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Viena: o verão espiritual e a finitude

Antes de chegar em Viena, fiz um desvio bonito. A temporada em Poznań acabou no fim de janeiro, passei fevereiro em Lisboa, atravessei o Atlântico para 15 dias de trabalho em Austin (SXSW) na primeira quinzena de março e, de lá, segui direto para Viena, meu quarto endereço no ano. Em menos de três meses. Corpo treinado em recomeços. Bora para mais uma.

A faculdade não ficava em Viena; ficava em Krems, a 1h30 de trem. Desde o início, decidi: vou morar na capital. Não tenho nem dúvidas sobre isso! Depois de Poznań, eu já sabia que sou pessoa de cidade grande. E, como as aulas presenciais seriam só no primeiro mês e meio, fazia sentido morar onde a vida me chamava, não onde a conveniência pedia.

Viena me recebeu com uma elegância silenciosa. Linda, grande, impecável, e, às vezes, curiosamente vazia. Descobri que Viena não expõe seus lugares; ela os esconde. Não há “rua dos bares” ou “quarteirão dos restaurantes”. É preciso ser apresentada à cidade. Viena é cidade que se abre por confiança, não por evidência. E isso cria uma intimidade especial.

O transporte é um acontecimento à parte: tudo se conecta com tudo. Demora um pouco pelas baldeações, mas chega-se em qualquer lugar. Comprei o Klimaticket e, de repente, tinha o país inteiro no bolso. Isso me colocou ainda mais em movimento.

Logo ali, fiz um acordo comigo: pausar o trabalho por um tempo para escrever a tese. Eu me conheço, se trabalho e pesquisa disputassem o mesmo espaço, o trabalho ganharia por hábito, não por importância. Viena virou laboratório de foco.

Também virou lugar de encontros de culturas improváveis para mim: Sérvia, Ucrânia, Romênia, Kosovo. Países tão distantes no meu imaginário que passaram a ter rosto, fala e abraço. E teve abraço carinhoso do amigo de infância que já chamava a Áustria de casa há muitos anos. Como amo essas relações do bem.

Descobri a vida do Danúbio: alugar barquinho, piquenique no rio, vinho ao pôr do sol, mergulho nas margens e conversa longa. Água de novo. Sempre que posso, eu corro para a água. É ali que eu recalibro o eixo.

Encontrei uma turma enorme de vôlei (se não fosse tão caro, eu jogava todo dia). Me matriculei numa academia só para mulheres. No início estranhei, depois entendi, o bairro tinha muita imigração turca, muitas mulheres muçulmanas. Aquele era um espaço fechado para que elas pudessem treinar sem hijab. Design social na prática: quando o espaço muda, a liberdade muda junto. Gostei desse cuidado.

O alemão foi menos assustador do que eu imaginava. Talvez pela infância no sul do Brasil, o ouvido já tinha memória de sons. Morei bem, bons apartamentos, boas localizações, e segui na estrada: Luxemburgo, Bratislava, Budapeste, Brno, Salzburg, Graz, Zürich.

Viena, para mim, foi verão. Literal e espiritual. Trouxe calor, amizades, paixões, leveza… E trouxe finitude.
Porque no dia 8 de agosto, eu finalizei o mestrado. Data marcada, ritual de fim. Cerimônia de graduação.
Eu precisava desse ponto final, não por drama, mas por método.

O mestrado foi a desculpa perfeita para desmobilizar a vida no Brasil. Fechar esse ciclo, para mim, é autorizar um começo novo: repensar rumo, trabalho, empresa, Europa como possibilidade concreta.

Se Poznań me ensinou a manter o meu verão aceso por dentro, Viena veio checar se ele resistiria até o último capítulo.
Resistiu. Cresceu. Transbordou.

Não sei se Viena é o lugar para ficar agora, mas é um lugar onde me vejo ficando. Talvez um dia. Talvez em outro verão.
Por enquanto, fico com a imagem que me acompanha: um barquinho no Danúbio, uma garrafa de vinho, as lindas rosas nas calçadas, risos em muitos sotaques, e a tranquilidade adulta de quem sabe recomeçar, e começa a aprender a permanecer.

