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Lisboa: entre o choque inicial e a cidade que meu coração escolheu

Lisboa foi minha primeira parada. Um ponto de partida simbólico e emocional do mestrado. Um lugar onde eu já tinha estado quase 20 anos antes. Conhecido pela memória, desconhecido pela vida.

Cheguei com a expectativa de acolhimento. Talvez por ser um Brasil adjacente. Talvez por compartilhar idioma, sol e mar. Eu esperava afeto imediato. E, no entanto, chorei um pouquinho.

O choque cultural não foi escancarado. Foi sutil e silencioso, quase educado. Portugal consome muita cultura brasileira. Música, novela, arte. Nós, no Brasil, não sabemos quase nada de Portugal. Acreditamos que falar português é suficiente para comunicar. Não é. A língua é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é. O sorriso é o mesmo e, ao mesmo tempo, não é. A comida é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é.

Descobri, depois de um tempo, que o brasileiro inverteu a ordem mundial de gostar. A gente começa gostando! “Eu não te conheço, por que eu não gostaria de ti?” O resto do mundo começa neutro ou desconfiado. “Eu não te conheço, por que eu gostaria de ti?” A partir daí, os pontos vão sendo ganhos ou perdidos.

Foi nesse intervalo cultural que Lisboa me deu o meu primeiro estranhamento real de estar fora.

A primeira casa onde morei era um lugar onde eu estava, mas não pertencia. Casa de uma portuguesa, com um filho adolescente. Não era partilha, era hospedagem hierarquizada. E havia uma desorganização que me tirava do eixo.

Mas isso teve um efeito inesperado: eu saía. Eu ocupava a cidade.

Porque às vezes o desconforto é o melhor motor de movimento.

Foi aí que Lisboa começou a acontecer, do lado de fora. Um reencontro. Um almoço depois de dez anos sem contato. Contei da casa. Do incômodo. Do quase-pertencimento. E ela me ofereceu abrigo: “Vou para o Brasil, o apartamento fica vazio. Fica lá até o fim do ano.”

E eu fui.

E, pela primeira vez, me senti morando e não apenas estando. Sozinha, numa casa que tinha cheiro de Brasil e silêncio suficiente para alguém de 40 anos respirar. Isso ressignificou minha relação com a cidade.

Quando chegou o momento de escolher onde fazer o estágio, eu poderia ter ido para qualquer cidade do mundo. E escolhi voltar para Lisboa. Voltei não porque era mais fácil, mas porque algo já tinha enraizado ali.

E aí Lisboa me deu um presente: um verão inesquecível.
Trabalhei. Tomei vinho. Beijei. Transei.
Fui à praia. Trabalhei da praia. Fui à praia antes do trabalho. Fui à praia depois do trabalho.
Fui farofeira de levar a marmita e o vinho na bolsa. Fui sofisticação de alugar cadeira no beach club. Fui turista e fui moradora.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti que viver e trabalhar podiam coexistir, sem que um engolisse o outro.

Lisboa me mostrou que dá para viver com sol, com gente de todo o mundo, com eventos acessíveis, com café na esquina e mar a 20 minutos. Lisboa me deu o primeiro vislumbre de que talvez eu pudesse construir uma vida inteira fora do Brasil e, ainda assim, me sentir em casa.

Lisboa não me recebeu com festa. Mas, com o tempo, ela me ofereceu uma chave. E eu cuido dela com muito carinho. Quem sabe um dia eu decida ficar?

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