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Minha tese: gênero, presença e o direito de existir no centro

Viver essa experiência de mobilidade, mudança constante, corpo em trânsito, libido em ebulição e hormônios reorganizando minha biologia por dentro me aproximou ainda mais das questões de gênero.

Porque viver fora também é entender, com mais nitidez, o que significa habitar um corpo de mulher em um mundo estruturado para homens. E fazer isso depois dos 40, com a perimenopausa batendo na porta, só ampliou meu senso de urgência.

Foi nesse estado, de corpo vivo, em movimento e sem pedir licença, que a minha tese nasceu.

Quando chegou o momento de escolher o tema, tudo apontava para o caminho mais fácil: clima.

Eu tinha feito estágio na Youth Climate Leaders; tinha rede, dados, especialistas, referências. Falar de clima faria sentido acadêmico, logístico, curricular.

Mas não fazia sentido vital. Se, por um lado, eu pensava “sem planeta, não faz sentido discutir gênero”, por outro, eu tinha a certeza de que se tivéssemos mais mulheres na liderança, as questões climáticas estariam sendo tratadas de forma mais eficiente.

Foi aí que entendi: meu tema era gênero. Sempre foi gênero. Não porque é bonito. Mas porque é político e é visceral. É corpo e é o campo onde eu tenho lugar de fala e de transformação.

Eu estudei como homens e mulheres em posição de liderança performam sua presença no LinkedIn. O LinkedIn vende a ideia de meritocracia limpa, neutra, profissional. Mas ele é um palco de poder, e assim, conta com aquela hierarquia invisível, mas que é quase tangível quando aprendemos a ouvir o não dito.

Homens podem performar autoridade pura. Mulheres, para serem levadas a sério, precisam equilibrar poder, competência e humanidade.

Um CEO diz “vamos liderar com força” e é lido como firme. Uma CEO diz a mesma coisa e precisa sorrir na foto para não ser lida como agressiva.

Uma mulher priorizar causas sociais faz dela uma gestora não focada em resultados. Um homem priorizar causas sociais faz dele um exemplo a ser seguido.

Enquanto analisava isso, percebia o óbvio: mulheres ainda precisam justificar presença. Homens partem do pressuposto de que já pertencem ao centro. E, se apenas algumas vozes têm espaço para projetar futuros com credibilidade, há uma desproporção na definição da agenda de sustentabilidade.

Escrever essa tese não foi um exercício intelectual isolado. Foi um ato profundamente corporal.

Enquanto analisava presença digital, eu mesma aprendia a performar presença de outro jeito: com o corpo em perimenopausa, em outro continente, escrevendo sobre legitimidade enquanto meu próprio corpo negociava legitimidade com o sono, com o cansaço, com o fogo interno dos hormônios.

Minha tese é sobre CEOs, mas também é sobre mulheres tentando existir plenamente em espaços que ainda questionam o nosso lugar. Quanto mais mergulhei no tema, mais entendi: clima, tecnologia, futuro, sustentabilidade, tudo isso é atravessado por questões de gênero.

Porque transição ecológica sem transição de poder é só marketing verde. E ter mulheres na liderança não é um detalhe progressista, é eixo de transformação. Talvez com mais mulheres decidindo, a lógica do cuidado deixasse de ser vista como fragilidade e passasse a ser entendida como estratégia de futuro.

Defender aquele trabalho, em inglês, na Europa, com meu corpo em transição, longe do Brasil, foi um manifesto poderoso, íntimo e irreversível.

E termino esse texto com a frase que encerrei minha defesa: Liderança sustentável é entender quem tem poder de fala e como suas palavras são recebidas. E entender esse poder simbólico é fundamental para desenhar futuros mais justos e inclusivos.

Organização financeira: quanto custa a liberdade

Se estruturar financeiramente para um movimento como esse não é apenas montar uma planilha. É escolher, com todas as consequências. É colocar o dinheiro a serviço da vida.

Para sair do Brasil, antes de mais nada, eu precisei reduzir meus custos. O primeiro passo foi o apartamento. Eu não queria vender porque ainda não sabia se voltaria. Voltar em dois meses? Voltar no meio? Ficar de vez? Tudo era possível.

Tive a sorte de ter uma amiga que topou morar no meu apartamento. Do jeito que estava. Com as minhas coisas. Ela cuidou da casa melhor do que eu. Estratégia financeira afetiva na prática. E aqui entra a importância das relações de novo.

Mantive apenas o celular, porque o trabalho me encontra pelo WhatsApp, e o plano de saúde, porque ainda confio mais em fazer check-up no Brasil do que na burocracia fria do seguro internacional.

Depois de muito planejamento, estabeleci um número: 210 mil reais seria o teto para viver dois anos fora. Eu sei, o valor assusta. Quem tem 210 mil reais para apostar assim, no escuro?

Mas a dura realidade é que, devido ao câmbio, precisamos dividir o patrimônio todo por 6,5. 210 mil reais são 32 mil euros. Dividido por 24 meses, dá 1,3 mil euros por mês. Tira daí uns 800 para moradia, sobra 500 euros para comer, viver, me mover, existir, viajar e morar no próprio corpo com dignidade.