Poznań: Aprender a manter o verão aceso no meio do inverno

Poznań foi reencontro. Depois de Dublin, onde cada um da turma tinha se espalhado por bairros distantes, e depois de cinco meses de estágio em países completamente diferentes, foi a primeira vez em muito tempo que voltamos a habitar a mesma cidade. Não era Lisboa, nem Dublin, nem Viena. Era Poznań. A única que não era capital. A menos óbvia. A que quase ninguém sabia apontar no mapa.

Eu mesma, antes de começar o mestrado, dizia: “vou estudar em Lisboa, Dublin, Viena e… na Polônia”. Ao invés de mencionar a cidade desconhecida, apelava para o país pouco óbvio. Um lugar que nunca esteve no meu imaginário de vida. E mesmo assim, foi palco de um período espiritualmente muito importante para mim.

Depois de pagar caro por tudo em Dublin, Poznań foi um alívio financeiro. Alimentação mais barata, transporte eficiente, e um apartamento só meu, moderno, limpo e no centro. Eu ia a pé para a universidade, a pé para o centro, a pé para os restaurantes. Tudo era perto. Tudo era possível.

Poznań é uma cidade organizada, limpa, bonita, com cara de cartão-postal. Bonita de um jeito que não grita. Bonita de um jeito que repousa.

Mas havia algo no ar, um peso histórico quase invisível, uma melancolia coletiva que se sente antes de se entender. E eu precisei aprender a habitar essa atmosfera sem deixar minha luz apagar.

Se o inglês da Irlanda já exigia esforço, o polonês me colocou oficialmente na categoria

de analfabeta funcional. As placas pareciam enigmas. As palavras tinham consoantes demais para caber na boca. No mercado, desisti de traduzir rótulos e comecei a pegar coisas por instinto. Resultado: comprei lenços umedecidos com aroma de framboesa e meu bumbum cheirou a doce por um mês inteiro.

E a saga do leite condensado polonês: tentei cinco versões. Nenhuma era. Só fui encontrar o verdadeiro, glorioso leite condensado… em Berlim. Aproveitei a proximidade para visitar uma família querida de amigos e vim com a mala cheia de latas do abençoado e um grande pacote de pão de queijo. E uma sementinha plantada que mudaria todo rumo dessa aventura.

O frio polonês não me assustou. O que me abalou foi o dia terminando às quatro da tarde. Quando a luz vai embora tão cedo, o corpo começa a entrar em modo econômico sem avisar.

Eu parei de fazer exercício. Saía menos. Ficava mais em casa. E um dia percebi: a melancolia tinha chegado sorrateira. Poznań é um lugar onde o inverno testa a alma antes de testar o corpo.

Mas, e aqui está minha insistência, eu me recusei a deixar de dizer bom dia. Mudei minha rota só para cumprimentar a senhora da recepção da universidade. Ela se assustava. E eu achava isso lindo. Passei quatro meses com duas expressões em polonês e um sorriso no rosto. Bastou.

Passei o primeiro Natal longe da minha irmã. E sobrevivi porque fui acolhida por uma família brasileira, amigos de longa data, em Idstein, na Alemanha. Me senti como se sempre tivesse sido parte daquela tradição. Mais uma prova viva de que o lar viaja nas pessoas.

O Réveillon, esse sim, foi em Poznań. Entre Soplicas (a vodka polonesa que engana com sabor doce e golpeia só depois), risadas e um nível de conforto coletivo raro. Ninguém lembra se teve fogos. O que é, para mim, uma medida exata de alegria.

Entre pierogis, neve e vínculos, Poznań virou ritual de reconexão. Comi os melhores ramens da Europa ali. Caminhei na neve, vi a cidade coberta de luzes de Natal. E mais do que tudo: me reconectei com a minha turma do mestrado. Sem grandes eventos urbanos para nos distrair, nós éramos o evento.

Poznań foi cidade de reconciliação interna. Uma busca incessante por um pedaço de água que despertasse em mim a conexão divina que sempre me moveu. Obrigada, Lago Rusalka!

