Dublin foi a segunda parada. E existe um tipo de cansaço específico que nasce quando, assim que começamos a nos adaptar a um lugar, já é hora de ir embora e reaprender tudo de novo. Cheguei assim: entre a excitação de recomeçar e um esgotamento discreto de quem já entendeu que essa vida é feita de aeroportos internos.
De cara, Dublin se apresentou diferente de Lisboa. Mais cara. Mais ventosa. Mais espalhada. O transporte público dependia quase exclusivamente de ônibus. Tudo levava tempo. E, apesar de eu querer um canto só meu depois da experiência em Lisboa, a conta bancária respondeu antes do coração.
Dividi casa com um colega do mestrado. E foi bom, funcional, sensato. Dublin me ensinou que autonomia também é aprender a dividir.
Estar em um país de língua inglesa traz um misto de empolgação e vulnerabilidade. Quando todos falam inglês como segunda língua, existe um vocabulário comum, mais simples, mais acessível. Mas, quando o inglês é nativo, qualquer conversa de pub pode virar uma micro-humilhação fonética. Ainda assim, sobrevivi. Com exceção de uma aula em que, a cada dia, eu me sentava mais próximo do professor com a intenção de compreender melhor o seu sotaque. A estratégia não funcionou. Mas no fim deu tudo certo.
Tudo era muito caro. Um prato simples era luxo. Aprendi a cozinhar mais, planejar mais, dizer mais “hoje não”. Me aproximei do que era gratuito: parques, caminhada, mar gelado, vento no rosto. Foi também a cidade em que mais trabalhei, e talvez tenha sido exatamente isso que me salvou da melancolia do cinza e da falta de vitamina D.
Em Dublin, o calor veio de outro lugar. Enquanto Lisboa me ensinou a conquistar espaço, Dublin me recebeu com conversa. Irlandês adora falar. Na fila do banheiro. No ônibus. No bar. Na vida. Sentar no balcão de um pub é um convite não verbal para que alguém sente do lado e diga “so, where are you from?”, e pronto, uma microamizade nasce. Eu, que cheguei esperando frieza por causa do clima, encontrei calor humano no lugar menos óbvio.
Aprendi a deixar cair alguns estereótipos. Nem todo país frio é emocionalmente gelado. Tem afeto que vem rindo alto, segurando uma Guinness.
Reencontrei também uma amiga de muitos anos. Foi bonito perceber como relações significativas viajam, às vezes antes mesmo do corpo. E, apesar de ali não ter Taekwondo, teve vôlei, minha grande paixão.
Eu morava a dez minutos a pé da praia. Não era uma praia para mergulhar, era uma praia para contemplar. E, mesmo com vento atravessando o osso, estar perto da água me reequilibrava.
As paisagens eram outras: rochas, penhascos, um cinza bonito. Dublin tem uma beleza que não é solar, é geológica. Ela não te convida para deitar, ela te convida para permanecer de pé, caminhando, morro acima.
Dublin também foi portal. Foi dali que conheci Belfast, Glasgow, Edinburgh, e inclusive tive o prazer de apresentar Londres para minha mãe. Dublin me deu movimento mais do que permanência.
E, como catalisador de movimento, depois de dois meses, entendi que Dublin era uma passagem, não um destino. Não solicitei residência. E esse foi meu primeiro “não” geográfico consciente.
Lisboa me perguntou se eu poderia ficar.
Dublin me ensinou que eu poderia partir.