Ou seja: não dá! E, mesmo assim, eu fui.

Depois dos 40, descobri que casa não é luxo, é base emocional. Eu abro mão de muita coisa, mas não abro mão de morar bem. Dividir quarto? Dormir mal? Viver desconfortável? Não mais.

Não em nome de uma planilha.

Então aceitei: meu maior gasto seria sempre a casa. Em troca, eu me organizei com todo o resto.

Criei uma planilha que daria orgulho a qualquer virginiano. Alimentação, transporte, esporte, lazer, viagem, imprevistos, burocracia (vistos, documentos). Previsto x realizado. Tudo anotado. Tudo decidido diariamente. Hoje sushi, amanhã macarrão com ovo. Não é sacrifício. É consciência.

No meio do caminho, percebi algo importante: dava para estudar E trabalhar. Isso mudou tudo. Me deu mais liberdade.

Claro, eu não conseguia trabalhar tanto quanto antes e precisava converter tudo para euros. Ainda assim, foi uma ajuda e tanto.

Também aprendi alguns hacks para viajar barato que são fundamentais.

Em 2006, passei dois meses na Europa graças ao Couchsurfing, me hospedando com pessoas que abriam suas casas em troca de intercâmbio cultural. Foi lindo, foi mágico e… foi o que me permitiu ficar todo esse tempo lá.

Agora conheci o Trusted House Sitters, uma plataforma que permite que donos de pets ofereçam suas casas para petsitters dispostos a cuidar dos seus bichinhos em determinadas datas. Fiz alguns em Viena mesmo, para ganhar reputação, e logo pude explorar outros lugares, como Graz e Zurique, em troca de passar dias na companhia de peludos fofinhos.

Não tem relação mais ganha-ganha do que essa para quem é apaixonada por animais como eu.

Também entendi que era preciso avaliar

as oportunidades com carinho. Um amigo me convidou para ir a Luxemburgo. A passagem era cara, mas quando teria essa oportunidade de novo? Fui! Valeu cada centavo.

Dinheiro virou dança, não prisão. E é importante dizer isso com todas as letras, porque transformar recurso em movimento, especialmente depois dos 40, é chacoalhar o status quo. Falar de números é arrancar o romantismo da equação e devolver à liberdade o que ela realmente é: uma decisão sustentada.

E é por isso que eu escolho falar de valores com clareza. Porque mulheres não foram ensinadas a fazer isso. E quase nunca se ensina que investir em si mesma também é ampliar patrimônio.

No total, dois anos de mestrado, estadias, viagens e vida plena custaram 350 mil reais. Ou seja, uma média aí de 2,2 mil euros por mês, o que não é nada mal para quem tava morando bem e se permitindo alguns luxos, né?

Mas melhora, porque aqui está a parte que quase ninguém conta: com trabalho, com o apartamento vendido e rendendo, com o dinheiro girando, o que realmente saiu do meu caixa foi cerca de 50 mil reais.

Ou seja, 7,7 mil euros para dois anos. 320 euros por mês.
Isso não é mágica. É estratégia financeira com afeto, coragem e verdade. É tirar o patrimônio da gaveta para colocá-lo em movimento, não em tijolo.

Se valeu?
Eu pagaria tudo de novo. Com juros de alegria, liberdade e muitas possibilidades.

Para quem quiser fazer parte do TrustedHouseSitters, usa o meu link que tem alguns benefícios: https://bit.ly/thsBeta

A arte de estar longe: quando o amor precisa resistir à ausência

Quando decidi vir para a Europa, eu sabia que não estava apenas mudando de continente, eu estava renunciando à presença física em capítulos importantes da vida de quem eu amo. Eu tinha plena consciência disso. Talvez seja uma característica de quem já passou dos 40: a gente já não se engana sobre o custo das escolhas.

Eu deixei para trás um laço muito profundo com meu sobrinho, que cresceu literalmente batendo na minha porta todos os dias. Deixei também três afilhados que estavam naquela fase linda de começar a reconhecer rostos, criar memória afetiva, formar o vocabulário das presenças. E, junto com eles, família, amigos, pessoas que foram meu eixo durante anos.

Ir embora é aceitar que algumas cenas da vida das pessoas que amamos simplesmente acontecerão sem a gente. Aniversários, datas, pequenas conquistas, o primeiro dente que caiu, o pedaço de bolo dividido na varanda, a bagunça do almoço de domingo.

Mas também entendi outra coisa: às vezes, sair é uma forma diferente de estar. Talvez, lá na frente, eu possa ser porto, abrigo, ponto de passagem. Talvez ter alguém que está longe, mas está no mundo, também expanda o horizonte de quem ficou.

A distância exige duas habilidades simultâneas: presença e ausênciaExistem momentos em que estar perto significa mandar uma foto, um áudio, um vídeo curto, um “olha isso” sem contexto, e isso basta. E existem dias em que amar também é se ausentar sem culpa, porque, para estar disponível para o outro, primeiro é preciso voltar para si.