E foi só no fim que entendi: Poznań não queria que eu me apaixonasse por ela. Queria que eu me observasse dentro dela.

Entre Gdańsk, que me surpreendeu pela beleza inesperada, e Krakow, que me entregou 50 tons de bege e uma corrida cinematográfica para não perder o trem de volta depois de visitar Auschwitz sob uma nevasca pesada, a Polônia me colocou em movimento até quando eu estava cansada.

No dia 31 de dezembro, enquanto o mundo esperava fogos, eu estava em Varsóvia, fazendo a entrevista do visto americano para um trabalho que me levaria ao Texas meses depois. Foi o processo mais fácil da minha vida.

Como se a Polônia, silenciosamente, dissesse: “Você pode ir. O caminho está aberto.”

Poznań não foi um lugar de encantamento. Foi um território de passagem espiritual. Um ensaio de inverno. E foi ali, no meio do frio, com o corpo mais pesado e a luz indo embora cedo demais, que aprendi uma das lições mais adultas dessa jornada:

Nem todo lugar onde a gente para é para ficar. Mas todo lugar onde a gente passa nos prepara para chegar melhor no próximo.

Viena viria em seguida.

E meu verão interno estava a postos.

Dublin: A cidade que me ensinou a partir

Dublin foi a segunda parada. E existe um tipo de cansaço específico que nasce quando, assim que começamos a nos adaptar a um lugar, já é hora de ir embora e reaprender tudo de novo. Cheguei assim: entre a excitação de recomeçar e um esgotamento discreto de quem já entendeu que essa vida é feita de aeroportos internos.

De cara, Dublin se apresentou diferente de Lisboa. Mais cara. Mais ventosa. Mais espalhada. O transporte público dependia quase exclusivamente de ônibus. Tudo levava tempo. E, apesar de eu querer um canto só meu depois da experiência em Lisboa, a conta bancária respondeu antes do coração.

Dividi casa com um colega do mestrado. E foi bom, funcional, sensato. Dublin me ensinou que autonomia também é aprender a dividir.

Estar em um país de língua inglesa traz um misto de empolgação e vulnerabilidade. Quando todos falam inglês como segunda língua, existe um vocabulário comum, mais simples, mais acessível. Mas, quando o inglês é nativo, qualquer conversa de pub pode virar uma micro-humilhação fonética. Ainda assim, sobrevivi. Com exceção de uma aula em que, a cada dia, eu me sentava mais próximo do professor com a intenção de compreender melhor o seu sotaque. A estratégia não funcionou. Mas no fim deu tudo certo.

Tudo era muito caro. Um prato simples era luxo. Aprendi a cozinhar mais, planejar mais, dizer mais “hoje não”. Me aproximei do que era gratuito: parques, caminhada, mar gelado, vento no rosto. Foi também a cidade em que mais trabalhei, e talvez tenha sido exatamente isso que me salvou da melancolia do cinza e da falta de vitamina D.

Em Dublin, o calor veio de outro lugar. Enquanto Lisboa me ensinou a conquistar espaço, Dublin me recebeu com conversa. Irlandês adora falar. Na fila do banheiro. No ônibus. No bar. Na vida. Sentar no balcão de um pub é um convite não verbal para que alguém sente do lado e diga “so, where are you from?”, e pronto, uma microamizade nasce. Eu, que cheguei esperando frieza por causa do clima, encontrei calor humano no lugar menos óbvio.

Aprendi a deixar cair alguns estereótipos. Nem todo país frio é emocionalmente gelado. Tem afeto que vem rindo alto, segurando uma Guinness.

Reencontrei também uma amiga de muitos anos. Foi bonito perceber como relações significativas viajam, às vezes antes mesmo do corpo. E, apesar de ali não ter Taekwondo, teve vôlei, minha grande paixão.

Eu morava a dez minutos a pé da praia. Não era uma praia para mergulhar, era uma praia para contemplar. E, mesmo com vento atravessando o osso, estar perto da água me reequilibrava.

