Eu sempre fui assim: mais apaixonada pela amplitude do que pela profundidade única. Preferi saber um pouco de muitas coisas do que mergulhar eternamente em apenas uma. Terapia é um ato de amor. E autoconhecimento é liberdade.
E, sinceramente, acho que isso me deu algumas coisas preciosas: flexibilidade cognitiva, amplitude de visão, capacidade de olhar para o mundo de múltiplas perspectivas.
Talvez isso também venha do jornalismo, essa profissão que nos treina a perguntar, a duvidar, a buscar o outro lado da história. Aliás, os outros lados da história.
Era 2019 quando a ideia me atravessou pela primeira vez: fazer um mestrado internacional. Não sei de onde exatamente surgiu. Talvez de um desejo acumulado. Talvez de um incômodo silencioso. Talvez da fome de pausar a lógica do produzir e entrar na lógica do refletir.
Porque esse é o dilema de quem ama muitas coisas: a gente se apaixona rápido, mas o mundo cobra constância. E, no ritmo do trabalho, a gente entrega, entrega, entrega… mas raramente tem tempo para aprofundar.
Eu queria esse tempo. Um tempo de estudo com sentido.
E, por algum motivo, eu coloquei na cabeça que seria a Suécia.
Comecei a pesquisar bolsas e encontrei a SI Scholarship, do Swedish Institute for Global Professionals. Uma bolsa para jovens líderes. Ok, talvez o “jovem” fosse discutível, mas todos os critérios estavam lá. Com sobra.
E eu tive certeza. Não aquela certeza lógica, mas aquela certeza que a gente sente embaixo da pele, nos ossos, quando tudo parece alinhado. Quando todos os sinais, todas as energias, todas as coincidências dizem: é isso!
Mas não foi.
O meu nome não estava na lista.
Eu li. Reli.
Voltei no site no dia seguinte.
E chorei. Muito.
Talvez ali tenha sido a primeira vez que a palavra etarismo atravessou meu pensamento com corpo. Ou talvez tenha sido só frustração pura. Só sei que doeu.
Logo depois veio a pandemia.
E eu entendi, com aquela sabedoria que a vida nos empurra, que, talvez, não era mesmo para acontecer naquele momento. Porque a experiência que eu desejava, de mundo, de travessia, de pertencimento em movimento, teria sido completamente distorcida pelo isolamento.
Às vezes, a vida nos nega algo para proteger o desejo.
Os anos passaram. E, em 2023, a vontade voltou. Mas diferente. Não era mais só sobre estudar. Era sobre mexer nas estruturas da minha própria vida.
Eu tinha casa. Empresa. Estabilidade. Rotina. E afeto, sempre muito afeto.
Mas também tinha uma bolha de conforto que já não me alimentava. Eu estava confortável demais para estar viva de verdade. E eu sempre fui movida pela expansão.
Comecei a pesquisar outras possibilidades, e foi aí que encontrei os mestrados Erasmus Mundus. Aprovada, tomei uma decisão: ia desmobilizar tudo.
E não romantizo isso, não é fácil abrir mão de uma vida estável, de um patrimônio construído, de um endereço que te reconhece. É abrir uma planilha, dividir o patrimônio por 6,5. E respirar fundo!
É reconhecer que conforto demais também é um tipo de prisão silenciosa.
Seriam dois anos de outra vida. Dois anos de identidade reorganizada, de empresária para estudante. Dois anos de viagens, idiomas, países, adaptações infinitas. Dois anos para me perder e me encontrar. De novo e de novo.
Até entender que toda travessia é, antes de tudo, um exercício de fé:
Fé no caminho. Fé no tempo. Fé em mim.
E, no fundo, eu sabia:
o verdadeiro mestrado seria a vida.
Porque foi ela quem me ensinou que a transformação é o diploma que a gente emite em movimento.
