Houve aulas em que o professor falava e eu pensava: “Isso não funciona na vida real.” E, em outras, lembrava de quando eu mesma, quando jovem, trazia ideias novas e alguém dizia: “Ah, mas nós já tentamos e não deu.”
Talvez o erro não estivesse na ideia, mas no tempo e no contexto.

Durante o mestrado, escolhi conscientemente o papel de aprendiz. Olhei o conteúdo com curiosidade de criança. Tentei adiar o julgamento o máximo possível, porque julgar é o reflexo automático de quem já viveu muito.

Mas aprender é o ato intencional de quem ainda quer viver mais.

Os mestrados, especialmente na Europa, são automaticamente etaristas. Aqui, a graduação é generalista, e o mestrado virou caminho natural, se não obrigatório, para quem quer se profissionalizar. Por isso, as salas são cheias de gente muito jovem. E é raro ver ali alguém com 40 e tantos, não por falta de vontade, mas por falta de espaço, de estímulo, de política pública e de representação.

Que lindo seria se a diversidade etária fosse vista como potência. Se a maturidade estivesse na mesma prateleira da inovação.

Voltar a estudar depois dos 40 é um ato político. E um ato de amor próprio.
Porque é dizer, em voz alta:
“Não é sobre tudo o que eu já fiz, mas sobre tudo o que eu ainda posso fazer.”

Viena: o verão espiritual e a finitude

Antes de chegar em Viena, fiz um desvio bonito. A temporada em Poznań acabou no fim de janeiro, passei fevereiro em Lisboa, atravessei o Atlântico para 15 dias de trabalho em Austin (SXSW) na primeira quinzena de março e, de lá, segui direto para Viena, meu quarto endereço no ano. Em menos de três meses. Corpo treinado em recomeços. Bora para mais uma.

A faculdade não ficava em Viena; ficava em Krems, a 1h30 de trem. Desde o início, decidi: vou morar na capital. Não tenho nem dúvidas sobre isso! Depois de Poznań, eu já sabia que sou pessoa de cidade grande. E, como as aulas presenciais seriam só no primeiro mês e meio, fazia sentido morar onde a vida me chamava, não onde a conveniência pedia.

Viena me recebeu com uma elegância silenciosa. Linda, grande, impecável, e, às vezes, curiosamente vazia. Descobri que Viena não expõe seus lugares; ela os esconde. Não há “rua dos bares” ou “quarteirão dos restaurantes”. É preciso ser apresentada à cidade. Viena é cidade que se abre por confiança, não por evidência. E isso cria uma intimidade especial.

O transporte é um acontecimento à parte: tudo se conecta com tudo. Demora um pouco pelas baldeações, mas chega-se em qualquer lugar. Comprei o Klimaticket e, de repente, tinha o país inteiro no bolso. Isso me colocou ainda mais em movimento.

Logo ali, fiz um acordo comigo: pausar o trabalho por um tempo para escrever a tese. Eu me conheço, se trabalho e pesquisa disputassem o mesmo espaço, o trabalho ganharia por hábito, não por importância. Viena virou laboratório de foco.

Também virou lugar de encontros de culturas improváveis para mim: Sérvia, Ucrânia, Romênia, Kosovo. Países tão distantes no meu imaginário que passaram a ter rosto, fala e abraço. E teve abraço carinhoso do amigo de infância que já chamava a Áustria de casa há muitos anos. Como amo essas relações do bem.

Descobri a vida do Danúbio: alugar barquinho, piquenique no rio, vinho ao pôr do sol, mergulho nas margens e conversa longa. Água de novo. Sempre que posso, eu corro para a água. É ali que eu recalibro o eixo.

Encontrei uma turma enorme de vôlei (se não fosse tão caro, eu jogava todo dia). Me matriculei numa academia só para mulheres. No início estranhei, depois entendi, o bairro tinha muita imigração turca, muitas mulheres muçulmanas. Aquele era um espaço fechado para que elas pudessem treinar sem hijab. Design social na prática: quando o espaço muda, a liberdade muda junto. Gostei desse cuidado.

O alemão foi menos assustador do que eu imaginava. Talvez pela infância no sul do Brasil, o ouvido já tinha memória de sons. Morei bem, bons apartamentos, boas localizações, e segui na estrada: Luxemburgo, Bratislava, Budapeste, Brno, Salzburg, Graz, Zürich.

Viena, para mim, foi verão. Literal e espiritual. Trouxe calor, amizades, paixões, leveza… E trouxe finitude.
Porque no dia 8 de agosto, eu finalizei o mestrado. Data marcada, ritual de fim. Cerimônia de graduação.
Eu precisava desse ponto final, não por drama, mas por método.

O mestrado foi a desculpa perfeita para desmobilizar a vida no Brasil. Fechar esse ciclo, para mim, é autorizar um começo novo: repensar rumo, trabalho, empresa, Europa como possibilidade concreta.

Se Poznań me ensinou a manter o meu verão aceso por dentro, Viena veio checar se ele resistiria até o último capítulo.
Resistiu. Cresceu. Transbordou.

Não sei se Viena é o lugar para ficar agora, mas é um lugar onde me vejo ficando. Talvez um dia. Talvez em outro verão.
Por enquanto, fico com a imagem que me acompanha: um barquinho no Danúbio, uma garrafa de vinho, as lindas rosas nas calçadas, risos em muitos sotaques, e a tranquilidade adulta de quem sabe recomeçar, e começa a aprender a permanecer.

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