Eu brinco, mas é verdade, que espero que o amor resista à minha incompetência ocasional de manter conversas. Porque eu sei o quanto uma mensagem pode ser importante. E sei também que existem dias em que simplesmente não dá. O fuso atrapalha, o corpo cansa, o espírito recolhe. E a gente precisa confiar que o amor das relações verdadeiras sabe atravessar esses silêncios.

Longe, coisas pequenas viram âncoras:
Os desenhos enviados pelos meus afilhados.
As visitas da minha mãe, em todos os quatro países onde morei, não como turista, mas como alguém que pisa no meu território e diz: “entendi, é aqui que tua vida acontece agora.” As duas idas ao Brasil, que foram menos viagem e mais reconexão de eixo.

E coisas que antes não tinham importância passaram a ter função de laço. Farofa, churrasco com pagode, ouvir samba. O corpo reconhece antes da mente: “aqui tem memória, aqui eu respiro.”

Depois dos 40, amar à distância deixa de ser espera, vira pacto silencioso.
A saudade existe. Ela não é romântica, não é dramática, ela é uma constatação madura de que não dá para estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E que toda escolha é uma renúncia, sim, mas também pode ser um gesto generoso de abrir caminho.

Talvez, mais do que estar presente o tempo todo, amar depois dos 40 signifique confiar que o vínculo suporta a ausência.
O amor não mora na frequência.
O amor mora na permanência.

E, se há algo que aprendi nessa travessia, é que estar longe não é o contrário de estar presente.
Às vezes, estar longe é só uma outra forma de ficar.

Aprender outra vez: desaprender para continuar

Quando comecei o mestrado, percebi logo no primeiro dia: eu era a aluna mais experiente da sala. Em idade, em carreira, em vida vivida.

Não era um incômodo, era uma constatação. A turma era excelente, cheia de gente brilhante, curiosa, articulada. Mas eu sabia que minha relação com o tempo era outra.

Aos 40 e tantos, a pressa muda de forma. Não é mais sobre chegar primeiro, mas sobre aproveitar melhor o caminho.

Conviver com pessoas muito mais jovens me lembrou uma conversa antiga com a minha mãe: até a geração dela, aprendíamos com os mais velhos; desde a revolução tecnológica, aprendemos, e muito, com os mais jovens.

E esse talvez seja o maior exercício dos nossos tempos: entender o que ainda vale daquilo que sabemos e o que precisa sair de cena para dar espaço ao novo.

Voltar a estudar depois de 20 anos de estrada profissional é um paradoxo bonito. Às vezes a prática refuta a teoria. Às vezes a teoria explica a prática. E a gente fica no meio, tentando equilibrar o que se sabe com o que se descobre.

O desafio é saber quando trazer a experiência para a mesa e quando simplesmente calar e ouvir.
Eu não estava ali para ensinar. Eu estava ali para aprender. E, para isso, precisei descer do palco. Quem já foi professora sabe o que é esse gesto: guardar a voz, deixar que o silêncio faça o seu trabalho.

E o mestrado me testou todos os dias. Em paciência, em humildade, em presença. Os mais jovens se desesperavam com prazos, choravam por pequenas crises. E, às vezes, eu olhava e pensava: “Ah, espera só o que vem depois.” Mas logo me lembrava que, na idade deles, talvez eu também tivesse feito o mesmo drama.

Aprendi demais com eles. Com cada um de um jeito.
Só o fato de sermos de 19 países diferentes já era uma aula de mundo por si só. Geopolítica, cultura, religião, costumes, afetos. Cada café era uma reunião da ONU em miniatura.

Descobri tradições que eu desconhecia. Descobri jovens com almas antigas e histórias de vida que caberiam em três encarnações. E descobri, sobretudo, a lindeza que é viver num mundo absolutamente diverso.

Houve aulas em que o professor falava e eu pensava: “Isso não funciona na vida real.” E, em outras, lembrava de quando eu mesma, quando jovem, trazia ideias novas e alguém dizia: “Ah, mas nós já tentamos e não deu.”
Talvez o erro não estivesse na ideia, mas no tempo e no contexto.

Durante o mestrado, escolhi conscientemente o papel de aprendiz. Olhei o conteúdo com curiosidade de criança. Tentei adiar o julgamento o máximo possível, porque julgar é o reflexo automático de quem já viveu muito.

Mas aprender é o ato intencional de quem ainda quer viver mais.

Os mestrados, especialmente na Europa, são automaticamente etaristas. Aqui, a graduação é generalista, e o mestrado virou caminho natural, se não obrigatório, para quem quer se profissionalizar. Por isso, as salas são cheias de gente muito jovem. E é raro ver ali alguém com 40 e tantos, não por falta de vontade, mas por falta de espaço, de estímulo, de política pública e de representação.

Que lindo seria se a diversidade etária fosse vista como potência. Se a maturidade estivesse na mesma prateleira da inovação.

Voltar a estudar depois dos 40 é um ato político. E um ato de amor próprio.
Porque é dizer, em voz alta:
“Não é sobre tudo o que eu já fiz, mas sobre tudo o que eu ainda posso fazer.”

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