Poznań foi reencontro. Depois de Dublin, onde cada um da turma tinha se espalhado por bairros distantes, e depois de cinco meses de estágio em países completamente diferentes, foi a primeira vez em muito tempo que voltamos a habitar a mesma cidade. Não era Lisboa, nem Dublin, nem Viena. Era Poznań. A única que não era capital. A menos óbvia. A que quase ninguém sabia apontar no mapa.
Eu mesma, antes de começar o mestrado, dizia: “vou estudar em Lisboa, Dublin, Viena e… na Polônia”. Ao invés de mencionar a cidade desconhecida, apelava para o país pouco óbvio. Um lugar que nunca esteve no meu imaginário de vida. E mesmo assim, foi palco de um período espiritualmente muito importante para mim.
Depois de pagar caro por tudo em Dublin, Poznań foi um alívio financeiro. Alimentação mais barata, transporte eficiente, e um apartamento só meu, moderno, limpo e no centro. Eu ia a pé para a universidade, a pé para o centro, a pé para os restaurantes. Tudo era perto. Tudo era possível.
Poznań é uma cidade organizada, limpa, bonita, com cara de cartão-postal. Bonita de um jeito que não grita. Bonita de um jeito que repousa.
Mas havia algo no ar, um peso histórico quase invisível, uma melancolia coletiva que se sente antes de se entender. E eu precisei aprender a habitar essa atmosfera sem deixar minha luz apagar.
Se o inglês da Irlanda já exigia esforço, o polonês me colocou oficialmente na categoria
de analfabeta funcional. As placas pareciam enigmas. As palavras tinham consoantes demais para caber na boca. No mercado, desisti de traduzir rótulos e comecei a pegar coisas por instinto. Resultado: comprei lenços umedecidos com aroma de framboesa e meu bumbum cheirou a doce por um mês inteiro.
E a saga do leite condensado polonês: tentei cinco versões. Nenhuma era. Só fui encontrar o verdadeiro, glorioso leite condensado… em Berlim. Aproveitei a proximidade para visitar uma família querida de amigos e vim com a mala cheia de latas do abençoado e um grande pacote de pão de queijo. E uma sementinha plantada que mudaria todo rumo dessa aventura.
O frio polonês não me assustou. O que me abalou foi o dia terminando às quatro da tarde. Quando a luz vai embora tão cedo, o corpo começa a entrar em modo econômico sem avisar.
Eu parei de fazer exercício. Saía menos. Ficava mais em casa. E um dia percebi: a melancolia tinha chegado sorrateira. Poznań é um lugar onde o inverno testa a alma antes de testar o corpo.
Mas, e aqui está minha insistência, eu me recusei a deixar de dizer bom dia. Mudei minha rota só para cumprimentar a senhora da recepção da universidade. Ela se assustava. E eu achava isso lindo. Passei quatro meses com duas expressões em polonês e um sorriso no rosto. Bastou.
Passei o primeiro Natal longe da minha irmã. E sobrevivi porque fui acolhida por uma família brasileira, amigos de longa data, em Idstein, na Alemanha. Me senti como se sempre tivesse sido parte daquela tradição. Mais uma prova viva de que o lar viaja nas pessoas.
O Réveillon, esse sim, foi em Poznań. Entre Soplicas (a vodka polonesa que engana com sabor doce e golpeia só depois), risadas e um nível de conforto coletivo raro. Ninguém lembra se teve fogos. O que é, para mim, uma medida exata de alegria.
Entre pierogis, neve e vínculos, Poznań virou ritual de reconexão. Comi os melhores ramens da Europa ali. Caminhei na neve, vi a cidade coberta de luzes de Natal. E mais do que tudo: me reconectei com a minha turma do mestrado. Sem grandes eventos urbanos para nos distrair, nós éramos o evento.
Poznań foi cidade de reconciliação interna. Uma busca incessante por um pedaço de água que despertasse em mim a conexão divina que sempre me moveu. Obrigada, Lago Rusalka!
E foi só no fim que entendi: Poznań não queria que eu me apaixonasse por ela. Queria que eu me observasse dentro dela.
Entre Gdańsk, que me surpreendeu pela beleza inesperada, e Krakow, que me entregou 50 tons de bege e uma corrida cinematográfica para não perder o trem de volta depois de visitar Auschwitz sob uma nevasca pesada, a Polônia me colocou em movimento até quando eu estava cansada.
No dia 31 de dezembro, enquanto o mundo esperava fogos, eu estava em Varsóvia, fazendo a entrevista do visto americano para um trabalho que me levaria ao Texas meses depois. Foi o processo mais fácil da minha vida.
Como se a Polônia, silenciosamente, dissesse: “Você pode ir. O caminho está aberto.”
Poznań não foi um lugar de encantamento. Foi um território de passagem espiritual. Um ensaio de inverno. E foi ali, no meio do frio, com o corpo mais pesado e a luz indo embora cedo demais, que aprendi uma das lições mais adultas dessa jornada:
Nem todo lugar onde a gente para é para ficar. Mas todo lugar onde a gente passa nos prepara para chegar melhor no próximo.
Viena viria em seguida.
E meu verão interno estava a postos.

