Daily Archives: 25 de janeiro de 2026

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Minha tese: gênero, presença e o direito de existir no centro

Viver essa experiência de mobilidade, mudança constante, corpo em trânsito, libido em ebulição e hormônios reorganizando minha biologia por dentro me aproximou ainda mais das questões de gênero.

Porque viver fora também é entender, com mais nitidez, o que significa habitar um corpo de mulher em um mundo estruturado para homens. E fazer isso depois dos 40, com a perimenopausa batendo na porta, só ampliou meu senso de urgência.

Foi nesse estado, de corpo vivo, em movimento e sem pedir licença, que a minha tese nasceu.

Quando chegou o momento de escolher o tema, tudo apontava para o caminho mais fácil: clima.

Eu tinha feito estágio na Youth Climate Leaders; tinha rede, dados, especialistas, referências. Falar de clima faria sentido acadêmico, logístico, curricular.

Mas não fazia sentido vital. Se, por um lado, eu pensava “sem planeta, não faz sentido discutir gênero”, por outro, eu tinha a certeza de que se tivéssemos mais mulheres na liderança, as questões climáticas estariam sendo tratadas de forma mais eficiente.

Foi aí que entendi: meu tema era gênero. Sempre foi gênero. Não porque é bonito. Mas porque é político e é visceral. É corpo e é o campo onde eu tenho lugar de fala e de transformação.

Eu estudei como homens e mulheres em posição de liderança performam sua presença no LinkedIn. O LinkedIn vende a ideia de meritocracia limpa, neutra, profissional. Mas ele é um palco de poder, e assim, conta com aquela hierarquia invisível, mas que é quase tangível quando aprendemos a ouvir o não dito.

Homens podem performar autoridade pura. Mulheres, para serem levadas a sério, precisam equilibrar poder, competência e humanidade.

Um CEO diz “vamos liderar com força” e é lido como firme. Uma CEO diz a mesma coisa e precisa sorrir na foto para não ser lida como agressiva.

Uma mulher priorizar causas sociais faz dela uma gestora não focada em resultados. Um homem priorizar causas sociais faz dele um exemplo a ser seguido.

Enquanto analisava isso, percebia o óbvio: mulheres ainda precisam justificar presença. Homens partem do pressuposto de que já pertencem ao centro. E, se apenas algumas vozes têm espaço para projetar futuros com credibilidade, há uma desproporção na definição da agenda de sustentabilidade.

Escrever essa tese não foi um exercício intelectual isolado. Foi um ato profundamente corporal.

Enquanto analisava presença digital, eu mesma aprendia a performar presença de outro jeito: com o corpo em perimenopausa, em outro continente, escrevendo sobre legitimidade enquanto meu próprio corpo negociava legitimidade com o sono, com o cansaço, com o fogo interno dos hormônios.

Minha tese é sobre CEOs, mas também é sobre mulheres tentando existir plenamente em espaços que ainda questionam o nosso lugar. Quanto mais mergulhei no tema, mais entendi: clima, tecnologia, futuro, sustentabilidade, tudo isso é atravessado por questões de gênero.

Porque transição ecológica sem transição de poder é só marketing verde. E ter mulheres na liderança não é um detalhe progressista, é eixo de transformação. Talvez com mais mulheres decidindo, a lógica do cuidado deixasse de ser vista como fragilidade e passasse a ser entendida como estratégia de futuro.

Defender aquele trabalho, em inglês, na Europa, com meu corpo em transição, longe do Brasil, foi um manifesto poderoso, íntimo e irreversível.

E termino esse texto com a frase que encerrei minha defesa: Liderança sustentável é entender quem tem poder de fala e como suas palavras são recebidas. E entender esse poder simbólico é fundamental para desenhar futuros mais justos e inclusivos.

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