A arte de estar longe: quando o amor precisa resistir à ausência

Quando decidi vir para a Europa, eu sabia que não estava apenas mudando de continente, eu estava renunciando à presença física em capítulos importantes da vida de quem eu amo. Eu tinha plena consciência disso. Talvez seja uma característica de quem já passou dos 40: a gente já não se engana sobre o custo das escolhas.

Eu deixei para trás um laço muito profundo com meu sobrinho, que cresceu literalmente batendo na minha porta todos os dias. Deixei também três afilhados que estavam naquela fase linda de começar a reconhecer rostos, criar memória afetiva, formar o vocabulário das presenças. E, junto com eles, família, amigos, pessoas que foram meu eixo durante anos.

Ir embora é aceitar que algumas cenas da vida das pessoas que amamos simplesmente acontecerão sem a gente. Aniversários, datas, pequenas conquistas, o primeiro dente que caiu, o pedaço de bolo dividido na varanda, a bagunça do almoço de domingo.

Mas também entendi outra coisa: às vezes, sair é uma forma diferente de estar. Talvez, lá na frente, eu possa ser porto, abrigo, ponto de passagem. Talvez ter alguém que está longe, mas está no mundo, também expanda o horizonte de quem ficou.

A distância exige duas habilidades simultâneas: presença e ausênciaExistem momentos em que estar perto significa mandar uma foto, um áudio, um vídeo curto, um “olha isso” sem contexto, e isso basta. E existem dias em que amar também é se ausentar sem culpa, porque, para estar disponível para o outro, primeiro é preciso voltar para si.

Eu brinco, mas é verdade, que espero que o amor resista à minha incompetência ocasional de manter conversas. Porque eu sei o quanto uma mensagem pode ser importante. E sei também que existem dias em que simplesmente não dá. O fuso atrapalha, o corpo cansa, o espírito recolhe. E a gente precisa confiar que o amor das relações verdadeiras sabe atravessar esses silêncios.

Longe, coisas pequenas viram âncoras:
Os desenhos enviados pelos meus afilhados.
As visitas da minha mãe, em todos os quatro países onde morei, não como turista, mas como alguém que pisa no meu território e diz: “entendi, é aqui que tua vida acontece agora.” As duas idas ao Brasil, que foram menos viagem e mais reconexão de eixo.

E coisas que antes não tinham importância passaram a ter função de laço. Farofa, churrasco com pagode, ouvir samba. O corpo reconhece antes da mente: “aqui tem memória, aqui eu respiro.”

Depois dos 40, amar à distância deixa de ser espera, vira pacto silencioso.
A saudade existe. Ela não é romântica, não é dramática, ela é uma constatação madura de que não dá para estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E que toda escolha é uma renúncia, sim, mas também pode ser um gesto generoso de abrir caminho.

Talvez, mais do que estar presente o tempo todo, amar depois dos 40 signifique confiar que o vínculo suporta a ausência.
O amor não mora na frequência.
O amor mora na permanência.

E, se há algo que aprendi nessa travessia, é que estar longe não é o contrário de estar presente.
Às vezes, estar longe é só uma outra forma de ficar.

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