As paisagens eram outras: rochas, penhascos, um cinza bonito. Dublin tem uma beleza que não é solar, é geológica. Ela não te convida para deitar, ela te convida para permanecer de pé, caminhando, morro acima.

Dublin também foi portal. Foi dali que conheci Belfast, Glasgow, Edinburgh, e inclusive tive o prazer de apresentar Londres para minha mãe. Dublin me deu movimento mais do que permanência.

E, como catalisador de movimento, depois de dois meses, entendi que Dublin era uma passagem, não um destino. Não solicitei residência. E esse foi meu primeiro “não” geográfico consciente.

Lisboa me perguntou se eu poderia ficar.

Dublin me ensinou que eu poderia partir.

Lisboa: entre o choque inicial e a cidade que meu coração escolheu

Lisboa foi minha primeira parada. Um ponto de partida simbólico e emocional do mestrado. Um lugar onde eu já tinha estado quase 20 anos antes. Conhecido pela memória, desconhecido pela vida.

Cheguei com a expectativa de acolhimento. Talvez por ser um Brasil adjacente. Talvez por compartilhar idioma, sol e mar. Eu esperava afeto imediato. E, no entanto, chorei um pouquinho.

O choque cultural não foi escancarado. Foi sutil e silencioso, quase educado. Portugal consome muita cultura brasileira. Música, novela, arte. Nós, no Brasil, não sabemos quase nada de Portugal. Acreditamos que falar português é suficiente para comunicar. Não é. A língua é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é. O sorriso é o mesmo e, ao mesmo tempo, não é. A comida é a mesma, mas, ao mesmo tempo, não é.

Descobri, depois de um tempo, que o brasileiro inverteu a ordem mundial de gostar. A gente começa gostando! “Eu não te conheço, por que eu não gostaria de ti?” O resto do mundo começa neutro ou desconfiado. “Eu não te conheço, por que eu gostaria de ti?” A partir daí, os pontos vão sendo ganhos ou perdidos.

Foi nesse intervalo cultural que Lisboa me deu o meu primeiro estranhamento real de estar fora.

A primeira casa onde morei era um lugar onde eu estava, mas não pertencia. Casa de uma portuguesa, com um filho adolescente. Não era partilha, era hospedagem hierarquizada. E havia uma desorganização que me tirava do eixo.

Mas isso teve um efeito inesperado: eu saía. Eu ocupava a cidade.

Porque às vezes o desconforto é o melhor motor de movimento.

Foi aí que Lisboa começou a acontecer, do lado de fora. Um reencontro. Um almoço depois de dez anos sem contato. Contei da casa. Do incômodo. Do quase-pertencimento. E ela me ofereceu abrigo: “Vou para o Brasil, o apartamento fica vazio. Fica lá até o fim do ano.”

E eu fui.

E, pela primeira vez, me senti morando e não apenas estando. Sozinha, numa casa que tinha cheiro de Brasil e silêncio suficiente para alguém de 40 anos respirar. Isso ressignificou minha relação com a cidade.

Quando chegou o momento de escolher onde fazer o estágio, eu poderia ter ido para qualquer cidade do mundo. E escolhi voltar para Lisboa. Voltei não porque era mais fácil, mas porque algo já tinha enraizado ali.

E aí Lisboa me deu um presente: um verão inesquecível.
Trabalhei. Tomei vinho. Beijei. Transei.
Fui à praia. Trabalhei da praia. Fui à praia antes do trabalho. Fui à praia depois do trabalho.
Fui farofeira de levar a marmita e o vinho na bolsa. Fui sofisticação de alugar cadeira no beach club. Fui turista e fui moradora.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti que viver e trabalhar podiam coexistir, sem que um engolisse o outro.

Lisboa me mostrou que dá para viver com sol, com gente de todo o mundo, com eventos acessíveis, com café na esquina e mar a 20 minutos. Lisboa me deu o primeiro vislumbre de que talvez eu pudesse construir uma vida inteira fora do Brasil e, ainda assim, me sentir em casa.

Lisboa não me recebeu com festa. Mas, com o tempo, ela me ofereceu uma chave. E eu cuido dela com muito carinho. Quem sabe um dia eu decida ficar?

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