Taekwondo: reencontro com o corpo, com a força e com a casa

Eu preciso falar sobre o Taekwondo. Não só pelo que ele significa no meu reencontro com o corpo, mas também porque, quando eu vim para Portugal, o Taekwondo foi família para mim.

É impressionante quando um esporte te entrega muito mais do que você esperava. Quando ele te devolve algo que você nem sabia que tinha perdido.

Eu sempre pratiquei esportes. Desde cedo. Patinação artística dos 7 aos 18. Vôlei desde os 12, talvez 13. Futebol, handebol, muay thai, natação, pilates…

Todos me ensinaram algo, e eu sempre gostei de todos.

Mas, para ser honesta, o único que me tirava de casa feliz de verdade era o vôlei. Sempre foi.

E aí veio a pandemia. E, quando a gente menos espera, entra num ciclo péssimo: não faz nada → sente preguiça → o corpo pesa → a autoestima cai → a mente desanima. E tudo vai se desconectando.

A terapia foi o que me ajudou a quebrar esse ciclo.

Foi nesse processo que eu comecei a pensar em fazer uma arte marcial. Algo que me desse controle do corpo, da mente e também o poder de defesa. Mas eu queria mais que força: eu queria filosofia. Queria propósito.

Minha primeira pesquisa foi sobre karatê. Mas alguém fez um bom trabalho e o Google me levou até uma escola de Taekwondo Songahm.

Eu não fazia ideia do que era, mas resolvi experimentar.

Na primeira aula, entendi duas coisas: Primeira, que seria difícil para caramba! Muitos nomes em coreano, chutes, técnicas, músculos que eu nem sabia que existiam. E segunda, que era exatamente disso que eu precisava. Do desafio. Do desconhecido.

Logo depois da aula experimental, o instrutor me explicou que a matrícula era anual. Um ano inteiro de compromisso.

Para alguém com commitment issues, aquilo parecia um casamento!

Mas uma voz lá dentro me disse: “Talvez seja isso que você precise para realmente se comprometer. Com você mesma!”

E eu fiquei.

O Taekwondo Songahm é diferente do Taekwondo olímpico. Tem mistura com outras artes marciais, especialmente nas combinações.

Mas a base é a mesma: respeito, disciplina, corpo, mente. Tem fórmulas, armas, defesa pessoal, luta.

E ali eu fui me redescobrindo. Me redescobri flexível, especialmente em comparação com os coleguinhas. E me descobri muito fraca. E tudo bem! Um dia eu conseguiria fazer 10 flexões. Aquele era só o começo.

Teve uma perna quebrada no meio do caminho (porque ninguém disse que seria fácil). Mas aos poucos, o corpo foi se moldando. A mente, também.

Como faixa laranja, a segunda graduação, participei do Torneio Brasileiro.

A adrenalina daquele momento me lembrou o que eu sentia no vôlei. O “eu posso mais”. O “eu quero mais disso”.

Quando vim para Portugal, a primeira coisa que procurei foi:

“Escola de Taekwondo Songahm em Lisboa.” E encontrei.

Na Stat Campo Pequeno, achei uma nova família. Um lugar conhecido, de acolhimento, de risada, de amizade. O tatame virou casa. E, mais uma vez, foi o esporte que me trouxe pertencimento.

O Taekwondo mudou meu corpo, sim. Eu brinco que sou fat and fit, e é verdade. Ganhei músculos, mobilidade, cicatrizes e algumas medalhas.

No dia do meu aniversário, participei do Nacional Português pela segunda vez. E este ano, mais do que comemorar os resultados, comemorei o ringue de mulheres de 42 a 55 anos, que começaram no taekwondo quando muita gente acha que não dá mais para começar nada. E que estavam lá, competindo e, ao mesmo tempo, torcendo e vibrando umas com as outras.

Começei aos 41 e, hoje, aos 44, sou faixa azul. Ainda falta um caminho para a preta. Mas eu não tenho pressa. Depois dos 40, a gente aprende a confiar no processo e na magia das coisas. Aliás, não necessariamente por vontade própria, mas na última graduação eu não fiz dez flexões, mas 40!

Não estou aqui para recomendar o Taekwondo para todo mundo.

Cada um tem o seu “Taekwondo”, aquilo que faz o corpo acender, os olhos brilharem e a alma respirar.

Mas procure o seu.

Aquele lugar onde você se sente desafiado, vivo e inteiro.

Porque o corpo é casa, e como diz a tatuagem que fiz logo no primeiro semestre em Portugal: My home is within! E a sua também!

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