Eu nunca tinha ouvido falar de Erasmus Mundus. Aliás, o nome Erasmus, que é tão comum na Europa, esse programa em que estudantes de graduação passam um semestre fora, no Brasil ainda é praticamente desconhecido. Erasmus Mundus então, que é um mestrado com mobilidade obrigatória em múltiplos países, parecia quase ficção científica.
Foi nas minhas buscas por oportunidades de mestrado mundo afora, tentando entender onde eu queria morar e como eu queria viver, que encontrei esses programas.
Erasmus Mundus são mestrados financiados pela União Europeia e que têm uma lógica muito específica: não acontecem em um único lugar, porque a mobilidade é a estrutura, a base.
São consórcios formados por três ou quatro universidades de países diferentes, o que significa que, a cada semestre, você precisa mudar de país, de idioma, de moeda, de cultura, de casa, de mercado, de rota de ônibus, de farmácia, de padaria e de geografia interna.
À primeira vista, parece absolutamente incrível. E é.
Mas também é um caos logístico permanente. Um pesadelo que inunda os pensamentos a cada vez que ouvimos a pergunta “onde você mora?”.
É viver dois anos sem ter endereço. Ou sem saber pronunciar o endereço!
Viver um Erasmus Mundus significa viver de passagem. Morar em casas que não têm a nossa cara, o nosso cheiro, a nossa decoração. Aprender a viver com 23 quilos de vida dentro de uma mala, durante dois anos.
E cada mudança exige tudo de novo:
novo mercado, novo transporte, novo registro na cidade, novo sistema de saúde, novo jeito de pedir café, nova explicação sobre por que você é brasileiro mas fala inglês com sotaque diferente, e agora também arranha um polonês de sobrevivência.
É lindo. E é muito difícil.
E essas duas coisas coexistem.
Porque existe um segredo bonito nesse caos.
Éramos 25 pessoas de 19 países diferentes. E nos mudávamos juntos.
Ou seja: a cada país novo, eu já chegava com 24 amigos feitos, o que muda absolutamente tudo.
É mais fácil explorar quando se tem gente para comer algo estranho pela primeira vez, ou para se perder no metrô, ou para rir do próprio esforço tentando pedir um pão numa língua que você não consegue sequer ler.
E sempre tem alguém que chega antes, o que cria uma espécie de sabedoria coletiva em tempo real: “o registro da cidade é ali”, “faz o visto por esse site”, “compra esse bilhete de transporte que vale para o trem também”.
Pequenas instruções que viram grandes respiros.
E ainda assim… para cada país, uma burocracia nova, um documento novo, um formulário diferente, um atendimento público que te diz, nem sempre educadamente, que você trouxe o papel errado, mesmo que seja exatamente o papel que o site mandou imprimir.
Às vezes, eu tinha a sensação de que o mestrado acadêmico era o menor dos trabalhos. O real mestrado era encontrar casa, fazer visto, pedir residência, planejar a próxima mudança, comprar passagem, desfazer mala, refazer mala, respirar e repetir. De novo e de novo.
Comecei em Lisboa, Portugal. Depois, Dublin, Irlanda. No período do estágio, que poderia ser feito em qualquer lugar do mundo, eu voltei à Lisboa. O terceiro semestre foi em Poznań, na Polônia. E o último, oficialmente em Krems, na Áustria, embora eu tenha decidido viver em Viena.
Estudar em quatro países não é a mesma coisa que visitar quatro países.
Morar é diferente de passar por.
E, claro, a mobilidade do mestrado abriu ainda mais mundo para mim: Irlanda do Norte, Escócia, Luxemburgo, Noruega, Suíça, Eslováquia, Hungria, lugares que talvez nunca estivessem na minha lista prioritária, mas que entraram na minha vida porque eu estava no caminho.
Existe a expectativa, a realidade e aquilo que nasce no meio.
Eu comecei esse mestrado com uma ideia sobre como seriam esses dois anos.
Eles foram diferentes. Nem melhores, nem piores. Diferentes!
É impossível saber o final das coisas quando elas são vividas em movimento.
E talvez, essa seja a maior graça. Os finais são construídos dia a dia, mesmo que nem sempre a gente consiga reconhecê-los.
