Quando comecei o mestrado, percebi logo no primeiro dia: eu era a aluna mais experiente da sala. Em idade, em carreira, em vida vivida.
Não era um incômodo, era uma constatação. A turma era excelente, cheia de gente brilhante, curiosa, articulada. Mas eu sabia que minha relação com o tempo era outra.
Aos 40 e tantos, a pressa muda de forma. Não é mais sobre chegar primeiro, mas sobre aproveitar melhor o caminho.
Conviver com pessoas muito mais jovens me lembrou uma conversa antiga com a minha mãe: até a geração dela, aprendíamos com os mais velhos; desde a revolução tecnológica, aprendemos, e muito, com os mais jovens.
E esse talvez seja o maior exercício dos nossos tempos: entender o que ainda vale daquilo que sabemos e o que precisa sair de cena para dar espaço ao novo.
Voltar a estudar depois de 20 anos de estrada profissional é um paradoxo bonito. Às vezes a prática refuta a teoria. Às vezes a teoria explica a prática. E a gente fica no meio, tentando equilibrar o que se sabe com o que se descobre.
O desafio é saber quando trazer a experiência para a mesa e quando simplesmente calar e ouvir.
Eu não estava ali para ensinar. Eu estava ali para aprender. E, para isso, precisei descer do palco. Quem já foi professora sabe o que é esse gesto: guardar a voz, deixar que o silêncio faça o seu trabalho.
E o mestrado me testou todos os dias. Em paciência, em humildade, em presença. Os mais jovens se desesperavam com prazos, choravam por pequenas crises. E, às vezes, eu olhava e pensava: “Ah, espera só o que vem depois.” Mas logo me lembrava que, na idade deles, talvez eu também tivesse feito o mesmo drama.
Aprendi demais com eles. Com cada um de um jeito.
Só o fato de sermos de 19 países diferentes já era uma aula de mundo por si só. Geopolítica, cultura, religião, costumes, afetos. Cada café era uma reunião da ONU em miniatura.
Descobri tradições que eu desconhecia. Descobri jovens com almas antigas e histórias de vida que caberiam em três encarnações. E descobri, sobretudo, a lindeza que é viver num mundo absolutamente diverso.
Houve aulas em que o professor falava e eu pensava: “Isso não funciona na vida real.” E, em outras, lembrava de quando eu mesma, quando jovem, trazia ideias novas e alguém dizia: “Ah, mas nós já tentamos e não deu.”
Talvez o erro não estivesse na ideia, mas no tempo e no contexto.
Durante o mestrado, escolhi conscientemente o papel de aprendiz. Olhei o conteúdo com curiosidade de criança. Tentei adiar o julgamento o máximo possível, porque julgar é o reflexo automático de quem já viveu muito.
Mas aprender é o ato intencional de quem ainda quer viver mais.
Os mestrados, especialmente na Europa, são automaticamente etaristas. Aqui, a graduação é generalista, e o mestrado virou caminho natural, se não obrigatório, para quem quer se profissionalizar. Por isso, as salas são cheias de gente muito jovem. E é raro ver ali alguém com 40 e tantos, não por falta de vontade, mas por falta de espaço, de estímulo, de política pública e de representação.
Que lindo seria se a diversidade etária fosse vista como potência. Se a maturidade estivesse na mesma prateleira da inovação.
Voltar a estudar depois dos 40 é um ato político. E um ato de amor próprio.
Porque é dizer, em voz alta:
“Não é sobre tudo o que eu já fiz, mas sobre tudo o que eu ainda posso fazer.”
